Uma Grande Resposta a Uma Grande Provocação

Olá amigos

Eu alguns dias atrás fiz uma provocação aqui no blog e lá no Facebook convidando as pessoas a refletirem sobre o nosso papel de educadores/professores, de questionar o sistema, de olhar pra frente e tentar ver se estamos no caminho certo ou não. Bem, vários amigos queridos participaram e deixaram suas contribuições no blog e lá no Facebook. O meu amigo José Carlos Antônio (@profjc) fez uma colocação que eu gostaria de compartilhar aqui com vocês. Após a leitura que tal fazermos uma reflexão?

“Grande Robson!

Excelente iniciativa. Excelente texto. Excelentes reflexões. Ou seja, nenhuma novidade, você continua ótimo!

Puxa-saquismo à parte, confesso que não tenho nenhuma resposta para suas indagações. Mas vou explicar por quê. E vou tentar fazê-lo à partir de uma estratégia um pouco inusual.

Imagine-se como um professor 30 anos atrás. Como você estaria preparando seus alunos para que eles enfrentassem o futuro e hoje fossem pais competentes dos alunos que temos nas escolas e cidadão capazes de lidar com o mundo atual?

Hum… Veja bem, esses seus alunos de 30 anos atrás são os adultos que estão no mercado de trabalho, ou desempregados; são policiais e bandidos, são professores e analfabetos funcionais, são políticos e eleitores, são pais dos seus alunos atuais. O que foi feito deles, com eles e para eles nos idos tempos de colégio 30 anos antes? 30 anos atrás não tínhamos internet, nem celulares, nem TV a cabo, NetFlix e TEDs. Há 30 anos éramos idiotas?

Talvez fôssemos, mas na verdade é mais provável que tenhamos sido apenas humanos incapazes de prever o futuro. Como, aliás, continuamos a ser hoje em dia.

Porém, não nos perguntávamos, com a frequência e desespero como fazemos hoje, como deveríamos educar nossas crianças para o futuro. Apenas educávamos para lhes ensinar valores, conceitos e técnicas que acreditávamos serem necessárias para qualquer um, em qualquer situação presente ou futura.

Nós sabíamos nada sobre o futuro e nem éramos capazes de imaginá-lo como o nosso presente atual. Mas isso não nos era problema. Não tínhamos a pretensão da futurologia.

E hoje? Hoje nos perguntamos como devemos educar as crianças para um futuro que temos certeza de não sermos capazes de imaginar (talvez isso seja uma evolução, mas será que é?). E, no entanto, além da certeza sobre o futuro também perdemos outras certezas. Muitas.

Tudo, absolutamente tudo, o que você colocou no seu texto eu me atreveria a resumir assim: não temos mais certeza sobre que conteúdos, habilidades, competências, valores e práticas devemos ensinar. Não temos certeza sobre modelos de escola, currículos, competências ou valores.

Talvez nossa incerteza e nosso “medo de errar” venha da constatação de que nesses 30 anos quase nada deu certo na Educação e na sociedade. Vivemos há décadas numa montanha russa à espera de uma subida.

Talvez seja apenas um modismo desse início de século crer que estejamos realmente perdidos. Ou será que nos convenceram de que somos mesmo incapazes de encontrar rumos? Ou pior, será que acreditamos mesmo que estamos sem rumo?

Nas últimas duas décadas tenho refletido sobre tudo isso. Tenho feito muitos experimentos, muitas observações. E a cada dia tenho mais certeza de que o que perdemos de fato foram apenas as nossas certezas. Vivemos as décadas da desilusão. Do crer que já não vale a pena acreditar. Há quem veja isso como ganho.

Às vezes para seguir adiante é preciso dar alguns passos para trás. Principalmente se você estiver à beira de algum abismo. Talvez estejamos mesmo precisando voltar um pouco no tempo, para aquela época em que acreditávamos em algo e fazíamos o que tinha que ser feito. Essa vida de incertezas contemplativas, de aventuras sem convicção, de discursos vazios sob holofotes e claques, isso não está prestando não.

Terminando, então: não tenho respostas. Só tenho minhas certezas. Não tenho medo de errar. Tenho medo de passar a vida não fazendo nada na esperança de um dia descobrir o “certo”. Educo meus alunos para serem pessoas melhores. Simples assim. E o que é mais curioso: isso independe do modelo de escola, independe do currículo oficial, independe dos recursos tecnológicos e até mesmo do que chamam por aí de “inovações”. É incrível o que se pode fazer com apenas umas poucas convicções.
Grande abraço!

P.S.: Espero ter confundido muita gente. Essa é uma das minhas convicções: sem confusão não há reordenamento.”

Que tal? O que tem a me dizer sobre isso? Leia também os outros comentários na postagem original que estão igualmente fantásticos.

Um grande abraço

Robson Freire

Estamos no caminho certo de como construir o estudante do século 21?

Olá amigos

Há dias eu venho divagando e digerindo um montão de coisas. Filmes que eu assisto e que me fazem pensar ( Spare Parts, A Rainha de Katwe,  Moonlight, A Chegada e Estrelas Além do Tempo) , textos ( 1 2 3 4 5 ) e livros (1) que leio e até andar sem rumo nas redes sociais tá nesse rolo ( 1 2 3 ). Essa inquietação culminou com a aprovação da reforma do ensino médio. Mas a questão que sempre volta a me incomodar é o papel da educação e da formação do estudante diante disso tudo.

A minha cabeça fervilha de perguntas….. 

Os estudantes brasileiros estão sendo preparados para o futuro? A escola está preparada para receber esse aluno? Os currículos são adequados para as necessidades do século 21? O professor está pronto pra ensinar esse aluno? As metodologias e práticas pedagógicas atuais e seus modismos (PBL, Aprendizagem Centrada no Aluno, Cultura Maker, Mobile Learning, REA,  Mooc, EaD, etc..) darão o suporte necessário ao professor para ensinar esses alunos? Qual o papel da tecnologia nessa formação?

Mas a principal pergunta é: Para que futuro esse aluno deve estar preparado?

Numa passadinha rápida pelo YouTube na página do TED Talks vocês irão ver uma quantidade imensa de palestras sobre como “mudar a educação“. Eu fico sinceramente desconfiado de que ou eu sou muito burro ou os caras tem a receita de como fazer a pedra filosofal. Só pode. Tem muitas palestras de como fazer o aluno moderno, como transformar a escola em centros de excelência (quero ver fazer isso na África sem recurso nenhum), de como fazer o professor mudar de vinho nacional pra um Château Lafite Rothschild em um piscar de olhos. Essa palestras, quando muito, servem para dar um direcionamento ou dicas de como agir pontualmente em determinadas situações ou contextos educacionais. Mas não serve pra todo mundo nem para tudo.

O historiador inglês Eric Hobsbawm disse que “a tarefa de educar as pessoas nesse século talvez não seja tão ruim quanto ao século anterior, que já tinha visto duas grandes guerras“. Ele também coloca que A experiência humana perdeu espaço no fim do século 20 para as técnicas de administração do mundo.”. Aí começam as perguntas necessárias: Como preparar crianças e jovens para enfrentar, e quem sabe melhorar, uma sociedade desigual e polarizada, com ricos cada vez mais ricos e com uma competitividade crescente a custa de uma desigualdade sem igual de muitos? O que fazer para que a geração que hoje vai para as escolas aprenda a proteger o planeta e a respeitar o próximo? Qual a melhor maneira de mostrar a esses jovens, habituados a relações virtuais, o quão valioso é o contato físico, o olho no olho?

Os desafios nunca foram tão grandes, e o papel da escola nesse processo de formação e superação é crucial.

O educador Moacir Gadotti diz que Não basta apenas entregar um conjunto de informações: é preciso preparar para pensar”. Mas pensar como? Voltado para que “norte”? O tecnológico? O da inovação? O do fazer? O da criatividade ou da sustentabilidade? A tão propalada ideia do pensar fora da caixa (o que seja lá essa maldita caixa)? Ou tudo isso junto e misturado?

Outra vez Moacir Gadotti volta a dizer que “A grande mudança pode ser sintetizada no conceito de Educação para toda a vida”. Isto é, a aquisição de conhecimentos não se limita à escola: ela nunca pára de acontecer. Esse debate vem desde lá os anos 90, quando a Unesco encomendou ao político francês Jacques Delors um relatório sobre a educação para o novo século. No texto, concluído em 1996, Delors indica quatro pilares que devem moldar o aprendizado no nosso tempo: aprender a aprender, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser.

Aí venho eu com mais perguntas: Aprender a aprender o que? Pra quem? Como? Aprender a fazer o que? Pra quem? Como? Aprender a conviver com quem? Em relações igualitárias de gênero, raça, etnia, credo, no mercado de trabalho ou apenas socialmente? Ou somente virtualmente? Aprender a ser quem? Mas qual EU? O EU verdadeiro que dorme comigo todas as noites ou o Eu que esperam que eu seja profissionalmente e socialmente?

Estamos meio que vivendo como em um episodio de Black Mirror (Perdedores 3×01 Nosedive) da Netfilx, onde a vida das pessoas é guiada pela avaliação que as pessoas fazem nas redes sociais. Vivemos regidos pelos “likes & views” e compartilhamentos que nossos personagens (ou avatares) recebem nas redes sociais. Mas mesmo que não sejamos (bem lá no fundo) aquilo que demonstramos quando ninguém está olhando (o episodio mostra isso muito bem no final), a impressão que fica é que hoje somos quase como uma Sociedade do Espetáculo como bem descreve Guy Debord em seu livro. A máscara que criamos para que os outros não vejam as rachaduras do nosso caráter, o nosso preconceito mais puro e cruel, a necessidade de fazer parte e o oportunismo social. Definitivamente não estamos distantes dessa merda toda e Black Mirror está apenas desenhando as possibilidades.

Mas é a educação como pode ajudar a mudar isso?

No Brasil, com um sistema de ensino dito cambaleante, fraco, ineficiente (do ponto de vista das avaliações internacionais), escolas desprovidas de recursos e professores despreparados ou desmotivados (será mesmo que são e estão?), a proposta de Delors acaba soando como utopia. Mas, esses os quatro pilares vêm sendo colocados em prática por instituições públicas e privadas (muito mais nas escolas privadas) como tentativa de reverter e inovar o ensino.

Então como é isso na prática?

No Aprender a aprender o gostar de aprender é o que mais se espera do estudante do século 21. E esse “gostar” não depende apenas do aluno, mas das estratégias adotadas pela escola. Aprender não é uma coisa arrumadinha, pronta e acabada (não existe fórmula mágica e nem receita de bolo perfeita) é sim um processo pessoal complexo que nem sempre se adapta à estrutura tradicional da escola. Para contemplar a forma de aprender de cada um, as vezes é preciso fazer uma revolução completa em tudo, mas as vezes apenas uma ação pontual é capaz de causar uma revolução.

A escola do século 21 exige autonomia do aluno, mas ela também deve ensiná-lo a pedir ajuda, acolhendo seus possíveis erros. Eu sempre falo com os meus pares que lugar para cometer erros é na escola, onde as conseqüências não são drásticas. Na escola o estudante pode tentar, errar, tentar de novo, acertar. A solução oferecida como prato feito ou como receita perfeita não ensina o aluno a pensar.

No Aprender a fazer o que se espera do profissional do novo milênio? Além de saberes específicos de sua área, conhecimento de informática e de línguas estrangeiras, assim como iniciativa e capacidade de trabalhar em equipe, são exigências do mercado de trabalho que busca mão-de-obra qualificada. Mas a nossa escola ensina assim? Esses conceitos são trabalhados na escola pensando tão a longo prazo? A tão falada Cultura Maker seria a solução? Mas esse conceito não é facilmente aplicável nas disciplinas tipo filosofia, sociologia, história, então como faremos o Maker nessas disciplinas?

O uso de informática, por sua vez, já é realidade em muitas escolas, que são equipadas com laboratórios e dispõem de mídias variadas até mesmo em sala de aula. Os computadores, claro, são dotados de filtros, programas que impedem o acesso a alguns endereços eletrônicos. O tradicional quadro-negro cedeu lugar às lousas digitais, nas quais o professor projeta a tela do computador que usa na sala de aula. A criança que faltou à aula pode acessar todo o conteúdo perdido no site do colégio.

Tudo isso é muito legal, mas a grande questão é como fazer o melhor uso possível da informática. Muitos alunos lidam facilmente com as novas tecnologias, mas de uma maneira muito superficial. Usam bem o que lhes interessa como as redes sociais e smartphones, mas não sabem nenhuma linguagem de programação que faria uma grande diferença entre usar e criar. Muitas das vezes não sabem nem o básico que é fazer uma pesquisa na web. Como se ensina a separar o joio do trigo? Trabalhando o senso crítico do aluno e ensinando onde pode averiguar se o que leu na internet é verdadeiro ou não. Sabendo isso não se fica soterrado sob uma avalanche de informação inútil e muitas das vezes falsas/erradas. Quem não souber selecionar corre o risco de ficar para trás. Mas cabe à escola preparar o aluno para que esse processo seja estimulante e determinante.

Outra questão importante e como incentivar o tão desejado espírito de equipe e de colaboração, sem que isso afete a possibilidade de liderança? Há varias propostas democráticas no ambiente escolar que caminham nessa direção. Eu vi na Escola da Ponte em Portugal como funciona as assembleias semanais de alunos, professores e funcionários que tratam de assuntos relevantes para a comunidade escolar. Todos podem opinar e os assuntos, do mais básico até os mais complexos e de difícil solução, são votados e decididos por eles.

