Uma Grande Resposta a Uma Grande Provocação

Olá amigos

Eu alguns dias atrás fiz uma provocação aqui no blog e lá no Facebook convidando as pessoas a refletirem sobre o nosso papel de educadores/professores, de questionar o sistema, de olhar pra frente e tentar ver se estamos no caminho certo ou não. Bem, vários amigos queridos participaram e deixaram suas contribuições no blog e lá no Facebook. O meu amigo José Carlos Antônio (@profjc) fez uma colocação que eu gostaria de compartilhar aqui com vocês. Após a leitura que tal fazermos uma reflexão?

“Grande Robson!

Excelente iniciativa. Excelente texto. Excelentes reflexões. Ou seja, nenhuma novidade, você continua ótimo!

Puxa-saquismo à parte, confesso que não tenho nenhuma resposta para suas indagações. Mas vou explicar por quê. E vou tentar fazê-lo à partir de uma estratégia um pouco inusual.

Imagine-se como um professor 30 anos atrás. Como você estaria preparando seus alunos para que eles enfrentassem o futuro e hoje fossem pais competentes dos alunos que temos nas escolas e cidadão capazes de lidar com o mundo atual?

Hum… Veja bem, esses seus alunos de 30 anos atrás são os adultos que estão no mercado de trabalho, ou desempregados; são policiais e bandidos, são professores e analfabetos funcionais, são políticos e eleitores, são pais dos seus alunos atuais. O que foi feito deles, com eles e para eles nos idos tempos de colégio 30 anos antes? 30 anos atrás não tínhamos internet, nem celulares, nem TV a cabo, NetFlix e TEDs. Há 30 anos éramos idiotas?

Talvez fôssemos, mas na verdade é mais provável que tenhamos sido apenas humanos incapazes de prever o futuro. Como, aliás, continuamos a ser hoje em dia.

Porém, não nos perguntávamos, com a frequência e desespero como fazemos hoje, como deveríamos educar nossas crianças para o futuro. Apenas educávamos para lhes ensinar valores, conceitos e técnicas que acreditávamos serem necessárias para qualquer um, em qualquer situação presente ou futura.

Nós sabíamos nada sobre o futuro e nem éramos capazes de imaginá-lo como o nosso presente atual. Mas isso não nos era problema. Não tínhamos a pretensão da futurologia.

E hoje? Hoje nos perguntamos como devemos educar as crianças para um futuro que temos certeza de não sermos capazes de imaginar (talvez isso seja uma evolução, mas será que é?). E, no entanto, além da certeza sobre o futuro também perdemos outras certezas. Muitas.

Tudo, absolutamente tudo, o que você colocou no seu texto eu me atreveria a resumir assim: não temos mais certeza sobre que conteúdos, habilidades, competências, valores e práticas devemos ensinar. Não temos certeza sobre modelos de escola, currículos, competências ou valores.

Talvez nossa incerteza e nosso “medo de errar” venha da constatação de que nesses 30 anos quase nada deu certo na Educação e na sociedade. Vivemos há décadas numa montanha russa à espera de uma subida.

Talvez seja apenas um modismo desse início de século crer que estejamos realmente perdidos. Ou será que nos convenceram de que somos mesmo incapazes de encontrar rumos? Ou pior, será que acreditamos mesmo que estamos sem rumo?

Nas últimas duas décadas tenho refletido sobre tudo isso. Tenho feito muitos experimentos, muitas observações. E a cada dia tenho mais certeza de que o que perdemos de fato foram apenas as nossas certezas. Vivemos as décadas da desilusão. Do crer que já não vale a pena acreditar. Há quem veja isso como ganho.

Às vezes para seguir adiante é preciso dar alguns passos para trás. Principalmente se você estiver à beira de algum abismo. Talvez estejamos mesmo precisando voltar um pouco no tempo, para aquela época em que acreditávamos em algo e fazíamos o que tinha que ser feito. Essa vida de incertezas contemplativas, de aventuras sem convicção, de discursos vazios sob holofotes e claques, isso não está prestando não.

Terminando, então: não tenho respostas. Só tenho minhas certezas. Não tenho medo de errar. Tenho medo de passar a vida não fazendo nada na esperança de um dia descobrir o “certo”. Educo meus alunos para serem pessoas melhores. Simples assim. E o que é mais curioso: isso independe do modelo de escola, independe do currículo oficial, independe dos recursos tecnológicos e até mesmo do que chamam por aí de “inovações”. É incrível o que se pode fazer com apenas umas poucas convicções.
Grande abraço!

P.S.: Espero ter confundido muita gente. Essa é uma das minhas convicções: sem confusão não há reordenamento.”

Que tal? O que tem a me dizer sobre isso? Leia também os outros comentários na postagem original que estão igualmente fantásticos.

