Estamos no caminho certo de como construir o estudante do século 21?

Olá amigos

Há dias eu venho divagando e digerindo um montão de coisas. Filmes que eu assisto e que me fazem pensar ( Spare Parts, A Rainha de Katwe,  Moonlight, A Chegada e Estrelas Além do Tempo) , textos ( 1 2 3 4 5 ) e livros (1) que leio e até andar sem rumo nas redes sociais tá nesse rolo ( 1 2 3 ). Essa inquietação culminou com a aprovação da reforma do ensino médio. Mas a questão que sempre volta a me incomodar é o papel da educação e da formação do estudante diante disso tudo.

A minha cabeça fervilha de perguntas….. 

Os estudantes brasileiros estão sendo preparados para o futuro? A escola está preparada para receber esse aluno? Os currículos são adequados para as necessidades do século 21? O professor está pronto pra ensinar esse aluno? As metodologias e práticas pedagógicas atuais e seus modismos (PBL, Aprendizagem Centrada no Aluno, Cultura Maker, Mobile Learning, REA,  Mooc, EaD, etc..) darão o suporte necessário ao professor para ensinar esses alunos? Qual o papel da tecnologia nessa formação?

Mas a principal pergunta é: Para que futuro esse aluno deve estar preparado?

Numa passadinha rápida pelo YouTube na página do TED Talks vocês irão ver uma quantidade imensa de palestras sobre como “mudar a educação“. Eu fico sinceramente desconfiado de que ou eu sou muito burro ou os caras tem a receita de como fazer a pedra filosofal. Só pode. Tem muitas palestras de como fazer o aluno moderno, como transformar a escola em centros de excelência (quero ver fazer isso na África sem recurso nenhum), de como fazer o professor mudar de vinho nacional pra um Château Lafite Rothschild em um piscar de olhos. Essa palestras, quando muito, servem para dar um direcionamento ou dicas de como agir pontualmente em determinadas situações ou contextos educacionais. Mas não serve pra todo mundo nem para tudo.

O historiador inglês Eric Hobsbawm disse que “a tarefa de educar as pessoas nesse século talvez não seja tão ruim quanto ao século anterior, que já tinha visto duas grandes guerras“. Ele também coloca que A experiência humana perdeu espaço no fim do século 20 para as técnicas de administração do mundo.”. Aí começam as perguntas necessárias: Como preparar crianças e jovens para enfrentar, e quem sabe melhorar, uma sociedade desigual e polarizada, com ricos cada vez mais ricos e com uma competitividade crescente a custa de uma desigualdade sem igual de muitos? O que fazer para que a geração que hoje vai para as escolas aprenda a proteger o planeta e a respeitar o próximo? Qual a melhor maneira de mostrar a esses jovens, habituados a relações virtuais, o quão valioso é o contato físico, o olho no olho?

Os desafios nunca foram tão grandes, e o papel da escola nesse processo de formação e superação é crucial.

O educador Moacir Gadotti diz que Não basta apenas entregar um conjunto de informações: é preciso preparar para pensar”. Mas pensar como? Voltado para que “norte”? O tecnológico? O da inovação? O do fazer? O da criatividade ou da sustentabilidade? A tão propalada ideia do pensar fora da caixa (o que seja lá essa maldita caixa)? Ou tudo isso junto e misturado?

Outra vez Moacir Gadotti volta a dizer que “A grande mudança pode ser sintetizada no conceito de Educação para toda a vida”. Isto é, a aquisição de conhecimentos não se limita à escola: ela nunca pára de acontecer. Esse debate vem desde lá os anos 90, quando a Unesco encomendou ao político francês Jacques Delors um relatório sobre a educação para o novo século. No texto, concluído em 1996, Delors indica quatro pilares que devem moldar o aprendizado no nosso tempo: aprender a aprender, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser.

Aí venho eu com mais perguntas: Aprender a aprender o que? Pra quem? Como? Aprender a fazer o que? Pra quem? Como? Aprender a conviver com quem? Em relações igualitárias de gênero, raça, etnia, credo, no mercado de trabalho ou apenas socialmente? Ou somente virtualmente? Aprender a ser quem? Mas qual EU? O EU verdadeiro que dorme comigo todas as noites ou o Eu que esperam que eu seja profissionalmente e socialmente?