Experiências como essa ainda são bem raras por aqui, mas começam a ganhar espaço. É uma questão primordial no mundo moderno hoje é Saber escolher. Quando escolhe o que é melhor para a escola, o aluno enfrenta um problema real do cotidiano e busca soluções e saber escolher é uma competência fundamental para o jovem do século 21. Ele já se experimenta como cidadão e como isso se refletira no futuro dele como profissional dentro da escola.

No Aprender a conviver tem gente que pensa como o filósofo e educador Alípio Casali, que diz que a geração que se prepara para o século 21 enfrenta uma grave crise de socialização. Famílias dispersas, pais ausentes e o distanciamento de instituições tradicionais, deixam as crianças meio perdidas, sem referências. E de que os vínculos vêm enfraquecendo aceleradamente, o que está produzindo indivíduos com dificuldades para os relacionamentos sociais, mesmo diante da imensa interação que se desenrola hoje em dia nas redes sociais. Para ele a escola do futuro não pode deixar de lado seu papel de socializar adequadamente, ensinando a cada criança o jogo tenso entre direitos, deveres, ordem e liberdade. Para ele “O convívio é uma experiência estruturante. O conhecimento também se dá por transmissão.”

Esta aprendizagem, sem dúvida, representa um dos maiores desafios da atualidade. O mundo atual está repleto de violência, em oposição à esperança que alguns têm no progresso da humanidade. A educação deve utilizar duas vias complementares. Primeiramente a descoberta progressiva do outro. Num segundo nível, e ao longo de toda a vida, a participação em projetos comuns, tendo este método o intuito de evitar ou resolver os conflitos latentes.

Muitas escolas preocupadas com esse esgarçamento de vínculos, incentivam o trabalho em grupo. No trabalho em grupo a criança, as vezes, é obrigada a trabalhar mesmo com quem não tem afinidades dentro das regras da boa convivência. Assim, aprende como o outro pensa e aprende a respeitar os limites de cada um e superar as vezes situações que não tem nenhuma ação concreta. Pois além de estabelecer laços, outro desafio para o estudante do século 21 é a boa relação com a heterogeneidade. Conviver com a diversidade é uma expressão da inteligência humana.

Mais do que uma exigência do mercado de trabalho, que valoriza as diferenças, respeitar o outro é uma questão de sobrevivência da espécie no planeta. É preciso aceitar a diversidade não apenas com respeito, mas também valorizando a diversidade e as diferenças ideológicas como riqueza.

No Aprender a ser vem sempre aquela fatídica pergunta: Quem você quer ser quando crescer?. “Um cidadão do mundo, preocupado com as questões sociais e ecológicas” talvez fosse esta a resposta da maioria dos estudantes de hoje, que faria com que poderíamos sonhar com um mundo melhor para as próximas décadas. Mas no contexto atual, não basta fazer. Os ideais têm de estar incorporados. É uma questão de ser. Fazer desse aluno um ser justo, correto e de caráter forte é uma tarefa para a família e para a escola na transmissão de valores importantes para a vida adulta. A parte mais importante desse ser é a construção dessa identidade do aluno. Situa-lo no seu contexto social, cultural e intelectual. Delors coloca assim:

A educação deve contribuir para o desenvolvimento total da pessoa – espirito, corpo, inteligência, sensibilidade, sentido estético, responsabilidade pessoal e espiritualidade. Todo o ser humano deve receber uma educação que lhe dê ferramentas para o despertar do pensamento crítico e autônomo, assim como para formular seus juízos de valor e ser autônomo intelectualmente.

Mais do que nunca a educação parece ter como papel essencial, conferir a todos os seres humanos a liberdade de pensamento, o discernimento, os sentimentos e a imaginação de que necessitam para desenvolver os seus talentos e permanecerem, tanto quanto possível, donos de seus próprios destinos (pg 81).

Despertar na criança a noção de que o planeta está em perigo e prepará-la para defender a Terra é uma das principais missões da escola no século 21 a outra missão tão importante, ou talvez mais importante, é em relação as desigualdades sociais que afligem a humanidade. Lutar por um mundo mais justo socialmente, inclusivo, tolerante e que respeite a diversidade.

O segredo para criar cidadãos conscientes é fazer com que essa preocupação não fique apenas na teoria mas que ocupe espaço na vida escolar das crianças. Os muros da escola são realmente estreitos demais para o ensino contemporâneo. O conhecimento que se adquire com a prática é mais significativo. E se já não bastasse essas coisas todas, eis que vem uma reforma do ensino médio imposta de cima pra baixo, desrespeitando toda a discussão que vem sendo feita para a reforma do ensino médio desde 2006.

E o Brasil o que fez pra mudar?

O Plenário do Senado aprovou nesta quarta-feira (8) a chamada Medida Provisória do Novo Ensino Médio, com segmentação de disciplinas segundo áreas do conhecimento e implementação do ensino integral. Foram 43 votos favoráveis e 13 votos contrários ao Projeto de Lei de Conversão (PLV) 34/2016,  proposta originada após alterações promovidas na MPV 746/2016 pela comissão mista e pela Câmara dos Deputados.

Não há duvida que o ensino médio precisava de uma sacudida, de mudanças estruturais mesmo, mas o que foi proposto e o que foi aprovado distanciam o que se propunha enquanto discussão coletiva de uma imposição política de um governo ilegítimo de uma politica educacional dos anos 90. Bem algumas coisas positivas podem ser tiradas dessa mudança? Talvez. A reforma flexibiliza o conteúdo que será ensinado aos alunos, muda a distribuição do conteúdo das 13 disciplinas tradicionais ao longo dos três anos do ciclo, dá novo peso ao ensino técnico e incentiva a ampliação de escolas de tempo integral. Mas isso é suficiente? Não.

O currículo do ensino médio será definido pela Base Nacional Comum Curricular – BNCC (que deverá dar um passo significativo, se pra melhor ou pior ninguém ainda sabe), atualmente em elaboração. Mas talvez aqui o que está sendo vendido como “moderno” não tenha o efeito desejado: a adoção dos eixos curriculares. Pois a nova lei já determina como a carga horária do ensino médio será dividida. Tudo o que será lecionado vai estar dentro de uma das seguintes áreas, que são chamadas de “itinerários formativos”

  1. linguagens e suas tecnologias
  2. matemática e suas tecnologias
  3. ciências da natureza e suas tecnologias
  4. ciências humanas e sociais aplicadas
  5. formação técnica e profissional

As escolas, pela reforma, não são obrigadas a oferecer aos alunos todas as cinco áreas, mas deverão oferecer ao menos um dos itinerários formativos. E aqui o grande ponto de ruptura. Vamos lá pela lei, eu não sou obrigado a oferecer os cinco itinerários formativos, apenas um. Beleza. Qual gestor público vai adotar mais de um  itinerário, se a adoção deles implica em investimento  em estrutura e em professor? Como pode disciplinas como História e Geografia não serem obrigatórias como é Matemática e Português? Fora o engodo de que Filosofia, Sociologia, Educação Física e Artes terem se tornados obrigatórias. Elas são apenas obrigatórias na Base Nacional Comum Curricular – BNCC. Não nos eixos formativos. Uma emenda definiu que as matérias devem ter “estudos e práticas” incluídos como obrigatórios na BNCC.

A língua inglesa passará a ser a disciplina obrigatória no ensino de língua estrangeira, a partir do sexto ano do ensino fundamental. Isso quer dizer que Congresso manteve a proposta do governo federal. Antes da reforma, as escolas podiam escolher se a língua estrangeira ensinada aos alunos seria o inglês ou o espanhol, que dentro de uma politica de integração adotada pelo Mercosul, o ensino do espanhol (que é a língua mais falada no mundo em numero de países que adotam o espanhol como língua oficial).

Imaginar que agora, se a escola só oferece uma língua estrangeira, essa língua deve ser obrigatoriamente o inglês, e se ela oferece mais de uma língua estrangeira, a segunda língua, preferencialmente, deve ser o espanhol, mas isso não é obrigatório. Precisamos contextualizar, mais uma vez, a importância do ensino do espanhol como língua obrigatória, pois no mundo moderno atual as políticas comerciais e diplomáticas que norteiam as relações dos países e do Brasil (MERCOSUL e BRICS) o ensino do idioma espanhol não é apenas necessário, é estratégicos em todos os pontos de vista possíveis.

Outro objetivo da reforma é incentivar o aumento da carga horária para cumprir a meta 6 do Plano Nacional de Educação (PNE), que prevê que, até 2024, 50% das escolas e 25% das matrículas na educação básica (incluindo os ensinos infantil, fundamental e médio) estejam no ensino de tempo integral.

No ensino médio, a carga deve agora ser ampliada progressivamente até atingir 1,4 mil horas anuais. Atualmente, o total é de 800 horas por ano, de acordo com o MEC. No texto final, os senadores incluíram uma meta intermediária: no prazo máximo de 5 anos, todas as escolas de ensino médio do Brasil devem ter carga horária anual de pelo menos mil horas. Não há previsão de sanções para gestores que não cumprirem a meta. (lógico pois ninguém é louco de cobrar uma coisa que eles sabem não vão cumprir, pois depende de um investimento pesado em estrutura com um PEC que congela investimentos em todas as áreas).

Outro alvo de críticas foi a permissão para que professores sem diploma específico ministrem aulas. O texto aprovado no Congresso manteve a autorização para que profissionais com “notório saber”, reconhecidos pelo sistema de ensino, possam dar aulas exclusivamente para cursos de formação técnica e profissional, desde que os cursos estejam ligados às áreas de atuação deles.

Também ficou definido pelos deputados e senadores que profissionais graduados sem licenciatura poderão fazer uma complementação pedagógica para que estejam qualificados a ministrar aulas. O perigo é essa brecha ser usada para todo ensino médio e não apenas o profissional e técnico.

Bem ainda vamos precisar de tempo para digerir isso tudo, mas o principal é chamar os professores para fazerem uma reflexão mais ampla e crítica (em todos os sentidos) sobre os rumos do que fazemos, de como fazemos e principalmente de como queremos fazer. O mundo está mudando rapidamente, e os alunos também. E nos professores estaremos aonde nisso?

Convido aos amigos educadores a fazerem comigo essa reflexão. Seja aqui nos comentários ou em seus próprios espaços. Para isso deixo essa reflexão para todos que quiserem debater:

“Em toda a história da escolarização, nunca se exigiu tanto da escola e dos professores quanto nos últimos anos. Essa pressão é decorrente, em primeiro lugar, do desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação e, em segundo lugar, das rápidas transformações do processo de trabalho e de produção da cultura. A educação e o trabalho docente passaram então a ser considerados peças-chave na formação do novo profissional do mundo informatizado e globalizado.” (FREITAS, 2005).

A pergunta final que deixo para vocês é essa:

Robson Freire

A arte de se reinventar

Em tempos de mudanças em velocidade cada vez maior, aprender a se reinventar é uma arte indispensável aos que realmente desejam galgar espaços notáveis ou até mesmo manter-se em condições minimamente competitivas nos ambientes de trabalho e de desenvolvimento profissional.

Aquele tempo do emprego vitalício já ficou para trás, coisa que em empresas de médio e especialmente, pequeno porte, a bem da verdade, nunca existiu. Entretanto, é preciso encarar que, embora a máxima do emprego vitalício tenha morrido, a carreira não. E para que ela também não fique par trás, é necessário que se tenha um espectro de visão um pouco mais amplo acerca das supostas garantias do emprego, a fim de que a aprendizagem da reinvenção seja um fato e não um duro enfretamento com uma realidade repentina.

De modo que faz bem saber, que a arte de se reinventar exige:

  • Compreender o dinamismo do novo mundo no que tange aos ferramentais disponíveis para a execução de tarefas, bem como aos processos horizontais de tomadas de decisão;
  • A manutenção de uma rede de contatos viva, pois esta poderá ser determinante na definição de novos caminhos profissionais. E essa tarefa impõe interesses reais de relacionamentos entre os contatos, não apenas uma lista a que se recorra em momentos críticos. Aliás, uma rede de contatos viva, também se reproduz em um processo rico de diversidade de pensamento e argumentação que o ajudará a se diferenciar, se você se colocar como parte efetiva da rede;
  • O desenvolvimento de uma marca pessoal, o que significa dizer, antes de mais nada, que você precisa se conhecer muito bem, em suas mais disfarçadas deficiências, tal como, claro, em suas habilidades e capacitações mais louváveis. É esse escopo de saber que o permitirá criar uma presença consistente nos ambientes a que se propõe conquistar e o balizará para startar novos processos profissionais, a descobrir novos caminhos e a propor novas soluções quando ninguém consegue percebê-las.

Claro que reinventar-se não se esgota em três tópicos. No entanto, são estes, norteadores para que diante do inusitado ou de um inesperado acontecimento na sua carreira profissional, você não se veja estático, imobilizado pela incerteza e descrença, mas tenha condições de encarar que novas possibilidades e novos caminhos se abrem a quem se dispõe a começar de novo, a aprender sempre e a se reinventar.