Um grande abraço

Robson Freire

Estamos no caminho certo de como construir o estudante do século 21?

Olá amigos

Há dias eu venho divagando e digerindo um montão de coisas. Filmes que eu assisto e que me fazem pensar ( Spare Parts, A Rainha de Katwe,  Moonlight, A Chegada e Estrelas Além do Tempo) , textos ( 1 2 3 4 5 ) e livros (1) que leio e até andar sem rumo nas redes sociais tá nesse rolo ( 1 2 3 ). Essa inquietação culminou com a aprovação da reforma do ensino médio. Mas a questão que sempre volta a me incomodar é o papel da educação e da formação do estudante diante disso tudo.

A minha cabeça fervilha de perguntas….. 

Os estudantes brasileiros estão sendo preparados para o futuro? A escola está preparada para receber esse aluno? Os currículos são adequados para as necessidades do século 21? O professor está pronto pra ensinar esse aluno? As metodologias e práticas pedagógicas atuais e seus modismos (PBL, Aprendizagem Centrada no Aluno, Cultura Maker, Mobile Learning, REA,  Mooc, EaD, etc..) darão o suporte necessário ao professor para ensinar esses alunos? Qual o papel da tecnologia nessa formação?

Mas a principal pergunta é: Para que futuro esse aluno deve estar preparado?

Numa passadinha rápida pelo YouTube na página do TED Talks vocês irão ver uma quantidade imensa de palestras sobre como “mudar a educação“. Eu fico sinceramente desconfiado de que ou eu sou muito burro ou os caras tem a receita de como fazer a pedra filosofal. Só pode. Tem muitas palestras de como fazer o aluno moderno, como transformar a escola em centros de excelência (quero ver fazer isso na África sem recurso nenhum), de como fazer o professor mudar de vinho nacional pra um Château Lafite Rothschild em um piscar de olhos. Essa palestras, quando muito, servem para dar um direcionamento ou dicas de como agir pontualmente em determinadas situações ou contextos educacionais. Mas não serve pra todo mundo nem para tudo.

O historiador inglês Eric Hobsbawm disse que “a tarefa de educar as pessoas nesse século talvez não seja tão ruim quanto ao século anterior, que já tinha visto duas grandes guerras“. Ele também coloca que A experiência humana perdeu espaço no fim do século 20 para as técnicas de administração do mundo.”. Aí começam as perguntas necessárias: Como preparar crianças e jovens para enfrentar, e quem sabe melhorar, uma sociedade desigual e polarizada, com ricos cada vez mais ricos e com uma competitividade crescente a custa de uma desigualdade sem igual de muitos? O que fazer para que a geração que hoje vai para as escolas aprenda a proteger o planeta e a respeitar o próximo? Qual a melhor maneira de mostrar a esses jovens, habituados a relações virtuais, o quão valioso é o contato físico, o olho no olho?

Os desafios nunca foram tão grandes, e o papel da escola nesse processo de formação e superação é crucial.

O educador Moacir Gadotti diz que Não basta apenas entregar um conjunto de informações: é preciso preparar para pensar”. Mas pensar como? Voltado para que “norte”? O tecnológico? O da inovação? O do fazer? O da criatividade ou da sustentabilidade? A tão propalada ideia do pensar fora da caixa (o que seja lá essa maldita caixa)? Ou tudo isso junto e misturado?

Outra vez Moacir Gadotti volta a dizer que “A grande mudança pode ser sintetizada no conceito de Educação para toda a vida”. Isto é, a aquisição de conhecimentos não se limita à escola: ela nunca pára de acontecer. Esse debate vem desde lá os anos 90, quando a Unesco encomendou ao político francês Jacques Delors um relatório sobre a educação para o novo século. No texto, concluído em 1996, Delors indica quatro pilares que devem moldar o aprendizado no nosso tempo: aprender a aprender, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser.

Aí venho eu com mais perguntas: Aprender a aprender o que? Pra quem? Como? Aprender a fazer o que? Pra quem? Como? Aprender a conviver com quem? Em relações igualitárias de gênero, raça, etnia, credo, no mercado de trabalho ou apenas socialmente? Ou somente virtualmente? Aprender a ser quem? Mas qual EU? O EU verdadeiro que dorme comigo todas as noites ou o Eu que esperam que eu seja profissionalmente e socialmente?