Estamos meio que vivendo como em um episodio de Black Mirror (Perdedores 3×01 Nosedive) da Netfilx, onde a vida das pessoas é guiada pela avaliação que as pessoas fazem nas redes sociais. Vivemos regidos pelos “likes & views” e compartilhamentos que nossos personagens (ou avatares) recebem nas redes sociais. Mas mesmo que não sejamos (bem lá no fundo) aquilo que demonstramos quando ninguém está olhando (o episodio mostra isso muito bem no final), a impressão que fica é que hoje somos quase como uma Sociedade do Espetáculo como bem descreve Guy Debord em seu livro. A máscara que criamos para que os outros não vejam as rachaduras do nosso caráter, o nosso preconceito mais puro e cruel, a necessidade de fazer parte e o oportunismo social. Definitivamente não estamos distantes dessa merda toda e Black Mirror está apenas desenhando as possibilidades.

Mas é a educação como pode ajudar a mudar isso?

No Brasil, com um sistema de ensino dito cambaleante, fraco, ineficiente (do ponto de vista das avaliações internacionais), escolas desprovidas de recursos e professores despreparados ou desmotivados (será mesmo que são e estão?), a proposta de Delors acaba soando como utopia. Mas, esses os quatro pilares vêm sendo colocados em prática por instituições públicas e privadas (muito mais nas escolas privadas) como tentativa de reverter e inovar o ensino.

Então como é isso na prática?

No Aprender a aprender o gostar de aprender é o que mais se espera do estudante do século 21. E esse “gostar” não depende apenas do aluno, mas das estratégias adotadas pela escola. Aprender não é uma coisa arrumadinha, pronta e acabada (não existe fórmula mágica e nem receita de bolo perfeita) é sim um processo pessoal complexo que nem sempre se adapta à estrutura tradicional da escola. Para contemplar a forma de aprender de cada um, as vezes é preciso fazer uma revolução completa em tudo, mas as vezes apenas uma ação pontual é capaz de causar uma revolução.

A escola do século 21 exige autonomia do aluno, mas ela também deve ensiná-lo a pedir ajuda, acolhendo seus possíveis erros. Eu sempre falo com os meus pares que lugar para cometer erros é na escola, onde as conseqüências não são drásticas. Na escola o estudante pode tentar, errar, tentar de novo, acertar. A solução oferecida como prato feito ou como receita perfeita não ensina o aluno a pensar.

No Aprender a fazer o que se espera do profissional do novo milênio? Além de saberes específicos de sua área, conhecimento de informática e de línguas estrangeiras, assim como iniciativa e capacidade de trabalhar em equipe, são exigências do mercado de trabalho que busca mão-de-obra qualificada. Mas a nossa escola ensina assim? Esses conceitos são trabalhados na escola pensando tão a longo prazo? A tão falada Cultura Maker seria a solução? Mas esse conceito não é facilmente aplicável nas disciplinas tipo filosofia, sociologia, história, então como faremos o Maker nessas disciplinas?

O uso de informática, por sua vez, já é realidade em muitas escolas, que são equipadas com laboratórios e dispõem de mídias variadas até mesmo em sala de aula. Os computadores, claro, são dotados de filtros, programas que impedem o acesso a alguns endereços eletrônicos. O tradicional quadro-negro cedeu lugar às lousas digitais, nas quais o professor projeta a tela do computador que usa na sala de aula. A criança que faltou à aula pode acessar todo o conteúdo perdido no site do colégio.

Tudo isso é muito legal, mas a grande questão é como fazer o melhor uso possível da informática. Muitos alunos lidam facilmente com as novas tecnologias, mas de uma maneira muito superficial. Usam bem o que lhes interessa como as redes sociais e smartphones, mas não sabem nenhuma linguagem de programação que faria uma grande diferença entre usar e criar. Muitas das vezes não sabem nem o básico que é fazer uma pesquisa na web. Como se ensina a separar o joio do trigo? Trabalhando o senso crítico do aluno e ensinando onde pode averiguar se o que leu na internet é verdadeiro ou não. Sabendo isso não se fica soterrado sob uma avalanche de informação inútil e muitas das vezes falsas/erradas. Quem não souber selecionar corre o risco de ficar para trás. Mas cabe à escola preparar o aluno para que esse processo seja estimulante e determinante.

Outra questão importante e como incentivar o tão desejado espírito de equipe e de colaboração, sem que isso afete a possibilidade de liderança? Há varias propostas democráticas no ambiente escolar que caminham nessa direção. Eu vi na Escola da Ponte em Portugal como funciona as assembleias semanais de alunos, professores e funcionários que tratam de assuntos relevantes para a comunidade escolar. Todos podem opinar e os assuntos, do mais básico até os mais complexos e de difícil solução, são votados e decididos por eles.