Fonte: http://www.daexe.com.br/a-arte-de-se-reinventar/

A reinvenção dos educadores

Melhorar a formação dos professores sobre o uso da tecnologia é fundamental para que a escola do futuro se transforme na escola do presente

Imagem retirada da Wiki João de Meira https://joaodemeira.wikispaces.com

Por Bruna Nunes

Muito se fala sobre a necessidade de que a escola se atualize. A educação do século 21 exige que professores e professoras se reinventem, refletindo sobre o seu papel como educadores, a forma como se relacionam com os seus alunos e a maneira como realizam a sua prática docente. Promover uma educação mais alinhada aos novos tempos significa compreender as transformações pelas quais a sociedade passa. Uma das quais se relaciona diretamente ao uso da tecnologia.

Os jovens que hoje frequentam nossas escolas nasceram no mundo permeado pela cultura digital. Usam smartphones para compartilhar sentimentos, realizar pesquisas, informar-se, se expressar e interagir com a cidade nas suas diversas esferas e dimensões e exercer a sua cidadania. A cultura digital, que caracteriza a chamada sociedade do século 21, transformou a forma como processamos e construímos o conhecimento. Como observa Pierre Lévy, a inteligência hoje é coletiva, desenvolvida por meio do compartilhamento de experiências e saberes, facilitados pelas novas tecnologias da comunicação. E a escola precisa estar atenta a isso.

Quando se fala sobre incorporar as novas tecnologias nas escolas, o primeiro desafio listado por estudiosos e especialistas é a falta de infraestrutura. Sem dúvida, trata-se de uma questão proeminente na hora de se pensar políticas públicas que possibilitem a alunos e professores usufruir de todos os benefícios e facilidades que hoje a tecnologia oferece para o processo de ensino-aprendizagem. Contudo, prover as escolas com laboratórios de informática e conectividade não é o único fator determinante para o sucesso de qualquer política que tenha como meta a incorporação da tecnologia no cotidiano escolar. Para isso, a tecnologia precisa vir associada ao oferecimento de formação para professores, que os oriente a usá-la com abordagem pedagógica. A tecnologia pela tecnologia não faz milagre. O seu uso pedagógico precisa vir acompanhado de intencionalidade. E a situação brasileira, no que se refere à formação de professores para esse uso qualificado dos recursos tecnológicos, não é muito diferente da trágica realidade que caracteriza a infraestrutura das escolas.

A imensa maioria de professores e professoras que atuam nas redes municipais e estaduais de ensino não cursou disciplinas específicas sobre educação e tecnologia na sua formação inicial. De acordo com dados da pesquisa TIC Educação, realizada em 2014 pelo Comitê Gestor da Internet – Cetic (2014), quase 60% dos professores entre 31 e 45 anos afirmam não ter cursado disciplina específica sobre como usar dispositivos (computadores, tablets e smartphones) e a internet nas atividades escolares.

Se considerarmos que a média de idade dos professores que atuam nas escolas está na faixa dos 38 anos, isso nos revela um aspecto fundamental sobre os desafios relacionados ao uso da tecnologia nas escolas: a maioria não está preparada para usar os recursos digitais pedagogicamente. E a culpa não é deles. Simplesmente não lhes foi oferecida a oportunidade de aprender. Com aprender, não me refiro a saber como ligar um computador ou tablet, a como projetar um vídeo ou elaborar uma apresentação de powerpoint, embora isso também seja importante. Me refiro a saber como utilizar as novas tecnologias com enfoque na aprendizagem dos alunos, e isso passa por aprender a pesquisar, criar e definir quais recursos educativos digitais serão usados, quando e para quê. Trata-se, portanto, de menos fetiche tech e mais consciência de como e com que intuito se utilizará a tecnologia. Ter lousas digitais nas salas de aula não vai melhorar o desempenho escolar dos jovens num passe de mágica. No entanto, saber a forma mais adequada de usá-las, segundo os objetivos que se quer alcançar, sim.

Conscientes do problema, alguns professores e professoras têm procurado minimizar essa brecha formativa. A mesma pesquisa nos mostra que aqueles que afirmam utilizar a tecnologia para potencializar as suas aulas buscaram, por iniciativa própria, outros meios para aprender a usá-la na prática docente. Na pesquisa, projetos que preveem capacitação e treinamento, oferecidos por organizações do terceiro setor em parceria com instituições ou secretarias de educação, também aparecem como alternativa. A oferta, porém, ainda está aquém da demanda.

É por isso que se faz necessário reavaliar o currículo das licenciaturas. A prática docente precisa incorporar a tecnologia tanto da perspectiva ferramental quanto da metodológica. A real inovação em educação acontece quando conseguimos associar ambas as coisas: ferramentas e métodos inovadores. Em termos de estratégias metodológicas, podemos citar a aprendizagem por projeto, o ensino híbrido, a educomunicação, a cultura maker e a gamificação, como propostas interessantes. Associadas a plataformas e recursos digitais diversos, essas metodologias podem revolucionar o processo de ensino-aprendizagem.

A aprendizagem por projeto tem como objetivo fortalecer o aprendizado significativo, estimulando os jovens a aplicar os conhecimentos adquiridos em sala de aula na realização de ações que transladem os conteúdos curriculares da dimensão abstrata para a concreta. Associada ao uso da tecnologia, desperta o interesse dos alunos, a retenção do conhecimento, aumentando o engajamento dos jovens nas atividades escolares, diminuindo a evasão escolar e, em consequência, melhorando o seu desempenho. Além disso, esse tipo de abordagem pedagógica favorece o desenvolvimento de competências e habilidades que apoiarão os jovens ao longo de suas vidas.

Algumas experiências têm sido bem positivas nesse sentido. Uma é a criação de aplicativos ou plataforma digitais por professores e estudantes para desenvolver conteúdos curriculares. Muito mais interessante que estudar taxonomia apenas via aulas expositivas, é propor aos alunos o desenvolvimento de um aplicativo ou mapa geo-referencial que mapeie as plantas que compõem o seu território escolar, atribuindo-lhes seu nome científico. Outra forma mais simples de usar a tecnologia para potencializar o processo de ensino aprendizagem e ao mesmo tempo dialogar com o universo dos jovens é sugerir aos alunos criação de memes, usando figuras de linguagem, ensinando como prevenir as doenças tropicais, sobre as leis de Newton, e por aí vai. As possibilidades são infinitas e podem ser realizadas mesmo em condições com pouca infraestrutura. Temos observado resultados muito animadores nesse tipo de boa prática.

Para que mais experiências como essas aconteçam, no entanto, é preciso mais que exigir dos professores criatividade: é imprescindível oferecer-lhes formação adequada para usar as novas tecnologias de maneira qualificada e segundo o perfil dos seus alunos e o seu contexto escolar. Se desejamos que a escola do futuro se transforme na escola do agora, do nosso presente, é preciso melhorar a formação inicial de professoras e professores. Somente assim a educação do século 21 sairá do plano abstrato para ser reconhecível no fazer cotidiano das escolas.

Bruna Nunes é coordenadora pedagógica do Recode, ONG voltada para o empoderamento digital. Com forte experiência no uso das novas tecnologias e em metodologias educomunicativas de ação socioeducativa, é especialista em Políticas Públicas Culturais pela Universidad de Barcelona, com mestrado em Ciências Sociais e doutorado em Estudos Internacionais e Interculturais, ambos realizados pela Universidad de Deusto (Bilbao-Espanha).

Fonte: http://www.arede.inf.br/reinvencao-dos-educadores/

6 maneiras divertidas para aprender inglês online

Porvir reuniu dicas de sites e aplicativos que ajudam a melhorar o domínio do idioma com recursos criativos

Aprender inglês pode ser útil para muitas coisas: de dar um salto na carreira a conseguir uma bolsa de estudos no exterior. Para quem deseja começar o ano focado em estudar uma nova língua, mas não tem tempo ou dinheiro para frequentar um curso tradicional, o Porvir reuniu dicas de sites e aplicativos que tornam o aprendizado divertido.

Das mensagens instantâneas aos vídeos e histórias, a lista reúne maneiras criativas de aprender inglês online. Confira as dicas:

Viagens ao redor do mundo
Com mais de 450 vídeos, a plataforma Tripppin funciona como uma viagem ao redor do mundo. O usuário acompanha temporadas e episódios gravados em 12 países, passando por cidades como Londres, Berlim, Barcelona e Paris. Os vídeos tentam simular experiências pessoais de viagem, que são representadas pelos irmãos Tripp e Pin. Além de apresentar situações formais e informais do idioma, a plataforma reúne exercícios, desafios, músicas e uma rede social interna que permite interagir com pessoas de diferentes locais. Alguns vídeos e recursos são gratuitos, mas para ter acesso completo é necessário fazer um plano de assinatura. Os valores variam entre US$ 19 e 80.

Mensagens instantâneas
Disponível para as plataformas iOS e Android, o HelloTalk é um aplicativo para aprender mais de 100 idiomas com professores nativos de diversos países. Como uma espécie de WhatsApp, ele tem ferramentas que permitem enviar mensagens de texto e voz. O usuário também pode ouvir a pronúncia correta das mensagens recebidas e enviadas, além de criar um banco de dados com o vocabulário aprendido durante as conversas. O aplicativo é gratuito.

Videoaulas com Star Wars
Baseado nos filmes de Star Wars, o minicurso gratuito ensina diferentes tópicos de inglês e expressões idiomáticas a partir de trechos com cenas famosas. Desenvolvido pela startup brasileira Backpacker, o curso ainda conta com uma ferramenta de reconhecimento de voz para praticar a pronúncia.

Filmes e músicas
O site English Attack! reúne trechos de filmes e músicas que ajudam a treinar o idioma. As mídias são acompanhadas por exercícios, jogos, atividades de compreensão auditiva e itens de vocabulário. A plataforma é paga, com opções de assinatura mensal, semestral anual ou bienal, entre R$ 35.90 e R$ 357.60. Também existem planos voltados para professores, escolas e empresas.

Histórias em quadrinhos
O jogo Speaking Comics, criado pela escola de idiomas CNA, ajuda a praticar a pronuncia de inglês e espanhol com tirinhas. O usuário pode criar seus próprios quadrinhos, selecionando personagens, fundos e falas. Após concluir, ele também tem a opção de gravar sua voz para narrar a história e compartilhar nas redes sociais. O game é gratuito.

Vídeos curtos para qualquer tempo livre
Do iniciante para avançado, a plataforma Pow eLearning possibilita aprender diferentes tópicos gramaticais de inglês, como tempos verbais e advérbios, por meio de vídeos gravados por alunos e professores de diversas nacionalidades. Com vídeos de menos de 1 minuto, a plataforma gratuita pode ser acessada em qualquer tempo livre e ajuda a treinar a compreensão auditiva, proporcionando o contanto com falantes nativos e sotaques variados.

Existem muitos recursos que podem ajudar a aprender inglês. Faça um teste para descobrir qual é o método mais indicado para você:

Fonte: http://porvir.org/6-maneiras-divertidas-para-aprender-ingles-online/

6 Filmes da Netflix para Aprender e Ensinar História

Obras ajudam a entender momentos históricos, como o período da escravidão, a Segunda Guerra Mundial e a Intentona Comunista durante o período Vargas

Assistir a filmes pode ser mais do que um simples passatempo. As obras audiovisuais também são recursos úteis para compreender diferentes momentos históricos. Aprender sobre a segunda guerra mundial ou um período importante da história nacional pode ser mais simples ao acompanhar uma narrativa com personagens, cenários, músicas e diálogos. Pensando nisso, o Porvir separou uma lista de filmes disponíveis na plataforma Netflix que ajudam a aprender e ensinar história. Confira:

Olga

O filme é baseado na vida de Olga Benário Prestes, uma judia nascida na Alemanha. Ao lado do brasileiro Luís Carlos Prestes, que se tornaria seu marido, ela viajou ao Brasil para apoiar o Partido Comunista Brasileiro. A história retrata o período conhecido como Intentona Comunista (1935), quando a Aliança Nacional Libertadora se levantou contra o governo Vargas.

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Duração: 1h 38min
Classificação: 14 anos

Amistad

A bordo do navio negreiro Amistad, dezenas de escravos se libertam e assumem o comando da embarcação. Com o desejo de retornar para a África, eles precisam contar com a ajuda de dois tripulantes espanhóis sobreviventes. No entanto, eles são enganados pelos comandantes do barco e capturados por escravocratas norte-americanos. O filme ajuda a entender sobre como era a captura e o transporte de escravos africanos, como também fala sobre as primeiras medidas para abolição da escravidão na América do Norte.

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Duração: 2h 34min
Classificação: Livre

A Lista de Schindler

A obra narra a história do empresário alemão Oskar Schindler, que salva a vida de mais de mil judeus durante o Holocausto. Para manter seus trabalhadores vivos, ele gasta quase toda a sua fortuna subornando oficiais nazistas. Durante o filme é possível compreender mais sobre o período da Segunda Guerra Mundial.