Estamos meio que vivendo como em um episodio de Black Mirror (Perdedores 3×01 Nosedive) da Netfilx, onde a vida das pessoas é guiada pela avaliação que as pessoas fazem nas redes sociais. Vivemos regidos pelos “likes & views” e compartilhamentos que nossos personagens (ou avatares) recebem nas redes sociais. Mas mesmo que não sejamos (bem lá no fundo) aquilo que demonstramos quando ninguém está olhando (o episodio mostra isso muito bem no final), a impressão que fica é que hoje somos quase como uma Sociedade do Espetáculo como bem descreve Guy Debord em seu livro. A máscara que criamos para que os outros não vejam as rachaduras do nosso caráter, o nosso preconceito mais puro e cruel, a necessidade de fazer parte e o oportunismo social. Definitivamente não estamos distantes dessa merda toda e Black Mirror está apenas desenhando as possibilidades.

Mas é a educação como pode ajudar a mudar isso?

No Brasil, com um sistema de ensino dito cambaleante, fraco, ineficiente (do ponto de vista das avaliações internacionais), escolas desprovidas de recursos e professores despreparados ou desmotivados (será mesmo que são e estão?), a proposta de Delors acaba soando como utopia. Mas, esses os quatro pilares vêm sendo colocados em prática por instituições públicas e privadas (muito mais nas escolas privadas) como tentativa de reverter e inovar o ensino.

Então como é isso na prática?

No Aprender a aprender o gostar de aprender é o que mais se espera do estudante do século 21. E esse “gostar” não depende apenas do aluno, mas das estratégias adotadas pela escola. Aprender não é uma coisa arrumadinha, pronta e acabada (não existe fórmula mágica e nem receita de bolo perfeita) é sim um processo pessoal complexo que nem sempre se adapta à estrutura tradicional da escola. Para contemplar a forma de aprender de cada um, as vezes é preciso fazer uma revolução completa em tudo, mas as vezes apenas uma ação pontual é capaz de causar uma revolução.

A escola do século 21 exige autonomia do aluno, mas ela também deve ensiná-lo a pedir ajuda, acolhendo seus possíveis erros. Eu sempre falo com os meus pares que lugar para cometer erros é na escola, onde as conseqüências não são drásticas. Na escola o estudante pode tentar, errar, tentar de novo, acertar. A solução oferecida como prato feito ou como receita perfeita não ensina o aluno a pensar.

No Aprender a fazer o que se espera do profissional do novo milênio? Além de saberes específicos de sua área, conhecimento de informática e de línguas estrangeiras, assim como iniciativa e capacidade de trabalhar em equipe, são exigências do mercado de trabalho que busca mão-de-obra qualificada. Mas a nossa escola ensina assim? Esses conceitos são trabalhados na escola pensando tão a longo prazo? A tão falada Cultura Maker seria a solução? Mas esse conceito não é facilmente aplicável nas disciplinas tipo filosofia, sociologia, história, então como faremos o Maker nessas disciplinas?

O uso de informática, por sua vez, já é realidade em muitas escolas, que são equipadas com laboratórios e dispõem de mídias variadas até mesmo em sala de aula. Os computadores, claro, são dotados de filtros, programas que impedem o acesso a alguns endereços eletrônicos. O tradicional quadro-negro cedeu lugar às lousas digitais, nas quais o professor projeta a tela do computador que usa na sala de aula. A criança que faltou à aula pode acessar todo o conteúdo perdido no site do colégio.

Tudo isso é muito legal, mas a grande questão é como fazer o melhor uso possível da informática. Muitos alunos lidam facilmente com as novas tecnologias, mas de uma maneira muito superficial. Usam bem o que lhes interessa como as redes sociais e smartphones, mas não sabem nenhuma linguagem de programação que faria uma grande diferença entre usar e criar. Muitas das vezes não sabem nem o básico que é fazer uma pesquisa na web. Como se ensina a separar o joio do trigo? Trabalhando o senso crítico do aluno e ensinando onde pode averiguar se o que leu na internet é verdadeiro ou não. Sabendo isso não se fica soterrado sob uma avalanche de informação inútil e muitas das vezes falsas/erradas. Quem não souber selecionar corre o risco de ficar para trás. Mas cabe à escola preparar o aluno para que esse processo seja estimulante e determinante.

Outra questão importante e como incentivar o tão desejado espírito de equipe e de colaboração, sem que isso afete a possibilidade de liderança? Há varias propostas democráticas no ambiente escolar que caminham nessa direção. Eu vi na Escola da Ponte em Portugal como funciona as assembleias semanais de alunos, professores e funcionários que tratam de assuntos relevantes para a comunidade escolar. Todos podem opinar e os assuntos, do mais básico até os mais complexos e de difícil solução, são votados e decididos por eles.

Experiências como essa ainda são bem raras por aqui, mas começam a ganhar espaço. É uma questão primordial no mundo moderno hoje é Saber escolher. Quando escolhe o que é melhor para a escola, o aluno enfrenta um problema real do cotidiano e busca soluções e saber escolher é uma competência fundamental para o jovem do século 21. Ele já se experimenta como cidadão e como isso se refletira no futuro dele como profissional dentro da escola.