Experiências como essa ainda são bem raras por aqui, mas começam a ganhar espaço. É uma questão primordial no mundo moderno hoje é Saber escolher. Quando escolhe o que é melhor para a escola, o aluno enfrenta um problema real do cotidiano e busca soluções e saber escolher é uma competência fundamental para o jovem do século 21. Ele já se experimenta como cidadão e como isso se refletira no futuro dele como profissional dentro da escola.

No Aprender a conviver tem gente que pensa como o filósofo e educador Alípio Casali, que diz que a geração que se prepara para o século 21 enfrenta uma grave crise de socialização. Famílias dispersas, pais ausentes e o distanciamento de instituições tradicionais, deixam as crianças meio perdidas, sem referências. E de que os vínculos vêm enfraquecendo aceleradamente, o que está produzindo indivíduos com dificuldades para os relacionamentos sociais, mesmo diante da imensa interação que se desenrola hoje em dia nas redes sociais. Para ele a escola do futuro não pode deixar de lado seu papel de socializar adequadamente, ensinando a cada criança o jogo tenso entre direitos, deveres, ordem e liberdade. Para ele “O convívio é uma experiência estruturante. O conhecimento também se dá por transmissão.”

Esta aprendizagem, sem dúvida, representa um dos maiores desafios da atualidade. O mundo atual está repleto de violência, em oposição à esperança que alguns têm no progresso da humanidade. A educação deve utilizar duas vias complementares. Primeiramente a descoberta progressiva do outro. Num segundo nível, e ao longo de toda a vida, a participação em projetos comuns, tendo este método o intuito de evitar ou resolver os conflitos latentes.

Muitas escolas preocupadas com esse esgarçamento de vínculos, incentivam o trabalho em grupo. No trabalho em grupo a criança, as vezes, é obrigada a trabalhar mesmo com quem não tem afinidades dentro das regras da boa convivência. Assim, aprende como o outro pensa e aprende a respeitar os limites de cada um e superar as vezes situações que não tem nenhuma ação concreta. Pois além de estabelecer laços, outro desafio para o estudante do século 21 é a boa relação com a heterogeneidade. Conviver com a diversidade é uma expressão da inteligência humana.

Mais do que uma exigência do mercado de trabalho, que valoriza as diferenças, respeitar o outro é uma questão de sobrevivência da espécie no planeta. É preciso aceitar a diversidade não apenas com respeito, mas também valorizando a diversidade e as diferenças ideológicas como riqueza.

No Aprender a ser vem sempre aquela fatídica pergunta: Quem você quer ser quando crescer?. “Um cidadão do mundo, preocupado com as questões sociais e ecológicas” talvez fosse esta a resposta da maioria dos estudantes de hoje, que faria com que poderíamos sonhar com um mundo melhor para as próximas décadas. Mas no contexto atual, não basta fazer. Os ideais têm de estar incorporados. É uma questão de ser. Fazer desse aluno um ser justo, correto e de caráter forte é uma tarefa para a família e para a escola na transmissão de valores importantes para a vida adulta. A parte mais importante desse ser é a construção dessa identidade do aluno. Situa-lo no seu contexto social, cultural e intelectual. Delors coloca assim:

A educação deve contribuir para o desenvolvimento total da pessoa – espirito, corpo, inteligência, sensibilidade, sentido estético, responsabilidade pessoal e espiritualidade. Todo o ser humano deve receber uma educação que lhe dê ferramentas para o despertar do pensamento crítico e autônomo, assim como para formular seus juízos de valor e ser autônomo intelectualmente.

Mais do que nunca a educação parece ter como papel essencial, conferir a todos os seres humanos a liberdade de pensamento, o discernimento, os sentimentos e a imaginação de que necessitam para desenvolver os seus talentos e permanecerem, tanto quanto possível, donos de seus próprios destinos (pg 81).

Despertar na criança a noção de que o planeta está em perigo e prepará-la para defender a Terra é uma das principais missões da escola no século 21 a outra missão tão importante, ou talvez mais importante, é em relação as desigualdades sociais que afligem a humanidade. Lutar por um mundo mais justo socialmente, inclusivo, tolerante e que respeite a diversidade.

O segredo para criar cidadãos conscientes é fazer com que essa preocupação não fique apenas na teoria mas que ocupe espaço na vida escolar das crianças. Os muros da escola são realmente estreitos demais para o ensino contemporâneo. O conhecimento que se adquire com a prática é mais significativo. E se já não bastasse essas coisas todas, eis que vem uma reforma do ensino médio imposta de cima pra baixo, desrespeitando toda a discussão que vem sendo feita para a reforma do ensino médio desde 2006.

E o Brasil o que fez pra mudar?