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Duração: 3h 15min
Classificação: 14 anos

Hotel Ruanda

Hotel Ruanda narra as consequências de uma guerra civil no país africano, entre as etnias tutsi e hutus. A batalha ficou conhecida como Genocídio da Ruanda e começou depois que o presidente do país foi morto em um atentado. O conflito é iniciado por hutus, a maioria do país, que começam a matar milhares de tutsis. A história gira em torno de um administrador de hotel, da etnia hutu, que usa o prédio para abrigar mais de mil pessoas, todas tutsis, assim como sua esposa.

hotel

Duração: 2 horas
Classificação: 14 anos

Diamante de Sangue

Diamante de Sangue também se passa na África, em Serra Leoa. Na década de 90, o governo do país está em guerra contra o grupo Força Unida Revolucionária (FUR). O filme mostra a história de dois personagens africanos com trajetórias opostas. De um lado, Mende é um pescador negro capturado pela FUR para trabalhar em um campo de mineração de diamantes. Do outro, Danny é um ex-mercenário branco, preso por contrabandear diamantes. O destino dos dois se cruza quando Danny descobre que Mende encontrou e escondeu um raro diamante rosa.

diamante

Duração: 2h e 23 minutos
Classificação: 16 anos

Bom Dia, Vietnã

Para aliviar um pouco, o filme Bom dia, Vietnã é uma comédia, ainda que dramática. Na década de 60, o personagem principal, interpretado por Robin Williams, vai para o Vietnã para trabalhar como DJ em uma rádio comandada pelo governo norte-americano. Ele trabalha com bom humor, faz piadas no ar e toca músicas que não tinham sido aprovadas por seus superiores, o que agrada os soldados.

bom dia

Duração: 2h
Classificação: Livre

* Filmes disponíveis no catálogo em julho de 2016

Fonte: http://porvir.org/6-filmes-da-netflix-para-aprender-ensinar-historia/

Sites de Redes Sociais na Educação

Vanessa dos Santos Nogueira

Pensar sobre o uso de Sites de Redes Sociais na educação remete a várias questões:

– A precariedade dos laboratórios de informática das escolas públicas e a ausência de um professor que trabalhe somente no laboratório. Tanto a falta de computadores, manutenção, internet…

– Como fazer um trabalho integrando as tecnologias digitais e redes sociais sem recursos materiais e humanos para isso?

– Os muitos discursos sobre as possibilidades da internet e das redes sociais como se todos tivessem acesso e soubessem “como” usar esses recursos.

– É possível criar uma rede social na internet diferente das redes sociais presenciais? Pensando que os mesmos sujeitos do presencial são os que habitam espaços/lugares virtuais.

– Qual a melhor opção de redes sociais online para usar na escola? Redes fechadas ou abertas? Pensando que redes corporativas não são feitas para a educação e oferecem conteúdo impróprio, limite de idade, propagandas… ao mesmo tempo a escola não pode negar a existência dessas redes e criar na escola espaços tanto presencias como virtuais “ideais”, lembrando que fora da escola não temos espaços separados e os alunos vão conviver e interagir com diversas redes presenciais e virtuais, tendo que fazer escolhas…

As redes sociais na internet são alvo de diversas reportagens, manuais e tutoriais que incentivam professores e alunos a fazer uso de recursos nelas presentes, apresentando, muitas vezes, somente uma versão das suas possibilidades. Concorda-se que a utilização desses espaços pode intensificar a comunicação, as discussões sobre conteúdos e o rápido acesso a informações, contudo temos uma série de cuidados a serem considerados como direitos autorais, idade mínima para utilização, tempo de trabalho do professor fora do seu horário de trabalho etc.

Percebe-se que utilizando ou não as redes sociais na internet, em espaços formais das escolas/universidades, se faz necessária uma discussão sobre seus limites e possibilidades, vantagens e desvantagens, prós e contras do seu uso, repercussão e alteração do presencial, como também a apropriação que os sujeitos da educação estão fazendo das redes sociais na internet fora dos espaços escolares/acadêmicos e como esses sujeitos estão se movimentando nesses novos tempos e espaços.

Onde existam recursos materiais e humanos a utilização de Sites de  Redes Sociais na escola esse recurso pode representar hoje a possibilidade de contribuir para a formação de sujeitos efetivamente participantes, considerando novos tempos e espaços onde professores e estudantes se movimentam juntos como sujeitos autores e co-autores dos processos de ensino e aprendizagem. Pensar o planejamento, utilização e avaliação das redes sociais no cenário escolar agrega novos espaços de diálogo e produção de sentidos, e se esses espaços forem pensados em/para colaboração passamos a ter a descentralização do conhecimento. Ao mesmo tempo em que os alunos se movimentam com mais facilidade nas redes sociais, seu uso no cenário educacional requer comprometimento e cuidado. Muitas novidades e as diversas opções que as redes sociais e seus mais variados recursos podem oferecer uma possibilidade rica e complexa de emancipação – não temos uma receita pronta, é um exercício de construção coletiva e colaborativa. Assim, o papel das Sites de Redes Sociais na educação nos remete à possibilidade de ampliar o diálogo ultrapassando a sala de aula tradicional  onde o professor era o centro, para uma dinâmica descentralizada  produzindo novas formas de ensinar e aprender; isso quando utilizadas como espaços de problematização em atividades que instiguem a criatividade, buscando não só produzir uma aula mais divertida ou a utilização de um recurso que está na “moda”, mas gerando discussões e ações que possam contribuir efetivamente para uma mudança social.

Alguns links para saber mais sobre o assunto

Vídeos:

– Redes Sociais na Educação – TV Escola – Entrevistas com Sérgio Lima, Lilian Starobinas e Eziquiel Menta.

– TICs e redes sociais na formação de professores – TV Escola – Primeira parte da entrevista com o professor Paulo Francisco Slomp, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul http://www.ufrgs.br/psicoeduc.

– Redes Sociais – Palestra com Augusto de Franco.

Entrevistas:

– Redes sociais na escola – Revista Ponto Com

– O uso de Redes Sociais na educação – Entrevista com João Mattar

Referências

NOGUEIRA, Vanessa dos Santos; PIZZI, J . Reconhecimento Intersubjetivo em Redes Sociais na Internet. In: VII Ciclo de Estudos Educação e Filosofia: tem jogo nesse campo? Pedagogia como Ciência da Educação, 2012, Pelotas. Anais do VII Ciclo de Estudos Educação e Filosofia: tem jogo nesse campo?. Pelotas: Ed. da UFPel, 2012. v. 1. p. 231-238. [Baixar]

NOGUEIRA, Vanessa dos Santos . A linguagem escrita na educação a distância: possibilidades de comunicação e constituição do sujeito/aluno. In: XV ENDIPE – Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino, 2010, Belo Horizonte. Anais do XV ENDIPE – Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino, 2010. [Baixar]

NOGUEIRA, Vanessa dos Santos. O papel das redes sociais na escola. In: XII Congresso Internacional de Educação Popular e XXI Seminário de Educação Popular. Santa Maria, 2012.

Sobre a Autora: Vanessa dos Santos Nogueira, Pedagoga, Especialista em Gestão Educacional, Mestre em Educação – UFSM, Doutaranda em Educação na Universidade Federal de Pelotas – UFPel. E-mail: snvanessa@gmail.com. Blog: www.vanessanogueira.info, Twitter: @svanessa, Facebook: snvanessa;

Autocontrole

Pedro Demo (2012)