No Aprender a conviver tem gente que pensa como o filósofo e educador Alípio Casali, que diz que a geração que se prepara para o século 21 enfrenta uma grave crise de socialização. Famílias dispersas, pais ausentes e o distanciamento de instituições tradicionais, deixam as crianças meio perdidas, sem referências. E de que os vínculos vêm enfraquecendo aceleradamente, o que está produzindo indivíduos com dificuldades para os relacionamentos sociais, mesmo diante da imensa interação que se desenrola hoje em dia nas redes sociais. Para ele a escola do futuro não pode deixar de lado seu papel de socializar adequadamente, ensinando a cada criança o jogo tenso entre direitos, deveres, ordem e liberdade. Para ele “O convívio é uma experiência estruturante. O conhecimento também se dá por transmissão.”

Esta aprendizagem, sem dúvida, representa um dos maiores desafios da atualidade. O mundo atual está repleto de violência, em oposição à esperança que alguns têm no progresso da humanidade. A educação deve utilizar duas vias complementares. Primeiramente a descoberta progressiva do outro. Num segundo nível, e ao longo de toda a vida, a participação em projetos comuns, tendo este método o intuito de evitar ou resolver os conflitos latentes.

Muitas escolas preocupadas com esse esgarçamento de vínculos, incentivam o trabalho em grupo. No trabalho em grupo a criança, as vezes, é obrigada a trabalhar mesmo com quem não tem afinidades dentro das regras da boa convivência. Assim, aprende como o outro pensa e aprende a respeitar os limites de cada um e superar as vezes situações que não tem nenhuma ação concreta. Pois além de estabelecer laços, outro desafio para o estudante do século 21 é a boa relação com a heterogeneidade. Conviver com a diversidade é uma expressão da inteligência humana.

Mais do que uma exigência do mercado de trabalho, que valoriza as diferenças, respeitar o outro é uma questão de sobrevivência da espécie no planeta. É preciso aceitar a diversidade não apenas com respeito, mas também valorizando a diversidade e as diferenças ideológicas como riqueza.

No Aprender a ser vem sempre aquela fatídica pergunta: Quem você quer ser quando crescer?. “Um cidadão do mundo, preocupado com as questões sociais e ecológicas” talvez fosse esta a resposta da maioria dos estudantes de hoje, que faria com que poderíamos sonhar com um mundo melhor para as próximas décadas. Mas no contexto atual, não basta fazer. Os ideais têm de estar incorporados. É uma questão de ser. Fazer desse aluno um ser justo, correto e de caráter forte é uma tarefa para a família e para a escola na transmissão de valores importantes para a vida adulta. A parte mais importante desse ser é a construção dessa identidade do aluno. Situa-lo no seu contexto social, cultural e intelectual. Delors coloca assim:

A educação deve contribuir para o desenvolvimento total da pessoa – espirito, corpo, inteligência, sensibilidade, sentido estético, responsabilidade pessoal e espiritualidade. Todo o ser humano deve receber uma educação que lhe dê ferramentas para o despertar do pensamento crítico e autônomo, assim como para formular seus juízos de valor e ser autônomo intelectualmente.

Mais do que nunca a educação parece ter como papel essencial, conferir a todos os seres humanos a liberdade de pensamento, o discernimento, os sentimentos e a imaginação de que necessitam para desenvolver os seus talentos e permanecerem, tanto quanto possível, donos de seus próprios destinos (pg 81).

Despertar na criança a noção de que o planeta está em perigo e prepará-la para defender a Terra é uma das principais missões da escola no século 21 a outra missão tão importante, ou talvez mais importante, é em relação as desigualdades sociais que afligem a humanidade. Lutar por um mundo mais justo socialmente, inclusivo, tolerante e que respeite a diversidade.

O segredo para criar cidadãos conscientes é fazer com que essa preocupação não fique apenas na teoria mas que ocupe espaço na vida escolar das crianças. Os muros da escola são realmente estreitos demais para o ensino contemporâneo. O conhecimento que se adquire com a prática é mais significativo. E se já não bastasse essas coisas todas, eis que vem uma reforma do ensino médio imposta de cima pra baixo, desrespeitando toda a discussão que vem sendo feita para a reforma do ensino médio desde 2006.

E o Brasil o que fez pra mudar?

O Plenário do Senado aprovou nesta quarta-feira (8) a chamada Medida Provisória do Novo Ensino Médio, com segmentação de disciplinas segundo áreas do conhecimento e implementação do ensino integral. Foram 43 votos favoráveis e 13 votos contrários ao Projeto de Lei de Conversão (PLV) 34/2016,  proposta originada após alterações promovidas na MPV 746/2016 pela comissão mista e pela Câmara dos Deputados.