O Plenário do Senado aprovou nesta quarta-feira (8) a chamada Medida Provisória do Novo Ensino Médio, com segmentação de disciplinas segundo áreas do conhecimento e implementação do ensino integral. Foram 43 votos favoráveis e 13 votos contrários ao Projeto de Lei de Conversão (PLV) 34/2016,  proposta originada após alterações promovidas na MPV 746/2016 pela comissão mista e pela Câmara dos Deputados.

Não há duvida que o ensino médio precisava de uma sacudida, de mudanças estruturais mesmo, mas o que foi proposto e o que foi aprovado distanciam o que se propunha enquanto discussão coletiva de uma imposição política de um governo ilegítimo de uma politica educacional dos anos 90. Bem algumas coisas positivas podem ser tiradas dessa mudança? Talvez. A reforma flexibiliza o conteúdo que será ensinado aos alunos, muda a distribuição do conteúdo das 13 disciplinas tradicionais ao longo dos três anos do ciclo, dá novo peso ao ensino técnico e incentiva a ampliação de escolas de tempo integral. Mas isso é suficiente? Não.

O currículo do ensino médio será definido pela Base Nacional Comum Curricular – BNCC (que deverá dar um passo significativo, se pra melhor ou pior ninguém ainda sabe), atualmente em elaboração. Mas talvez aqui o que está sendo vendido como “moderno” não tenha o efeito desejado: a adoção dos eixos curriculares. Pois a nova lei já determina como a carga horária do ensino médio será dividida. Tudo o que será lecionado vai estar dentro de uma das seguintes áreas, que são chamadas de “itinerários formativos”

  1. linguagens e suas tecnologias
  2. matemática e suas tecnologias
  3. ciências da natureza e suas tecnologias
  4. ciências humanas e sociais aplicadas
  5. formação técnica e profissional

As escolas, pela reforma, não são obrigadas a oferecer aos alunos todas as cinco áreas, mas deverão oferecer ao menos um dos itinerários formativos. E aqui o grande ponto de ruptura. Vamos lá pela lei, eu não sou obrigado a oferecer os cinco itinerários formativos, apenas um. Beleza. Qual gestor público vai adotar mais de um  itinerário, se a adoção deles implica em investimento  em estrutura e em professor? Como pode disciplinas como História e Geografia não serem obrigatórias como é Matemática e Português? Fora o engodo de que Filosofia, Sociologia, Educação Física e Artes terem se tornados obrigatórias. Elas são apenas obrigatórias na Base Nacional Comum Curricular – BNCC. Não nos eixos formativos. Uma emenda definiu que as matérias devem ter “estudos e práticas” incluídos como obrigatórios na BNCC.

A língua inglesa passará a ser a disciplina obrigatória no ensino de língua estrangeira, a partir do sexto ano do ensino fundamental. Isso quer dizer que Congresso manteve a proposta do governo federal. Antes da reforma, as escolas podiam escolher se a língua estrangeira ensinada aos alunos seria o inglês ou o espanhol, que dentro de uma politica de integração adotada pelo Mercosul, o ensino do espanhol (que é a língua mais falada no mundo em numero de países que adotam o espanhol como língua oficial).

Imaginar que agora, se a escola só oferece uma língua estrangeira, essa língua deve ser obrigatoriamente o inglês, e se ela oferece mais de uma língua estrangeira, a segunda língua, preferencialmente, deve ser o espanhol, mas isso não é obrigatório. Precisamos contextualizar, mais uma vez, a importância do ensino do espanhol como língua obrigatória, pois no mundo moderno atual as políticas comerciais e diplomáticas que norteiam as relações dos países e do Brasil (MERCOSUL e BRICS) o ensino do idioma espanhol não é apenas necessário, é estratégicos em todos os pontos de vista possíveis.

Outro objetivo da reforma é incentivar o aumento da carga horária para cumprir a meta 6 do Plano Nacional de Educação (PNE), que prevê que, até 2024, 50% das escolas e 25% das matrículas na educação básica (incluindo os ensinos infantil, fundamental e médio) estejam no ensino de tempo integral.

No ensino médio, a carga deve agora ser ampliada progressivamente até atingir 1,4 mil horas anuais. Atualmente, o total é de 800 horas por ano, de acordo com o MEC. No texto final, os senadores incluíram uma meta intermediária: no prazo máximo de 5 anos, todas as escolas de ensino médio do Brasil devem ter carga horária anual de pelo menos mil horas. Não há previsão de sanções para gestores que não cumprirem a meta. (lógico pois ninguém é louco de cobrar uma coisa que eles sabem não vão cumprir, pois depende de um investimento pesado em estrutura com um PEC que congela investimentos em todas as áreas).