Refiro-me ao texto de Baumeister (2011) sobre “poder da vontade”ou “força de vontade”, como “a maior força humana”, um tema pouco encontrado na literatura, porque, aparentemente, parece um pouco esotérico. Este texto, no entanto, traz resultados interessantes e surpreendentes de pesquisa, com enorme utilidade para a sala de aula, onde estamos já fartos de desmotivação dos estudantes, excessos de liberdade, agressões a colegas e professores, quase um“vale-tudo”. Estaria faltando “força de vontade” em nossos jovens (ou também em nós mesmos)? Baumeister se dispôs a discutir este desafio, usando o que haveria de mais atualizado na pesquisa, embora em termos suficientemente cautelosos para manter o tema como “discutível”, não como receita finalizada. Mesmo assim, como é uso nos Estados Unidos, o texto termina com algumas “dicas” para aprimorar o autocontrole, talvez porque o autor espere poder aumentar o tom de utilidade prática de sua discussão. O risco de “moralismo” salta aos olhos, porque autocontrole cheira a disciplinamento comportamental imposto de fora para dentro e de cima para baixo, como foi comum em outros tempos “pedagógicos”movidos pelo autoritarismo ou pelo argumento de autoridade. Hoje sabemos que a motivação mais efetiva é a automotivação, como consta enfaticamente em Pink (2009), quando discute o que chama de Homo economicus maturus (homem econômico maduro): aquele que, ao invés de seguir impulsos individualistas irrefreáveis, é capaz de os controlar, tanto para seu próprio bem, quanto para o bem comum. Pessoa adequadamente motivada só pode ser pessoa automotivada, do que segue que controle eficaz só pode ser autocontrole.
A obra de Baumeister interessou-me porque pode ser apoio pertinente para a discussão eterna e hoje candente em todo o mundo sobre“indisciplina” na escola. Não creio que vamos solucionar questão tão complexa, mas podemos iluminar cientificamente de modos promissores. Interessa-me ainda discutir até que ponto “força de vontade” seria virtude a ser cultivada em termos educacionais, se, ao final, é virtude ou adestramento (mesmo que seja autoadestramento, como é tão comum em pessoas religiosas rigidamente disciplinadas). Muitos de nós estamos inquietos com os excessos de liberdade da nova geração, incapaz de se controlar, aguardar para depois, renunciar…, um problema que poderia, ademais, estar sendo agravado pela velocidade digital: queremos tudo just in time…, na hora, imediatamente (Carr, 2010). Ao mesmo tempo, não temos qualquer gana de retornar ao autoritarismo pedagógico, também inaceitável.
I. RETORNO DO TEMA DA FORÇA DE VONTADE
Baumeister inicia seu texto, discutindo o que seria “sucesso” (a exemplo de uma família feliz, bons amigos, carreira satisfatória, saúde robusta, segurança financeira, liberdade para buscar as próprias paixões), em geral debulhado numa série de qualidades. Quando os psicólogos isolam as qualidades pessoais que predizem “resultados positivos” na vida, consistentemente encontram dois traços: inteligência a autocontrole. Vou deixar de lado aqui o possível questionamento metodológico do método de pesquisa que se imagina capaz de “isolar” tais dinâmicas, embora seja pretensão comum entre empiristas (Demo, 2011). De todos os modos, o realce para essas duas “virtudes”da inteligência e do autocontrole é notável. Baumeister anota que, enquanto os pesquisadores ainda não encontraram como permanentemente aumentar a inteligência, já descobriram ou, pelo menos, redescobriram, como aprimorar o autocontrole (2011:58).
Quando perguntamos às pessoas quais seriam suas maiores forças, tendem a apontar para honestidade, gentileza, humor, criatividade, bravura e outras mais, até mesmo modéstia. Autocontrole dificilmente aparece. Por isso mesmo, os pesquisadores não se dedicaram mais enfaticamente a este tema, mesmo tendo já analisado mais de um milhão de pessoas pelo mundo afora. Das duas dúzias de “forças de caráter” listadas no questionário, autocontrole tendeu sempre a constar entre as últimas. Contudo – eis o paradoxo surpreendente –quando perguntadas sobre suas falhas, o falta de autocontrole sempre esteve no topo da lista. Assim, se não aparece como virtude fundamental no lado positivo, é decisiva no lado negativo. Ademais, a pesquisa sempre desvelou que a presença de desejos desencontrados nas pessoas é algo normal. “Por volta de metade do tempo, as pessoas estavam sentindo algum desejo no momento em que soavam os sinalizadores, sendo que um quarto disse ter sentido um desejo nos últimos cinco minutos[1]. Muitos dos desejos eram desejos aos quais as pessoas tentavam resistir. Os pesquisadores concluíram que as pessoas gastam cerca de um quarto de suas horas despertas resistindo a desejos – pelo menos quatro horas por dia. Posto de outro modo, se topar com quatro pessoas a cada momento do dia, uma delas estaria usando força de vontade para resistir a um desejo. E isto sequer incluía tosas as instâncias nas quais força de vontade é exercida, porque as pessoas a usam para outras coisas, também, como tomar decisões” (Baumeister, 2011:93). Esta temática do desejo sempre foi preocupação importante na vida das pessoas, em especial com respeito ao desafio da felicidade, ainda que parcimoniosamente estudada: ao contrário do que se poderia esperar, ser feliz não é ter tudo o que se pretende, mas ter o que cabe, também porque, ao final, não é questão de ter materialmente (Demo, 2001a); saber renunciar em geral é referência fundamental de pessoas felizes. Por isso mesmo, muitas propostas de felicidades implicam dominar ou domar os desejos, em especial orientais (desafio do nirvana: esvaziar a pessoas de seus desejos): vendo o descontrole dos desejos como fonte principal da infelicidade, urge colocar ordem neles, sobretudo acabar com eles. Daí surgiu a figura notável do“renunciador” (tipo de monge indiano e de outras religiões orientais) que fizeram da renúncia radical (sair da convivência comum e afastar-se para viver uma vida de extrema renúncia) (Bellah, 2011) seu lema de vida em nome da felicidade.
Temos aqui um tipo certamente insolúvel de discussão, porque ao fundo decidem pendores ideológicos e culturais arraigados e que, enfaticamente, se postam contra expectativas ocidentais de felicidade muito presas aos bens materiais e a prazeres imediatos. Para a nova geração, saber renunciar pode parecer imposição detestável, porque “não ter” lhes parece uma privação insuportável. Não percebem que a questão mais profunda é “não ser”, algo que muitas culturais perceberam e valorizaram enormemente, em especial religiões. Viver no convento/mosteiro cristão para sempre ou afastar-se do convívio comum para viver nas periferias (em mosteiros ou não), na privação material e sem sexo, dificilmente seria “ideal de vida” para o ocidental típico. No bojo da cultura consumista, a economia faz de tudo para atrair a pessoas para o consumo, garantindo que felicidade é isso, apenas isso. Moderar-se, controlar-se, renunciar soam como conselhos impróprios e de gente antiquada, de uma velha guarda que coloca disciplina acima da satisfação pessoal. Com respeito aos jovens, é comum que pais façam de tudo para satisfazer ao que os filhos querem, em parte por pieguice e à revelia do que dizem educadores (Tiba, 2007; 2007a), em parte porque se imagina que educar, hoje, implica ter os filhos com suas necessidades e desejos satisfeitos. Privá-los do que desejam pareceria uma intervenção violenta. Educadores, em geral, não seguem isso, porque apontam para os riscos de crianças que crescem sem limites: experiências educacionais que tentaram montar ambientes nos quais os estudantes fazem o que querem, sem normas e disciplinas, nunca deram certo, tendo como exemplo Summer Hill (2012). Não seria difícil mostrar o contrário: ambientes ditatoriais também são intrinsecamente deseducativos (Illich, 1971). Provavelmente, precisamos de um meio termo.
Para Baumeister, esta volta do tema da vontade em psicologia retoma a percepção de que teorias brilhantes são baratas. Em geral espera-se por achados retumbantes de algum gênio, ainda que ter ideias brilhantes não seja desafio maior. Todo mundo tem uma teoria de algibeira para o que e como fazemos, razão pela qual facilmente se desdenha dos psicólogos com alusões como“minha avó já sabia”. “Progresso em geral não provém das teorias, mas de alguém que descobre um modo de testar a teoria, como sugeriu Mischel (Mischel & Ayduk, 2004. Mischel, 1974. Mischel et alii, 1988. Shoda et alii, 1990). Ele e seus colegas estavam teorizando sobre autorregulação – na verdade, não tinham sequer discutido seus resultados em termos de autocontrole ou força de vontade há muitos anos atrás. Estavam estudando como uma criança aprende a resistir à gratificação imediata, e descobriram um modo novo criativo de observar o processo em crianças de quatro anos. Trariam as crianças, uma de cada vez, numa sala, mostrar-lhes-iam um malvavisco (marshmallow) e oferecer-lhes-iam uma aposta antes de as deixar sozinhas na sala. As crianças poderiam comer o malvavisco sempre que quisessem, mas se renunciassem até que o experimentador voltasse, receberiam um segundo malvavisco para comerem juntos. Algumas crianças devoraram tudo logo; outras tentaram resistir, mas não aguentaram; algumas conseguiram esperar os quinze minutos inteiros para uma recompensa maior. As que tiveram sucesso, tenderam a fazer isso apelando para distrações, o que pareceu ser um achado bastante interessante ao tempo dos experimentos, nos anos 60. Muito mais tarde, porém, Mischel descobriu algo a mais, graças a um golpe de boa sorte. Suas próprias filhas frequentavam a mesma escola, no campus da universidade de Stanford, onde ocorreram os experimentos do malvavisco. Bem antes de terminar os experimentos e passar para outros assuntos, Mischel continuou a ouvir de suas filhas sobre os colegas de classe. Notou que as crianças que haviam falhado em esperar pelo malvavisco extra pareciam ter mais tropeços que as outras, tanto dentro, quanto fora da escola. Para ver se aí se poderia achar algum padrão, Mischel e seus colegas rastrearam centenas de veteranos dos experimentos. Descobriu-se que aqueles que mostraram maior força de vontade aos quatro anos foram os que continuaram em frente com melhores notas e escores de teste. As crianças que aguentaram resistir por 15 minutos inteiros acabaram obtendo escores de 210 pontos acima no SAT (exame tipo vestibular) do que aquelas que desabaram após a metade do primeiro minuto”(Baumeister, 2011:216). Realmente, Baumeister teve também sorte, ao incluir suas filhas como monitoras do experimento! Saiu barato e foi brilhante: um resultado extremamente elucidativo.
Notou-se que crianças com força de vontade cresciam tornando-se mais populares com seus pares e professores. Tendiam a ter maiores salários. Tinham também índices mais baixos de massa corporal, sinalizando ter propensão menor para ganhar peso, à medida que se chegava à meia idade. Alegavam ter menos problemas com abuso de drogas. Quer dizer, resultados estupendos, já que é enormemente difícil mensurar algo na infância que poderia ter tamanho poder de predição em nível significante. Aliás, recordando os esforços de Freud de que a infância pesava fortemente na vida adulta, o que faltou foi esse poder de predição satisfatoriamente mensurado (Wolfe & Johnson, 1995. Moffitt et alii, 2010. Tangney et alii, 2004). Revisando este tipo de literatura nos anos 90, Seligman (1993) concluiu que dificilmente haveria alguma prova de que episódios na primeira infância poderiam ter impacto causal na personalidade adulta, com exceção possível de trauma severo ou má nutrição. Mais recentemente, chega-se a reconhecer que “autodisciplina é mais efetiva para predizer desempenho acadêmico do que o QI” (Duckworth & Seligman, 2005). Baumeister, Heatherton e Tice (1994), sem meias palavras, dizem que “o fracasso da autorregulação é a maior patologia social de nosso tempo”, levando-se em conta índices crescentes de divórcio, violência doméstica, crime etc. Esta obra estimulou mais experimentos e estudos, incluindo-se o desenvolvimento de uma escala de medida de autocontrole em testes de personalidade. “Quando os pesquisadores compararam notas de estudantes com perto de trezes traços de personalidade, autocontrole acabou se tornando o único que predizia a média da nota estudantil mais que mero acaso. Autocontrole também se provou ser o melhor preditor de notas na faculdade do que o QI do estudante ou o escore no SAT. Embora inteligência crua seja obviamente uma vantagem, o estudo mostrou que o autocontrole era mais importante porque ajudava os estudantes a mostrarem-se mais confiáveis para aproveitarem as aulas, começarem seus trabalhos de casa mais cedo e gastar mais tempo trabalhando e menos tempo vendo televisão”(Baumeister, 2011:216).
II. IMPORTÂNCIA DO AUTOCONTROLE CRESCE
“A evidência mais forte, no entanto, foi publicada em 2010. Num estudo sofrido de longo prazo, muito mais amplo e mais completo do que qualquer outro feito anteriormente, uma equipe internacional de pesquisadores rastreou mil crianças em Nova Zelândia desde o nascimento até a idade de 32 anos. O autocontrole de cada criança foi classificado numa variedade de maneiras (através de observação por pesquisadores, bem como de registros de problemas a partir dos pais, professores e de outras crianças). Isto produziu uma mensuração especialmente confiável do autocontrole das crianças e os pesquisadores foram capazes de checar contra um espectro extraordinariamente amplo de resultados através da adolescência até à idade adulta. As crianças com alto autocontrole cresceram para adultos que tinham melhor saúde física, incluindo menores índices de obesidade, menos doenças transmitidas sexualmente e mesmo dentes mais saudáveis. (Aparentemente, bom autocontrole inclui escovar os dentes e passar fio dental). Autocontrole foi irrelevante em depressão adulta, mas sua falta tornou pessoas mais propensas ao álcool e a problemas com drogas. As crianças com autocontrole fraco tendiam a desenvolver-se mais problematicamente em termos financeiros. Trabalhavam em empregos relativamente mal pagos, tinham pouco dinheiro no banco e tinham menor probabilidade de possuir uma casa ou ter poupança para a aposentadoria. Desenvolveram-se tendo também mais crianças sendo cuidadas em domicílios de um progenitor só, presumivelmente porque tinham tempo mais difícil para adaptar-se à disciplina requerida para relacionamento de longo prazo. As crianças com bom autocontrole tinham maior chance de construir um casamento estável e criar filhos numa casa de dois progenitores. Por fim (ainda que não seja a questão menos relevante), os filhos com autocontrole fraco eram mais propensos a acabar na prisão. Entre aquelas com menor nível de autocontrole, mais de 40% tinham condenação criminal aos 32 anos, comparadas como apenas 12% das pessoas que tinham estado no topo da distribuição de autocontrole em sua juventude” (Baumeister, 2011:229). É respeitável este esforço de pesquisa, tão amplo e concertado, mesclando métodos de observação e análise, mas mais interessante é a corroboração da hipótese do autocontrole como estratégia ou tecnologia fundamental para a vida futura. Os resultados são altissonantes.