Não há duvida que o ensino médio precisava de uma sacudida, de mudanças estruturais mesmo, mas o que foi proposto e o que foi aprovado distanciam o que se propunha enquanto discussão coletiva de uma imposição política de um governo ilegítimo de uma politica educacional dos anos 90. Bem algumas coisas positivas podem ser tiradas dessa mudança? Talvez. A reforma flexibiliza o conteúdo que será ensinado aos alunos, muda a distribuição do conteúdo das 13 disciplinas tradicionais ao longo dos três anos do ciclo, dá novo peso ao ensino técnico e incentiva a ampliação de escolas de tempo integral. Mas isso é suficiente? Não.

O currículo do ensino médio será definido pela Base Nacional Comum Curricular – BNCC (que deverá dar um passo significativo, se pra melhor ou pior ninguém ainda sabe), atualmente em elaboração. Mas talvez aqui o que está sendo vendido como “moderno” não tenha o efeito desejado: a adoção dos eixos curriculares. Pois a nova lei já determina como a carga horária do ensino médio será dividida. Tudo o que será lecionado vai estar dentro de uma das seguintes áreas, que são chamadas de “itinerários formativos”

  1. linguagens e suas tecnologias
  2. matemática e suas tecnologias
  3. ciências da natureza e suas tecnologias
  4. ciências humanas e sociais aplicadas
  5. formação técnica e profissional

As escolas, pela reforma, não são obrigadas a oferecer aos alunos todas as cinco áreas, mas deverão oferecer ao menos um dos itinerários formativos. E aqui o grande ponto de ruptura. Vamos lá pela lei, eu não sou obrigado a oferecer os cinco itinerários formativos, apenas um. Beleza. Qual gestor público vai adotar mais de um  itinerário, se a adoção deles implica em investimento  em estrutura e em professor? Como pode disciplinas como História e Geografia não serem obrigatórias como é Matemática e Português? Fora o engodo de que Filosofia, Sociologia, Educação Física e Artes terem se tornados obrigatórias. Elas são apenas obrigatórias na Base Nacional Comum Curricular – BNCC. Não nos eixos formativos. Uma emenda definiu que as matérias devem ter “estudos e práticas” incluídos como obrigatórios na BNCC.

A língua inglesa passará a ser a disciplina obrigatória no ensino de língua estrangeira, a partir do sexto ano do ensino fundamental. Isso quer dizer que Congresso manteve a proposta do governo federal. Antes da reforma, as escolas podiam escolher se a língua estrangeira ensinada aos alunos seria o inglês ou o espanhol, que dentro de uma politica de integração adotada pelo Mercosul, o ensino do espanhol (que é a língua mais falada no mundo em numero de países que adotam o espanhol como língua oficial).

Imaginar que agora, se a escola só oferece uma língua estrangeira, essa língua deve ser obrigatoriamente o inglês, e se ela oferece mais de uma língua estrangeira, a segunda língua, preferencialmente, deve ser o espanhol, mas isso não é obrigatório. Precisamos contextualizar, mais uma vez, a importância do ensino do espanhol como língua obrigatória, pois no mundo moderno atual as políticas comerciais e diplomáticas que norteiam as relações dos países e do Brasil (MERCOSUL e BRICS) o ensino do idioma espanhol não é apenas necessário, é estratégicos em todos os pontos de vista possíveis.

Outro objetivo da reforma é incentivar o aumento da carga horária para cumprir a meta 6 do Plano Nacional de Educação (PNE), que prevê que, até 2024, 50% das escolas e 25% das matrículas na educação básica (incluindo os ensinos infantil, fundamental e médio) estejam no ensino de tempo integral.

No ensino médio, a carga deve agora ser ampliada progressivamente até atingir 1,4 mil horas anuais. Atualmente, o total é de 800 horas por ano, de acordo com o MEC. No texto final, os senadores incluíram uma meta intermediária: no prazo máximo de 5 anos, todas as escolas de ensino médio do Brasil devem ter carga horária anual de pelo menos mil horas. Não há previsão de sanções para gestores que não cumprirem a meta. (lógico pois ninguém é louco de cobrar uma coisa que eles sabem não vão cumprir, pois depende de um investimento pesado em estrutura com um PEC que congela investimentos em todas as áreas).

Outro alvo de críticas foi a permissão para que professores sem diploma específico ministrem aulas. O texto aprovado no Congresso manteve a autorização para que profissionais com “notório saber”, reconhecidos pelo sistema de ensino, possam dar aulas exclusivamente para cursos de formação técnica e profissional, desde que os cursos estejam ligados às áreas de atuação deles.

Também ficou definido pelos deputados e senadores que profissionais graduados sem licenciatura poderão fazer uma complementação pedagógica para que estejam qualificados a ministrar aulas. O perigo é essa brecha ser usada para todo ensino médio e não apenas o profissional e técnico.

Bem ainda vamos precisar de tempo para digerir isso tudo, mas o principal é chamar os professores para fazerem uma reflexão mais ampla e crítica (em todos os sentidos) sobre os rumos do que fazemos, de como fazemos e principalmente de como queremos fazer. O mundo está mudando rapidamente, e os alunos também. E nos professores estaremos aonde nisso?

Convido aos amigos educadores a fazerem comigo essa reflexão. Seja aqui nos comentários ou em seus próprios espaços. Para isso deixo essa reflexão para todos que quiserem debater:

“Em toda a história da escolarização, nunca se exigiu tanto da escola e dos professores quanto nos últimos anos. Essa pressão é decorrente, em primeiro lugar, do desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação e, em segundo lugar, das rápidas transformações do processo de trabalho e de produção da cultura. A educação e o trabalho docente passaram então a ser considerados peças-chave na formação do novo profissional do mundo informatizado e globalizado.” (FREITAS, 2005).

A pergunta final que deixo para vocês é essa:

Robson Freire

Esqueça o “fora da caixa”, mas tente sair da zona de conforto

É perfeitamente possível encontrarmos experiências bastante disruptivas dentro de um sistema escolar cuja estrutura e forma de organização não são mais compatíveis com a atual sociedade digital.

Por Priscila Gonsales

Primeiro precisamos defini-la: a “caixa”, cada vez mais citada para simbolizar uma sensação de enclausuramento relacionada a estruturas ou situações tradicionais rígidas ou pouco flexíveis. Você deve ouvir a todo tempo que precisa sair e pensar fora da caixa para fazer algo que realmente seja considerado bacana, diferente, arrojado… ou seja, tudo de ruim costuma estar associado à “caixa” e você deve ir contra isso — é o que nos diz o manual do planeta inovação ,  aquele em que todos querem chegar desesperadamente, mas cujo mapa ninguém tem de fato.

Não há um mapa porque o caminho não é preciso, assim como viver também não é (viva Fernando Pessoa!). Mas… e quando a “caixa” é o nosso próprio ambiente de trabalho? A gestão da instituição em que atuamos? Nossa dinâmica familiar? Um sistema de ensino estruturado? Quando a “caixa” representa algo complexo demais, talvez o melhor caminho não seja negá-lo ou ignorá-lo, nem mesmo esforçar-se para eliminá-lo. Será que apenas pensar em agir fora da caixa não geraria uma atitude pouco empática de nossa parte em relação às pessoas ao redor dessas “caixas” todas?

REPRODUCAO S3 BALLON4 11/10/01 BALLON/ESPECIAL DOMINGO ED/CADERNO2 OE – ILUSTRACAO DO LIVRO MAN FLIES – THE STORY OF ALBERTO SANTOS-DUMONT MASTER OF THE BALLON – SANTOS DUMONT. REPRODUCAO DE IMPRESSO.

Visitei a exposição de Santos Dumont no recém-inaugurado Museu do Amanhã, no Rio, e saí de lá com a frase de Guimarães Rosa na cabeça: “Mestre não é quem ensina mas quem de repente aprende”. Não fazia ideia que o notório pai da aviação tinha aprendido tanto com os próprios erros. Ele sofreu vários acidentes com seus protótipos de aviões que não funcionaram e nem por isso se cansou de por a mão na massa e seguir aprimorando até que o sucesso viesse depois de dez anos de tentativas fracassadas. Além de inovador, Santos Dumont é considerado também o “patrono dos makers”, como escreveu Ronaldo Lemos, especialmente por ter sempre compartilhado seus estudos e projetos, para que pudessem ser reutilizados ou servir de inspiração a outros estudiosos.

É interessante notar que Santos Dumont não precisou sair fora da caixa em sua empreitada de cientista e inventor. De família abastada dona de fazenda de café, desde criança era fascinado pelo funcionamento dos maquinários agrícolas e também pelos livros de ficção científica de Júlio Verne. Seu pai um dia lhe disse que a única coisa com a qual ele precisaria se preocupar era com os estudos em Paris, pois por toda a vida teria tranquilidade financeira garantida. A “caixa” do inventor estava posta e ele não se viu obrigado a abandoná-la para poder “inventar” o avião. Ao contrário, preferiu conviver com a mesma.