Procurou-se mais corroboração em outras dimensões, com destaque para biologia animal. Procurando-se explicações para cérebros maiores, aludiu-se já a bananas e frutos ricos em calorias. Enquanto isso, animais que pastam não precisam preocupar-se com a próxima refeição: está tudo à mão (ou à boca). A bananeira que, há uma semana, tinha bananas maduras, no ponto, hoje pode estar sem nada ou com restos apenas. Um comedor de banana precisa de um cérebro maior para lembrar de onde estão frutos maduros, tendo ainda como compensação nutrir-se das devidas calorias, de sorte que a “teoria do cérebro que procura banana” fazia sentido, embora apenas em teoria. O antropólogo Dunbar (1998) não encontrou suporte, ao estudar os cérebros e dietas de animais diferentes, não havendo, para ele, correlação entre tamanho do cérebro e tipo de comida. A hipótese de Dunbar não se vincula com o ambiente físico, mas com algo ainda mais crucial para a sobrevivência: vida social. Constatou que animais com cérebros maiores tinham redes sociais mais complexas, abrindo um novo horizonte para entender o homo sapiens. “Humanos são os primatas com os lóbulos frontais maiores porque temos os maiores grupos sociais, e é por isso aparentemente que temos a maior necessidade de autocontrole. Tendemos a pensar de força de vontade como uma força para melhoramento pessoal – assumindo uma dieta, terminando o trabalho no tempo previsto, saindo para fazer exercício, deixar de fumar – mas esta não é provavelmente a razão primária de sua evolução tão plena em nossos antepassados. Primatas são seres sociais que têm de controlar a si mesmos para conviver com o resto do grupo. Dependem uns dos outros para comida de que precisam para sobreviver. Quando a comida é compartilhada, muitas vezes é o macho maior e mais forte que tem a primeira escolha no que comer, enquanto os outros esperam sua vez conforme o status. Para que os animais sobrevivam em tal grupo sem serem maltratados, precisam restringir seu impulso de comer imediatamente. Chimpanzés e macacos não poderiam comer pacificamente, se tivessem cérebros de esquilos. Precisam gastar mais calorias em lutar do que iriam consumir na refeição” (Baumeister, 2011:253). Parece engenhosa esta elucubração. De fato, para viver em redes sociais é imprescindível renunciar em face de rivais que gostariam de ter a mesma chance ou de aproveitar-se da chance dos outros, ou mesmo pelo fato de ser viver em grupo. Entra também a habilidade de cálculo, através do qual pode-se ponderar qual seria o momento mais propício para termos as necessidades e desejos satisfeitos, implicando planejamento, renúncia, estratégia, uma elaboração já bastante sofisticada do cérebro. Não é, certamente, uma explicação suficiente, porque esta possivelmente jamais teremos.
Para humanos, um dos controles mais complicados é das emoções (Lewis et alii, 2000). Embora hoje se assuma que fazem parte da racionalidade, não sendo, pois, seu antípoda (Damásio, 1996; 1999), é habilidade enorme saber lidar com elas, retirando delas as energias vitais de que precisamos para nossa motivação. Podemos facilmente nos sentir sobrecarregados por eventos frustrantes, ou entristecidos por ocorrências desagradáveis, bem como mais felizes por boas novas; mas isto pode estar sucedendo porque o controle emocional não está funcionando como imaginaríamos. É importante analisar sentimentos, não se deixar sucumbir neles, como é importante resistir a tentações, para usar um conselho antigo de gente religiosa. No entanto, resistir a tentações pode também implicar maior atração por elas. Sabemos que o proibido é mais gostoso, desde sempre, ou desde Adão e Eva. Em termos da pesquisa, os experimentos têm demonstrado duas lições: i) temos um montante finito de força de vontade que se exaure, usando-a; ii) usa-se o mesmo estoque de força de vontade para todo tipo de tarefas (Baumeister, 2011:547). Em palavras mais populares, força de vontade cansa rápido, não se pode ser herói toda hora, ninguém é de ferro. Lidar com emoções fortes é um desafio extremo, por conta das infindas ambiguidades envolvidas, que vão desde a motivação mais radical e efetiva, até ser tragado por tais vulcões indomáveis. Força de vontade é um trunfo que precisa ser reconstruído diariamente. Não é um estoque fixo e sempre disponível, garantido.
Baumeister categoriza o uso da força de vontade em quatro categorias, começando com o controle dos pensamentos. Por vezes é uma luta perdida quando se quer, sem êxito, ignorar algo sério (esquecer algo que nos atormenta), ou quando queremos nos livrar de algo que bate no ouvido. Controlar os pensamentos não pode ser tarefa completa, porque eles vazam por entre as comportas e tapumes, mas é possível avançar nessa direção. Pode-se também aprender a focar, em especial quando a motivação é forte. Há pessoas que conservam sua força de vontade procurando, não a melhor ou a plena reposta, mas uma conclusão predeterminada. Assim procedem teólogos e crentes: filtram o mundo de modo que o mundo se adapte a princípios tidos por não negociáveis de sua fé. Os melhores marinheiros muitas vezes têm êxito, enganando-se a si mesmos; banqueiros fizeram empréstimos mobiliários ignorando regras comezinhas de empréstimo (por exemplo, não se empresta a quem não tem renda adequada) (Baumeister refere-se à bancarrota dos bancos imobiliários americanos e seus empréstimos podres); Tiger Wood (campeão mais renomado do golfe e que se envolveu com aventuras extraconjugais) se convenceu de que monogamia não era para ele e que poderia ficar incógnito e impune em seus affaires. Aprender a focar, claramente, é uma espada de dois gumes: quando o foco é obsessivo, não se vê mais nada. Uma segunda categoria é o controle das emoções, ou a regulação do afeto quando focada no humor: particularmente difícil porque, em geral, não se muda o humor por um ato de vontade. “Pode-se mudar o que se pensa ou como se comporta, mas não se pode forçar a ser feliz. Podem-se tratar seus parentes por parte da esposa polidamente, mas não pode regozijar-se com sua visita já de um mês” (Id.:581). Para precaver-se de tristeza ou raiva, usam-se estratégias indiretas como distrair-se, fazer exercícios, ou mesmo meditar, quando se usam expedientes mais inadequados como bebedeira, perder-se na noite, etc.
Uma terceira categoria é o controle do impulso, desfio mais associado com força de vontade (resistir a tentações como álcool, tabaco, chocolate, comida boa etc.). Na prática, não controlamos os impulsos, porque impulso é, por definição, algo fora de controle. Mas podemos cercar a questão com iniciativas inteligentes, por exemplo, evitando causas e ocasiões dos impulsos. Se sabemos que, indo a um bar, corremos o risco de nos embebedar, é melhor não ir. Se já sabemos que, paquerando a servente da festa, posso arranjar os maiores problemas, seria mais ajuizado não se permitir isso. Por fim, há o controle do desempenho, focando a própria energia na tarefa à mão, procurando a combinação correta de velocidade e acuidade, regulando o tempo, perseverando até ao final. Há estratégias para aprimorar esses tipos de controle, variando também nas culturas e tradições. Aquelas mais consonantes com a pesquisa científica se voltam para iniciativas que reforçam a automotivação, mais que qualquer sugestão de fora. Força de vontade precisa ser construída, e reconstruída todo dia. Cabe, então, a pergunta: se força de vontade não é só metáfora, mas, existindo algo como “força” impulsionando esta virtude, donde viria?
A resposta apareceu acidentalmente de um experimento fracassado inspirado na terça-feira do carnaval e de outros carnavais festejados na véspera da quaresma. Terça-feira do carnaval é chamada de “Mardi Gras” (Terça Gorda, em francês), o dia antes da quarta-feira de cinzas, quando as pessoas se preparam para um tempo de jejum e autossacrifício, por conta de terem vergonhosamente cedido a seus desejos. Em certos lugares é conhecida como Dia da Panqueca, que começa com cafés da manhã nos quais se podem comer todas as panquecas em igrejas. Padeiros prestigiam a ocasião produzindo fôrmas especiais, variando seus nomes de cultura a cultura, e cuja receita inclui montanhas de açúcares, ovos, farinha, manteiga e toucinho. A comilança é só o começo. “Desde Veneza, passando por Nova Orleans, até Rio de Janeiro, os farristas se movimentam em torno dos vícios mais atraentes, por vezes sob máscaras tradicionais, mas por vezes deixando tudo à mostra. É um dia em que se pode demonstrar-se na rua com adereços na cabeça e nada mais, orgulhosamente correspondendo aos aplausos de bêbados. Perder o autocontrole torna-se uma virtude. No México, homens casados recebem oficialmente um dia de liberdade de suas obrigações conjugais, dia chamado de‘El día del marido oprimido’… Na véspera da quaresma, mesmo os paroquianos anglo-saxões mais rígidos se encontram com humor de perdão. Chamam de Terça do Perdão (Shrove Tuesday), derivado do verbo ‘shrive’, que significa ‘receber absolvição pelos pecados’” (Baumeister, 2011:612). Toda essa armação, na qual estão metidas também entidades religiosas, indica que autocontrole é uma virtude tão importante e exigente que, pelo menos alguma vez no ano, será permitido não cumprir. Sugere-se que não é realista esperar autocontrole o ano inteiro, todo dia, nem mesmo de devotos fiéis. Depois do carnaval vem a quaresma, tempo de jejum e abstinência, quando se volta ao sério de novo. Antes, porém, há alguns momentos de férias, nos quais pode valer tudo em termos de seguir os desejos sem qualquer pudor. A resposta acidental à pergunta feita acima seria, então: a “força” advém da capacidade, muitas vezes religiosa, de resistir às tentações, praticando a renúncia.
III. FORÇAS RELIGIOSAS
Religiões são um fenômeno de rara ambiguidade, além de força histórica incomum (Bellah, 2011. Shermer, 1997; 1999). Não há grupo humano conhecido que não estruture este tipo de manifestação, e também nos tempos modernos (e pós-modernos), religiões não cessam de aparecer, sempre mostrando dupla face: de um lado, satisfazem necessidades básicas humanas que, sob a forma da religiosidade ou espiritualidade, podem alcançar expressões de rara virtude e autorrealização; de outro, são negócios escusos, máquinas de guerra, fundamentalismos exclusivistas,   povos eleitos” e outros tantos vícios segregacionistas, à sombra de Deus (ou deuses) bem urdidos para sustentarem as respectivas hierarquias. Um dos traços mais imponentes das religiões é a imposição de múltiplas formas de autocontrole, tendo sua expressão máxima nos “renunciadores” orientais ou nos monges ocidentais (cristãos), capazes de renunciar ao sexo, à riqueza e mesmo à própria vontade (obediência). Qualquer atividade religiosa aumenta a longevidade (McCullough & Willoughby, 2009. McCullough et alii, 2000), segundo visão de McCullough e colegas, compulsando mais de três dúzias de estudos que haviam perguntado às pessoas sobre suas devoções religiosas e acompanhando-as no tempo. Descobriu-se que pessoas não religiosas morriam antes e que, em qualquer ponto do tempo, uma pessoa ativamente religiosa tinha 25% a mais de chance de ficar viva. A pesquisa disponível só tem confirmado tais resultados. Algumas das pessoas com vida longa alegam que Deus estaria diretamente respondendo a suas preces, embora esta não seja hipótese válida para cientistas. Estes encontraram razões mais terrenas. De fato, pessoas religiosas tendem menos que outras a desenvolver hábitos não saudáveis, como bebedeira, sexo arriscado, drogas ilícitas, cigarro. Tendem mais a usar cintos de segurança, ir ao dentista, tomar vitaminas. Com suporte social de outros crentes, sua fé ajuda a lidar com infortúnios, sendo uma das virtudes mais eminentes o autocontrole. O estudo de McCullough & Willoughby (2009) teria mostrado: “religião promove valores familiares e harmonia social, em parte porque alguns valores ganham em importância quando se supõem vinculados à vontade de Deus ou a outros valores religiosos. Benefícios menos óbvios incluíam o achado de que religião reduz conflitos internos das pessoas entre diferentes objetivos e valores. Como anotamos antes, objetivos em conflito impedem a autorregulação; assim, a religião reduz tais problemas oferecendo aos crentes prioridades mais claras”(Baumeister, 2011:2614).
Esta argumentação ilustra o valor de uma vida sem vícios, sem entrar no mérito se o autocontrole implicado poderia ser justificado sem mais. Viver a vida toda trancado no convento, sob a fé de estar seguindo o exemplo de Cristo que também assim viveu – em total renúncia – pode ser visto como projeto estranho de vida, em especial para denominações religiosas que seguem a teologia da prosperidade, não do despojamento, como foi a vida de Cristo relatada no Novo Testamento. Mas é conhecido que pessoas religiosas com este nível de renúncia possuem grande chance de vida longa, em grande parte porque não praticam vícios arriscados ou diretamente danosos, sem falar num estilo de vida tranquilo, sem maior estresse. A religião afeta dois mecanismos centrais para autocontrole: construir força de vontade e aprimorar o monitoramento. Desde o início dos anos 20, pesquisadores já notaram que estudantes investindo maior tempo na escola dominical apresentavam escores mais elevados em testes de laboratório de autodisciplina. Crianças com devoção religiosa mais visível mostram impulsividade relativamente menor frente aos pais e professores. A pesquisa não saberia (ainda) responder se orar/rezar aprimora o autocontrole, mas tais rituais acabam colaborando na construção da força de vontade como todo exercício de ascese, incluindo-se sentar de modo adequado e falar com precisão. Também exercícios de meditação envolvem esforço de autorregulação e atenção, como no caso conhecido da meditação zen, que começa contando a respiração até dez e depois de novo e de novo. A mente facilmente vagabundeia, mas na meditação é forçada a concentrar-se disciplinadamente. Efeito similar poderia ser rezar o rosário, cantar salmos hebreus, repetir mantras dos hindus. “Quando os neurocientistas observam as pessoas rezando ou meditando, veem atividade incisiva em duas partes do cérebro que também são importantes para a autorregulação e controle da atenção. Psicólogos veem um efeito quando expõem pessoas a palavras religiosas subliminarmente, significando que palavras são lançadas numa tela tão rapidamente que as pessoas não se conscientizam do que viram. Pessoas expostas subliminarmente a palavras religiosas como Deus ou Bíblia se tornam mais vagarosas em reconhecer palavras associadas com tentações como drogas ou sexo pré-marital” (Id.:2615). Observa McCullough que, na pesquisa, se tem a impressão de que as pessoas associam religião com o poder de dominar tentações, sugerindo que rituais de oração e meditação são um tipo de execução anaeróbica para autocontrole (Baumeister, 2011:2627).
Religião contribui para o autocontrole, entre outras coias, organizando o dia e o tempo em geral, em torno de rituais que o devoto assume, obrigando-o a se disciplinar. Algumas religiões, como o islã, exigem orações em determinados momentos do dia, outras prescrevem tempo de jejum, como o Yom Kippur dos judeus, o mês do Ramadan islâmico, os quarenta dias da quaresma dos católicos. Por vezes há regras para comer que mandam suprimir certas iguarias ou prescrevem o vegetarianismo. Tendo Deus como presença constante, os religiosos se monitoram porque se sentem monitorados. Este controle é só aumentado pelo controle de outros religiosos à volta. O sacramento da confissão entre católicos, implicando contar para o padre seus pecados, se quiser perdão, é uma tática de monitoramento muito forte, invasiva. Baumeister afasta a alegação de que este autocontrole é resultado apenas do medo de Deus, porque é preciso levar em conta todo o universo circundante de valores religiosos fortemente autodisciplinadores. As denominações pentecostais atuais (religiões ditas evangélicas recentes) vangloriam-se, entre outras coias, de arrumarem a vida das pessoas em todos os sentidos: refazem casamentos, reaproximam famílias, consertam a vida de negócios, disciplinam valores e atitudes, em especial afastam vícios (drogas, álcool, desregramento), além de, exigindo o dízimo de cada um, montar um controle financeiro na vida de todos. É um grande trabalho e que justifica, em parte, o envolvimento forte que gera nas pessoas. Pode-se discutir até morrer sobre a oportunidade e mesmo decência de tais iniciativas religiosas, por exemplo, que a hierarquia não tem nada a ver com a vida concreta de Cristo (o exemplo mais radical de autocontrole, despojamento, autodisciplina), se locupleta à custa do dízimo dos mais pobres, montam impérios para um pretenso Deus que aprecia o fausto (de novo, nada a ver com Cristo), mas que é desfrutado pelos pastores e chefes. Nada de novo, porém. Todas as religiões surgem para acabar com as outras, e fazem a mesma coisa, abusando da linguagem do amor… Ironicamente, o ambientalismo de hoje conclama a humanidade para renunciar a desperdícios, indicando que a vida no Planeta só é viável se todos souberem restringir suas ganâncias. De uma forma ou de outra, estamos buscando os “10 mandamentos” do bom comportamento ambiental! Assim, um corpo amplo e novo de pesquisa reconhece o valor de práticas religiosas, ou regras como essa:“O melhor modo para reduzir estresse em sua vida é parar de contorcer-se. Significa arrumar sua vida de sorte a se ter uma chance realista de êxito. Pessoas exitosas não usam força de vontade como defesa de última trincheira para as parar do desastre, pelo menos não como estratégia regular, como Baumeister e seus colegas observaram recentemente nos dois lados do Atlântico. Quando monitoraram alemães durante o dia (com observações monitoradas por bips), os pesquisadores ficaram surpresos em encontrar que as pessoas com forte autocontrole gastavam menos tempo resistindo aos desejos do que outras”(Baumeister, 2011:3474).