O que ele precisou fazer mesmo foi sair da zona de conforto. Conforto de um futuro próspero de riqueza que pouco exigiria de seu esforço de trabalho. Conforto de ter errado tantas vezes, ótima justificativa para a desmotivação. E conforto de alguns fatores negativos que poderiam levá-lo à estagnação, já que nenhum favorecia suas atividades:

Falta de incentivo: ele não estava recebendo um financiamento (patrocínio, bolsa etc.) de terceiros para se aventurar nas pesquisas sobre aviação;

Falta de conhecimento total sobre o tema: ele sabia que muitos outros cientistas, de variadas nacionalidades, antes dele, já tinham se aventurado na área, por isso preferiu estudá-los e não construir do zero;

Falta de um mestre para seguir: ele criou seu próprio estilo, seu jeito de ser e agir, e até de se vestir, não igual, mas diferente;

Falta de haver um momento propício (ou certo): ele não esperou que uma determinada data ou ocasião chegasse para iniciar seus inventos;

Além da retaguarda financeira para investir em suas invenções e equipes de trabalho, Santos Dumont teve outras “caixas” em seu caminho, que foram também estrategicamente aproveitadas, como os compromissos oficiais com membros do governo e da elite francesa. Foi durante um desses que ganhou de presente da Condessa D’Eu uma pulseira com uma medalhinha, e teve o insight de criar o relógio de pulso.

Agir, pensar ou estar fora da caixa também passou a ser sinônimo de “lado certo” quando o assunto é educação, uma espécie de comportamento ideal para quem atua na área. No entanto, precisamos ter cautela, pois nem tudo o que está vigente é necessariamente ruim ou precisa ser totalmente eliminado. Sabe aquela expressão popular “não jogue o bebê junto com a água do banho”? É isso. Para mudar é preciso ouvir e dialogar com o que existe e não simplesmente impor um “novo modelo ideal”.

Além do mais, é perfeitamente possível encontrarmos experiências bastante disruptivas dentro de um sistema escolar cuja estrutura e forma de organização não são mais compatíveis com a atual sociedade digital. Experiências assim só acontecem porque pessoas decidiram sair de suas zonas de conforto e tentar algo além do seu próprio padrão. Citei alguns exemplos nesse outro artigo.

E você? Sabe identificar qual é a “caixa” que dificulta sua busca por soluções mais inovadoras? E conseguiria delimitar sua “zona de conforto”? Isto é, o que é externo a você e o que depende de você? No #ConexãoIED, uma mentoria online coletiva, trabalhamos a educação para o desenvolvimento humano, a partir de desafios de design sugeridos semanalmente. Que tal experimentar criar seu próprio desafio? Veja um exercício bem simples:

  1. Reserve um tempo tranquilo do seu dia para você mesmo;
  2. Use uma cartolina se quiser criar um painel grande ou uma folha sulfite se preferir;
  3. Divida em quatro partes, como na figura abaixo, e preencha cada uma conforme a orientação:

Priscila Gonsales é máster em Educação, Família e TIC pela Universidade Pontifícia de Salamanca (ES), pós-graduada em Gestão de Processos Comunicacionais pela USP, cofundadora do Instituto Educadigital, que desenvolve projetos de integração da cultura digital na educação. @Prigon

Fonte: http://www.arede.inf.br/esqueca-o-fora-da-caixa-mas-tente-sair-da-sua-zona-de-conforto/

Aprender com diálogo e diversão

Ferramenta estimula a criação de cenários nos quais a criança se envolva e participe, aprendendo à medida que vence os desafios propostos

Muito além de um site de games, Plinks é uma plataforma digital em que educadores e educandos exercem a aprendizagem por meio de atividades lúdicas e colaborativas. Desenvolvida pela Joy Street, veterana startup de Recife (PE), a ferramenta tem foco nas competências e conteúdos de Português e Matemática do ensino fundamental I (do 2º ao 5º ano). A proposta é propiciar a criação de cenários nos quais a criança se envolva e participe, aprendendo à medida que vence os desafios propostos. “São jogos digitais e enigmas articulados em uma narrativa, como nas plataformas lúdicas não educacionais com as quais as crianças já se engajam no seu cotidiano.

O conteúdo não é seriado (divido por séries), trabalhando as competências de forma evolutiva e aberta”, explica Marcelo Clemente, gerente de produto da Joy Street. Do ponto de vista pedagógico, a plataforma espelha as atividades encontradas nos livros didáticos impressos, mas apresentadas em formatos que incentivam o máximo de engajamento e de interesse dos alunos. O educador tem a possibilidade de construir um mundo virtual e levar os alunos e seus avatares a percorrer um caminho em busca de conhecimentos. Recursos de diagnósticos de desempenho ajudam a identificar e corrigir as dificuldades das crianças.

Elisabeth Santos, professora da Escola Municipal Emídio Dantas Barreto, no bairro de Santo Amaro, em Recife, utilizou o Plinks em abril de 2016. Primeiro, trabalhou nas disciplinas de Português (acentuação) e Matemática (operações, formas geométricas e problemas) no modelo tradicional. Depois, apresentou às turmas a ferramenta digital. “Era uma turma de 4º ano, alunos de nove a 12 anos, com problemas de alfabetização. Eles melhoraram bastante, pois trata-se de uma forma mais divertida de aprendizagem. Agora eles criaram o hábito de entrar na plataforma em casa”, diz a educadora.


O educador tem a possibilidade de construir um mundo virtual e levar os alunos e seus avatares a percorrer um caminho em busca de conhecimentos

No início, Jenifer Yasmim, aluna do 4º ano, achou que não ia conseguir. Mas depois viu que era possível superar os problemas e até ficava mais fácil aprender. Cleberson Luan de Andrade Gomes, de dez anos, já é bom aluno e tem facilidade de aprender. Para ele, a vantagem é que, a cada tarefa, precisa dar uma resposta, o que vai estimulando a aprendizagem: “Alguns acharam difícil no começo, pois na sala de aula, quando você não sabe, o professor explica. No Plinks tem as perguntas e você tem de saber a resposta para continuar jogando”.

Adriana Carvalho, gerente de negócios da Joy Street, explica que a startup resultou de um consórcio de empresas criado em 2008 para elaborar uma plataforma de ensino de acordo com uma demanda do governo de Pernambuco. A ferramenta acabou sendo adotada também no Rio de Janeiro. Com a criação da Joy Street, em 2011, a empresa iniciou o desenvolvimento do Plinks, com financiamento do Instituto Natura, da Fundação Telefônica e do Instituto Ayrton Senna.

O projeto começou a ser concebido em 2012. No final de 2014 e início de 2015, a plataforma passou por um período de homologação, sendo testada em mais de 50 escolas de diversos municípios do país. No final de 2015, entrou em operação no formato final. Hoje é adotada em escolas municipais de Aracaju (SE – 35 unidades de ensino) e de Recife (PE – 50 unidades). Atualmente, a Joy Street também negocia contratos com prefeituras do Amazonas, do Espírito Santo e do Pará. Em Recife, o desempenho do projeto nas 14 turmas que usam o Plinks será avaliado pela Move Social, empresa especializada em avaliação de projetos do terceiro setor. Os resultados serão divulgados no final de 2016.

O conteúdo não é seriado, trabalhando as competências de forma evolutiva e aberta. Recursos de diagnósticos ajudam a corrigir as dificuldades das crianças

A prefeitura de Aracaju e a prefeitura do Recife apoiam o projeto institucionalmente, colocando à disposição suas equipes de tecnologia na educação, que atuam junto aos profissionais da Joy Street. O Instituto Natura e a Fundação Telefônica também contribuem para realizar o monitoramento periódico das atividades. O Plinks foi pensado para ser um recurso educacional aberto, com baixo custo de manutenção e de fácil acesso. Diante da realidade brasileira de acesso à internet, em especial na áreas rurais, foi projetado para exigir o mínimo de configuração das máquinas e de conexão nas escolas.


A plataforma é hospedada na nuvem, em ambiente mantido e monitorado pela Joy Street, podendo ser acessada de qualquer lugar onde haja um link de no mínimo 1Mbps. Roda em qualquer navegador de internet. Está em curso uma versão para dispositivos móveis, que deverá ser lançada no início de 2017.

Para garantir a sustentabilidade do projeto, a Joy Street desenhou um novo modelo de negócios, em que há remuneração pela capacitação dos professores, pela implementação e pela geração de relatórios. Um instrutor da empresa pode apoiar um modelo personalizado por turma. Em Recife, cinco escolas já trabalham com esse instrutor, que participa do planejamento. “Somos remunerados por turma contratada, que tem direito a 15 encontros semestrais e relatórios de análise mensal. Cada turma tem uma aula por semana na grade curricular”, conclui Adriana.

Fonte: http://www.arede.inf.br/aprender-com-dialogo-e-diversao/

Mudando (ou será melhor Quebrando) os Paradigmas na Educação

Animação adaptada de uma palestra dada na RSA por Sir Ken Robinson, especialista em educação e criatividade mundialmente reconhecido. Dublagem em português: AQUI no Blog Brasil Acadêmico. http://www.tsu.co/bracad

Como visto no post: http://blog.brasilacademico.com/2011/09/mudando-paradigmas-na-educacao.html

Dica importante: Se você não domina o idioma da terra do William Shakespeare, clique no icone de adicionar Legendas e depois clique no icone Configurações e marque Traduzir Automaticamente e depois escolha o idioma Português. Não fica 100% mais ajuda bastante a quem não domina o idioma