IV. PARA APRIMORAR O AUTOCONTROLE
Baumeister, seguindo a tradição americana de transformar ciência em autoajuda, também oferece “dicas” ou “fórmulas” para aprimorar o autocontrole. Talvez seja a parte mais questionável de sua obra, mas, não sendo demasiadamente exigente neste caso, podemos observar o que ele prescreve. Começa censurando com veemência a procrastinação (deixar para depois), “um vício quase universal” (2011:3498). Em surveys modernos, 95% das pessoas admitem procrastinar pelo menos às vezes, um “pecado” que estaria se alastrando com a multiplicação das tentações. Segundo Steel (2011; 2007), analisando dados das últimas quatro décadas, concluiu que houve aumento incisivo dos procrastinadores. Em surveys americanos, mais da metade se diz crônico procrastinador, sendo que trabalhadores também assumem que, por dia, jogam fora duas horas de trabalho, deixando as coisas para depois. Por vezes, a procrastinação pode ser devido ao perfeccionismo, mas isto é raro e serve mais como desculpa. A questão mais importante parece ser a impulsividade, o que acabou sugerindo que procrastinação é mais própria do homem: homens possuem impulsos mais difíceis de controlar. Em vez de enfrentar o problema que surge, deixam para depois e buscam outras ocupações secundárias, também para se conseguirem recompensas imediatistas. Alguns chegam a dizer que produzem melhor sob pressão, mas estão, como mostram as pesquisas, enganando a si mesmos.
Primeira lição do “Willpower 101” (101 é número usado para indicar uma lista de coisas essenciais, neste caso para aprimorar a força de vontade) (101.2012): “Conheça seus limites” (Baumeister, 2011:3547). Tomando em conta que, i) o suprimento de força de vontade é limitado e ii) que usamos este recurso para muitas outras tarefas, é fundamental medir o tamanho dos ombros, para saber o que e como carregar. Ademais, o mundo de hoje é mais complexo, impõe mais expectativas e exigências, em meio a novos atrativos e distrações. Por mais que, olhando de modo otimista, limites sejam desafios, só vencemos desafios limitados, para sermos minimamente realistas. A seguir vem a lição: “Observe sintomas” (Baumeister, 2011:3568). É preciso auscultar sintomas tênues, sutis, mas decisivos, que indicam nossas fraquezas e chances. As coisas não podem nos preocupar mais do que merecem, nem de menos, o que pede desconfiômetro, serenidade e capacidade de decisão. “Escolha suas batalhas” – é outra lição. Não se podem controlar ou predizer os estresses que incidirão sobre a vida, mas, podemos, nos períodos de calma, ou pelo menos em momentos mais pacíficos, planejar nosso ataque. Podemos evitar batalhas perdidas, cuja luta é só perda de tempo. Podemos divisar estratégias para podermos chegar mais longe. Podemos poupar energias preciosas. “Faça uma lista de tarefas” – é a próxima lição. Se não quisermos ser propositivos logo de saída, podemos começar pelo outro lado: tarefas que não devem ser feitas…, aquelas preocupações que não nos deveriam preocupar, aqueles desgastes de que não precisamos, aquelas trapalhadas que nada acrescentam. Esta lista depende, naturalmente, do conhecimento que se tem de si mesmo: nossos fortes e nossos fracos.
Fuja da falácia do planejamento” – sinaliza a importância de não planejar o que não tem muita chance de acontecer, como se, só por planejar, garantimos a realização. Baumeister dá como exemplo a promessa de prédios em construção que nunca terminam no prazo e custam mais do que se havia prescrito. Muito menos, podemos planejar que termine seis meses antes… “Não esqueça o básico” – Trata-se de não deixar de lado tarefas básicas – dá o exemplo de trocar as meias todos os dias – imaginando que, com isso, se poupa tempo para, digamos, estudar mais para a prova. Na prática é contraproducente, porque não trocar as meias, não lavar a louça, não cuidar dos cabelos, não preparar comida saudável acabam incidindo em situações vexatórias que reduzem ainda mais nossa capacidade de reação. Além do mais, tais procedimentos interferem nos outros, que, vivendo juntos, precisam conviver com meias sujas, louça por lavar, cabelos mal cheirosos, comida ruim… Faz parte do autocontrole bem feito ter as coisas básicas da vida bem arrumadas. Esta lista pode ter sua utilidade, mesmo que tenha sabor de autoajuda. Não custa transformar resultados de pesquisa em indicações práticas. O problema é que se acredita demais em saídas automáticas ou miraculosas, perdendo-se de vista que chances podem vir por acaso, mas é mais prudente correr atrás delas.
Analisando o “futuro do autocontrole” (Baumeister, 2011:3784), Baumeister questiona o vezo antigo de colocar o autocontrole nas mãos de Deus ou nos comparsas de mesma religião. “Preceitos divinos e pressão social a partir do resto da congregação tornaram religião o promotor mais poderoso do autocontrole para a maior parte da história. Hoje, muito embora a influência da religião esteja recuando em alguns lugares, as pessoas estão aprendendo outros modos para empurrar o autocontrole para os outros: amigos, smartphones, sites da web que monitoram comportamentos e forçam apostas, para vizinhos que se reúnem na igreja e para redes sociais conectadas eletronicamente. Temos novas ferramentas para quantificar quase tudo que fazemos e compartilhamos isso com novas congregações. Entrementes, cada vez mais pessoas chegam a perceber que autocontrole fraco é central para problemas pessoais e sociais” (Ib.). O ponto crucial do autocontrole não é “produtividade”, porque as pessoas hoje já não precisam trabalhar tão arduamente. No século XIX, o trabalhador típico tinha mal e mal uma hora livre por dia e não existia aposentadoria. Hoje, gastamos por volta de um quinto das horas despertas no trabalho. Baumeister avalia que o tempo restante é, na verdade, um surpreendente dom, sem precedentes na história humana, mas isto exige um tipo nunca dantes visto de autocontrole para o desfrutar bem. Facilmente preferimos procrastinar, mesmo quando se trata de prazer, supondo que, no futuro, teremos ainda mais tempo. Assumimos um compromisso em três meses no futuro, quando não o faríamos jamais se estivéssemos a uma semana dele. Dizemos sim, imaginando que no futuro tudo se resolve com o próprio tempo. Deixamos de ir ao zoológico ou passear num fim de semana, sem perceber que são, na maioria das vezes, chances perdidas. Por isso, Baumeister considera estratégia importante saber atacar, ficar na ofensiva, não deixar nada para depois. Sendo nosso tempo na terra limitado, urge aproveitá-lo todo. Entre as descobertas mais significativas de Baumeister é que “pessoas com força mais forte de vontade são mais altruístas” (Ib.). São mais capazes de fazer doações, trabalho voluntário e oferecer suas casas para abrigar desabrigados. “Força de vontade evoluiu porque foi crucial para nossos ancestrais conviver melhor com o resto do clã, e ainda serve a este propósito hoje. Disciplina interna ainda orienta para gentileza externa. É por isso que, a despeito de todas as fraquezas e fracassos descritos nesse livro, há razão para sermos agressivos no autocontrole. Força de vontade está evoluindo. Muitos de nós sucumbiram recentemente a novas tentações, e haverá um montão de novos desafios pela frente. Mas, independentemente do que novas tecnologias vão oferecer, ou independentemente de quão avassaladoras algumas das novas ameaças pareçam, os humanos possuem a capacidade de lidar com elas. Nossa força de vontade nos tornou as criaturas mais capazes do planeta e estamos redescobrindo como nos ajudar mutuamente. Estamos aprendendo, de novo, que força de vontade é a virtude que mais nos distingue como espécie, e o que nos torna fortes” (Ib.).
Não sei se tantas promessas são minimamente realistas, também porque aparece em Baumeister uma valorização excessiva dos humanos como expoentes da natureza, encontrando no autocontrole uma das alavancas de sua“superioridade”. Estamos aprendendo que esta visão está ultrapassada (Latour, 2005), porque todas as virtudes humanas são expressões da mesma natureza, naturais, portanto, não “superiores”. Poderíamos talvez alegar que força de vontade é uma tecnologia mais desenvolvida nos humanos, com alguma ligação (ainda pouco decifrada) com nossos cérebros maiores, sem falar que seu apreço também depende de contextos culturais. Há culturas que apreciam o trabalho como sentido da vida, como se pode averiguar da proposta marxista (trabalho é a categoria central da sociedade, por isso “Partido dos Trabalhadores”representam a sociedade inteira, não só trabalhadores), enquanto outras podem divisar no trabalho também seus traços degradantes. Em sociologia, é conhecida a tese de Weber sobre a ética protestante ou o espírito do capitalismo (ironizado na obra marcante de Boltanski & Chiapello, 2005), segundo a qual culturas que apreciam trabalho como sentido da vida se desenvolvem melhor, também porque mais facilmente economizam para investir (sabem renunciar). Esta tese insinua que culturas católicas, por exemplo, em geral são mais atrasadas, possivelmente porque nelas se trabalha menos… A Europa nórdica e países similares (Estados Unidos, Austrália, etc.) são países mais avançados e que também apreciam novas tecnologias e conhecimento inovador, gerando ambientes de maior competitividade e produtividade. Este tipo de visão, ainda que pareça ter evidências empíricas, desanda facilmente em etnocentrismos dos quais a Europa está cheia e que estão presentes em guerras mundiais massacrantes. Ressoa aí a noção pérfida do “povo eleito” bíblico: este fabrica seu Deus que, por sua vez, diz o que este povo quer ouvir, em especial o mandato de evangelização geral de todos sob um fundamentalismo só, sem esquecer o dízimo para a hierarquia.
É preciso – gostaria de argumentar – distinguir modos de autocontrole. Há aquele feito para garantir superioridade bélica, produtiva, cultural, onde a renúncia é mormente estratégia colonialista. Mas há aquele que podemos encontrar em filosofias de vida oriental, voltado para o controle dos desejos e para a renúncia em nome de outras dimensões da sociedade, com a mensagem enfática de que vida que vale a pena é aquela da qual temos controle por automotivação. Não é difícil ver – vemos em casa todo dia com nossos filhos– que pessoas com autocontrole mais avançado se produzem chances mais interessantes na vida, porque correm atrás delas, investem tempo e dedicação para se prepararem, recomeçam sem desânimo, perseveram. Esta mensagem me parece importante como filosofia de vida e como tentativa de redescobrir que, em educação, esta visão é importante. Se criamos filhos sem limites, eles não terão limites, e as primeiras vítimas podemos ser nós mesmos. Ao mesmo tempo, conseguir que os filhos percebam a importância de limites é uma engenharia finíssima, a maior pedagogia imaginável, porque implica suscitar uma criatura capaz de entender que ela mesma precisa saber limitar-se em nome da convivência possível. Podemos, como fez muito bem Baumeister, observar essa questão nas religiões: todas promovem a renúncia, porque partem da constatação de que o ser humano tende a ser uma figura decaída, viciada, pecadora, urgindo resgatar um tipo autodisciplinado de comportamento. Mas é preciso, de novo, distinguir: há quem se autocontrola por motivos religiosos impostos de fora, como ter de pagar o dízimo a qualquer custo (como se Deus precisasse de dízimo!), bem como há quem tem automotivação religiosa (religiosidade, não religião) para levar uma vida regrada, porque acredita que isto constrói uma sociedade melhor e um sentido alternativo de vida.
Como a humanidade sempre vai de um extremo a outro, o fato de estarmos fartos de crianças sem limites e de bandidagem à solta sem lei (não só de bandidos fora da lei, mas principalmente daqueles dentro da lei), pode provocar o outro extremo: voltar ao Antigo Testamento – dente por dente, olho por olho. Saber renunciar é fundamental. Talvez seja um dos gestos mais“formativos”. Mas é sempre preciso perguntar pela razão. Muita renúncia pode ser apenas exploração: somos obrigados a renunciar, para que o outro desfrute à nossa custa. Vai nisso também algo de mistério, que a pesquisa não deslindou ou talvez, por limitações metodológicas, jamais vá decifrar: a renúncia é necessária por conta de nossos desejos incontidos e destrutivos; desejos são, porém, uma das energias mais substanciais do ser humano e de outras criaturas naturais. É uma gangorra sem solução. Mesmo assim, parece claro: não se constrói uma vida interessante, autossatisfatória e satisfatória para a sociedade sem renúncia. Este reconhecimento fundamentou por séculos uma pedagogia do castigo (também físico). Ponto algo de qualquer castigo é obrigar a renunciar. Não queremos voltar no tempo. Mas podemos ter exagerado no outro lado: quando as crianças fazem o que querem e os pais veem nisso uma gracinha, podemos estar cultivando pequenos monstros que, depois, nos vão engolir, maltratar. O mundo digital pode ter sua parte nesse risco, porque, sobretudo para crianças, aparece como horizonte infinito de entretenimento, informação, interação, consumo, aguçando a expectativa de querer tudo na hora.
PARA CONCLUIR
Alguns reparos que coloquei aqui à obra de Baumeister não deveriam deixar a impressão de que se trata de algo descartável. Quero dizer o contrário. É surpreendente que este estudo tenha entrando com tanta força em nossas filosofias de vida, mexendo profundamente com paradigmas vigentes familiares, educacionais, produtivos, etc. O mais importante é o esforço ingente de colocar tudo no plano da pesquisa científica, com devidas evidências empíricas. Chamou-me a atenção o espaço dedicado ao papel das religiões no autocontrole. Pode ser decisivo na vida de muitas pessoas que, finalmente, se arrumaram um norte e a eles se subjugam, manifestando, então, um estilo de convivência mais condizente. A religião é um fenômeno de rara ambiguidade. Serve para qualquer coisa, também como negação da própria religião. Apesar dos pesares, não se escapa de constatar que pessoas religiosas apresentam“vantagens” claras sobre pessoas viciadas. Isto lembra a célebre discussão sobre liberdade. Todos a querem como bem elevado. Mas, só a temos relativamente, porque liberdade própria só existe junto com a liberdade dos outros. Ou seja, liberdade só pode ser bem praticada com devida renúncia. Viver em sociedade é viver renunciando, como é o caso de casamentos que duram muito: ambos sabem renunciar. É uma dimensão sui generis, porque atinge comportamentos naturais – por exemplo, sexo – que se impõem limitações que agridem a naturalidade da vida. Muitas religiões prescrevem este tipo de perspectiva: viver com pouco, pretender pouco, não se impor. Talvez ainda seja a maneira mais prática de ser feliz: saber renunciar.
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[1]Tais sinalizadores são bips que soam em intervalos determinados pelos pesquisadores para colher e controlar dados. Um dos mais conhecidos pesquisadores a usar esse método de coleta foi o conhecido psicólogo do “flow”: Csikszentmihalyi (1991). Como já aleguei, não vou questionar esta propensão empirista do método, mesmo que fosse fácil mostrar que possivelmente mais deturpa do que trabalha tais dinâmicas reduzidas a manifestações mensuráveis (Demo, 2001). Como toda dinâmica complexa também apresenta recorrências que podem ser formalizadas pelo método científico, apesar do reducionismo empirista, é possível obter insights pertinentes (Demo, 2002).
Sobre o autor: Prof° Dr. Pedro Demo,Doutor em Sociologia pela Universidade de Saarbrucker, Alemanha; pós –doutorado na UCIA – Los Angelas; técnico de Planejamento e Pesquisa IPEA; professor – titular da Universidade de Brasília; autor de mais de 40 livros; conferencista de Renome Internacional. Algumas publicações do autor: Desafios Modernos da Educação, Conhecimento Moderno, Assessor para a Tele Educação, Política Social do Conhecimento, Dialética da Felicidade, Avaliação Qualitativa, Pobreza Política, LDB – Avanço e Ranços, e Educação Cultura e Política Social. Aqui curriculum vitae completo , Blog: http://pedrodemo.blogspot.com.br/ Facebook: pedro.demo ; E-mail: pedrodemo@gmail.com.

Tecnologia e Gestão Educacional

Desde que o primeiro computador foi inventado que a tecnologia vem sendo discutida como um veículo de inovação e comunicação, principalmente como ferramenta capaz de transformar a educação. Felizmente já encontramos educadores que percebem a alfabetização tecnológica como essencial para o cidadão, tal como é o domínio do cálculo, da leitura e da escrita. Porém, apesar dos esforços de alguns, temos consciência de que a tecnologia na escola ainda não foi capaz de produzir as inovações que produz em outros setores da atividade humana.

Segundo o professor Fernando Reimers, pesquisador na área de inovação educacional, educação global e impacto do desenvolvimento profissional na qualidade e relevância da educação para o desenvolvimento de habilidades do século 21, uma das falhas desses esforços em introduzir a tecnologia para favorecer a inovação nas escolas deve-se ao fato de que o problema não tem considerado apropriadamente a dimensão humana desse desafio.

“Boas coisas acontecem dentro das escolas e outras instituições porque existem indivíduos que as fazem acontecer. Fazer as pessoas promoverem avanços em suas respectivas organizações é o desafio que se apresentam aos líderes. Se queremos que as escolas alavanquem o poder da tecnologia para produzir o tipo de inovação que irá educar melhor os alunos, necessitamos de focar no papel dos gestores em direcionar esse processo de mudança.”

Esta constatação nos leva a refletir sobre a necessidade destes profissionais compreenderem suas deficiências de formação na área da tecnologia e buscarem assistência no sentido de contribuírem para o desenvolvimento de habilidades que tornem os alunos cidadãos produtivos no século 21. Cabe ao gestor a visão crítica da necessidade de mudanças curriculares e metodológicas de forma a favorecer a promoção destas mudanças na instituição escolar.

Inúmeras inovações apoiadas pelo uso das tecnologias podem contribuir para diferentes formas de aprendizagem além de oportunizarem que alunos e professores adquiram uma gama de novos conteúdos e habilidades.

As várias plataformas tecnológicas disponíveis na internet contribuem para processos de gestão escolar como compartilhamento de boas práticas, participação em comunidades de desenvolvimento profissional e uma gama de objetos de aprendizagem sobre os mais diversos assuntos.

Sem dúvida alguma, a tecnologia pode ajudar o diretor a liderar de maneira inovadora e efetiva, promovendo discussões colaborativas com sua equipe através da utilização de recursos como surveys, blogs, wikis e e-mails.

Esta liderança será cada vez mais favorecida à medida em que a comunicação facilitada pela tecnologia seja aperfeiçoada. Não existe liderança sem comunicação. É através dela que líder e liderados atuarão no desenvolvimento de competências cognitivas, interpessoais e intra-pessoais que poderão garantir um futuro melhor para os alunos, as escolas e a educação.

Referência:

REIMERS, Fernando. HAMED, Zachary. Liderando escolas e a inovação educacional através do uso de tecnologia, CAEd: Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação, texto avulso do PPGP, 2012.

Sobre o autor: Luciana Coutinho Daniel Vicente, Diretora Regional Pedagógica do Noroeste Fluminense, Mestranda em Gestão e Avaliação da Educação Pública pela UFJF ; Facebook: lucianavicente1971 ; E-mail: lucianavicente@prof.educacao.rj.gov.br

Para onde caminha a humanidade? A Educação conseguirá acompanhá-la?

Ninguém sabe, muito menos eu, como será o mundo daqui a meros cinco anos. Porém, algumas coisas nós podemos prever para a próxima década com certa razoabilidade.

No universo da Educação, prever acontecimentos futuros é muito importante, ainda que raramente alguém se preocupe com isso, pois nessa área caminha-se sempre muito lentamente e algumas mudanças ocorrem no intervalo de duas ou mais gerações (quando ocorrem!). Coisas que para alguns gestores públicos, gestores escolares e professores soam
hoje como novidade e causam sérias dificuldades de implantação, são, na verdade, velharias que já estão por aí há uma ou duas décadas, como os computadores, a internet e as TDIC de forma geral.

Precisamos ter alguma ideia do que espera por nossos alunos no futuro para que possamos começar desde já a construir teorias e práticas que serão fundamentais daqui há uma ou duas décadas. Não parece razoável que estejamos hoje lutando ainda para tentar salvar paradigmas que já estão putrefatos e modelos que são sabidamente fracassados. Se tivermos que salvar alguma coisa, então que sejam os nossos filhos e netos.

Em alguns casos não é difícil fazer previsões. Por exemplo, é óbvio que não
retrocederemos
. Somente essa “previsão” básica já deveria nos bastar para
que deixássemos de lado atitudes e medidas retrógradas que têm como propósito
apenas o retrocesso. Só para ilustrar um exemplo claro disso na seara da Educação, reflitamos sobre a perseguição insana aos “telefones celulares”.

Ora, telefones celulares sequer existem mais! O que se tem hoje em dia são dispositivos móveis multimidiáticos e interconectados em rede que, além das 1001 utilidades que já possuem, e que todos os dias são expandidas, também servem como telefones!

Desde que o bisavô desses aparelhos surgiu, na época com a função única de ser um telefone móvel, mês após mês só assistimos a um desenvolvimento exponencial de funcionalidades cada vez mais úteis. É fácil antever que daqui a cinco anos esses aparelhos terão atingido uma funcionalidade tal que possam substituir quase todos os aparelhos
que usamos atualmente para comunicação, entretenimento, educação e negócios, por exemplo.

Em um único aparelhinho desses já é possível realizar tarefas que vão da leitura de um livro, a audiência de um filme, ou da distração de um videogame até transações bancárias complexas. Daqui a uma década esse tipo de dispositivo terá expandido suas funcionalidades tanto para mais coisas banais, como controlar eletrodomésticos, quanto para outras mais sofisticadas, como gerenciar seu computador, secretariar seu dia a
dia ou dirigir seu carro.

Se você é jovem provavelmente não faz idéia de como foi
revolucionário o primeiro telefone celular. Olhe bem o “tijolão da foto”! Faz tão pouco tempo!

Então reflita comigo: como nossos filhos vão lidar com isso daqui a dez anos se a escola onde eles estudam agora quer banir os mobiles de parte importante de suas vidas (sim, a escola é parte importante da vida de nossos filhos!) sob o pretexto de que eles “atrapalham a educação”? De fato, eles atrapalham mesmo a Educação que temos hoje nas escolas, e isso é uma grande e inegável verdade, porém, também é uma grande vitória! Atrapalhar um sistema educacional falido e decadente é um ato de heroísmo entremeio a uma batalha épica entre o novo que está brotando e o ultrapassado que está definhando.

Nossos alunos não deveriam carregar mochilas imensas, cheias de livros e cadernos que cabem tranquilamente em um smartphone ou num mini tablet. Eles não precisam mais carregar agendas, relógios, calculadoras, dicionários ou mesmo lápis. Tudo isso já pode ser
“embutido” nos aparelhos atuais que, ainda que nos pareçam modernos, daqui a uma década se parecerão com o velho telefone celular “do tipo tijolão”, aquele que tínhamos a justos dez anos atrás e que só servia para informar que não havia sinal analógico disponível na área onde estávamos. Você se lembra disso? Já éramos modernos naquele tempo, não?

Nossos alunos não precisam de um professor de história que saiba de cor datas e nomes de personagens históricos e que ache o máximo da didática contemporânea copiar textos na lousa para depois formular questões de memorização. Esse professor é absolutamente
dispensável, não serve mais. É mais barato para a sociedade distribuir aos alunos tablets que podem transportar toda essa informação em pouco espaço e com pronta disponibilidade (e que vai para casa com o aluno!) do que pagar um cérebro tosco para armazenar apenas uma parte disso tudo e, ainda assim, com pouca disponibilidade e quase nenhuma mobilidade.

O mesmo vale para os professores de qualquer outra disciplina, com exceção justa e devida aos professores alfabetizadores, que têm ainda a grande tarefa de levar aos pequenos as primeiras letras. Mas, mesmo esses já podem e devem contar com recursos menos miseráveis do que uma lousa com giz e apagador, uma apostila aleijada e estática e um caderno amarelado que se tornará lixo no final do ano. Os pequenos podem aprender a ler ouvindo e lendo simultaneamente as palavras, as estórias, a voz gravada do seu próprio professor. Podem aprender a escrever com um corretor ortográfico (e em breve um corretor caligráfico!) que lhes aponte em tempo real onde estão errando ou acertando. Eles podem fazer coisas incríveis com esses “brinquedinhos inteligentes” que queremos (mas não podemos) proibir que usem.

Isso não quer dizer que não precisaremos de professores daqui a dez ou vinte anos (talvez para sempre!), mas sim que já podemos dispensar muitos dos que temos agora, pois nem mesmo nesse tempo do aqui e agora eles são imprescindíveis. Isso quer dizer que o
professor do futuro terá que saber o que ensinar, como ensinar e para quê ensinar: coisas que poucos professores “copistas e enciclopedistas” sabem responder hoje em dia.

Tudo isso não requer apenas “inovação” na área de Educação. Isso tudo exige uma “desconstrução” do que ainda teimamos em chamar de Educação, mas que na verdade não passa de um grande desfavor prestado à próxima geração. A escola precisa ser reinventada, com uma nova concepção de currículo, novos paradigmas metodológicos, uma nova didática; uma nova estrutura organizacional e logística que derrube suas paredes, flexibilize horários e atividades pedagógicas, individualize o ensino e extinga dele, de uma vez por todas, seu caráter fabril, autoritário e opressor. Isso não será o
resultado do trabalho solitário de um único, ou mesmo de vários, professores.
Isso é um trabalho conjunto de toda a sociedade.

Há muito mais para ser pensado, criado e destruído do que nossa capacidade de compreender as mudanças em nosso próprio entorno. Já acabou a era dos gênios solitários, das teorias de um profeta só. Estamos na era do conhecimento construído socialmente, fruto de uma inteligência que extrapola nossos cérebros individuais. Estamos na era da mobilidade, das redes, da construção coletiva. E é sob essa ótica que
precisamos começar a enxergar uma nova escola.

Nossa geração é um tanto covarde, submissa, conformista, consumista, apática e servil. Fomos educados, nesse mesmo modelo de escola que ainda temos, para sermos assim: “bundões”. Mas, quem sabe consigamos salvar as próximas gerações (temos que acreditar que podemos!) e, talvez, em um futuro distante, arqueólogos descubram em nós algum valor que nós mesmos não somos capazes de acreditar que possuímos.

Sobre o autor: José Carlos Antonio, @profjc , físico, professor, autor de material didático de Física para o Ensino Médio e cursinhos, autor de material didático de Matemática para o Ensino Fundamental, autor de material didático para formação de professores (EAD), formador do Cenpec e do Educarede, consultor de EAD e TI, trabalha com o uso pedagógico das TICs há cerca de duas décadas e participou de “n” projetos nessa área ao longo desses anos. Twitter: @profjc ; Facebook: ProfiJC ; Blog: http://professordigital.wordpress.com ; Email: profjc@gmail.com