Outro alvo de críticas foi a permissão para que professores sem diploma específico ministrem aulas. O texto aprovado no Congresso manteve a autorização para que profissionais com “notório saber”, reconhecidos pelo sistema de ensino, possam dar aulas exclusivamente para cursos de formação técnica e profissional, desde que os cursos estejam ligados às áreas de atuação deles.

Também ficou definido pelos deputados e senadores que profissionais graduados sem licenciatura poderão fazer uma complementação pedagógica para que estejam qualificados a ministrar aulas. O perigo é essa brecha ser usada para todo ensino médio e não apenas o profissional e técnico.

Bem ainda vamos precisar de tempo para digerir isso tudo, mas o principal é chamar os professores para fazerem uma reflexão mais ampla e crítica (em todos os sentidos) sobre os rumos do que fazemos, de como fazemos e principalmente de como queremos fazer. O mundo está mudando rapidamente, e os alunos também. E nos professores estaremos aonde nisso?

Convido aos amigos educadores a fazerem comigo essa reflexão. Seja aqui nos comentários ou em seus próprios espaços. Para isso deixo essa reflexão para todos que quiserem debater:

“Em toda a história da escolarização, nunca se exigiu tanto da escola e dos professores quanto nos últimos anos. Essa pressão é decorrente, em primeiro lugar, do desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação e, em segundo lugar, das rápidas transformações do processo de trabalho e de produção da cultura. A educação e o trabalho docente passaram então a ser considerados peças-chave na formação do novo profissional do mundo informatizado e globalizado.” (FREITAS, 2005).

A pergunta final que deixo para vocês é essa:

Robson Freire

24 ideias sobre “Estamos no caminho certo de como construir o estudante do século 21?

  1. Meu amigo, muito obrigada por trazer indagações que também me inquietam. Não sei se formamos pessoas ou apenas alunos. Não sei se as licenciaturas formam educadores ou só professores!

    • Querida amiga Andréa Motta, o que tem me deixado angustiado demais é que estamos meio que como barco a deriva. Sem rumo. Qual norte seguir diante de tantas transformações acontecendo? É justamente essa reflexão que eu gostaria que TODOS nos enquanto educadores/professores deveríamos fazer. É essa corrente de cérebros pensantes conectados é que pode fazer a diferença nessa hora. Não podemos mais esperar. Devemos atuar se quisermos fazer parte desse processo e não ser apenas folhas ao vento como foi com a reforma do Ensino Médio. Faça uma reflexão no seu espaço e chame mais pessoas a se conectarem nessa rede. Meu muito obrigado por você vir me prestigiar aqui no Caldeirão de Ideias. E sempre um honra ter você por aqui.

  2. Olá meu colega Robson! Este seu artigo nos leva a refletir, como educadores do século XXI e de como formar pessoas com os valores esperados por Jacques Delors. Não querendo ser pessimista, porém indignada, sinto que estamos muito distantes destes valores, começando pelos nossos representantes políticos que só nos envergonham cada vez mais! Precisamos ser fortes e não ingênuos como mencionou Paulo Freire em sua Pedagogia da Indignação: “Não se educa sem a capacidade de se indignar diante das injustiças”. Obrigada pela oportunidade de refletir sobre.

    • Querida amiga Josete Zimmer, primeiramente meu muito obrigado por participar da provocação e segundo acho eu, assim como você, que devemos nos indignar sim, mas principalmente fazer algo com essa indignação que nos aflige. Pegar essa massa crua e amorfa, e dar a ela uma cara/forma é o que nos professores fazemos de melhor. A esse propósito, Bakunin escreveu que: “Donde se conclui que, no próprio interesse tanto do trabalho quanto da ciência, é necessário que não haja mais nem operários nem sábios, mas apenas homens (livres). (BAKUNIN, 1979b, p.38).”

      Esse é o nosso papel enquanto educadores.

      Obrigado amiga por sua participação.

    • Caríssimo Carlos Alberto de Almeida Dias

      Obrigado por vir participar. Vamos lá sim visitar a página sugerida. Abraços.

  3. Querido Robson!
    Tuas inquietações são as minhas também e de todos os verdadeiros educadores. Fiz essa reflexão em algumas formações no ano passado, iniciando justamente com essa questão: para onde vamos? Que tipo de mundo eu quero? Qual caminho me leva para essa escolha? E usei a passagem da Alice que pergunta ao gato para onde aquele caminho levava. Ao que o gato faz com outra pergunta: “Para onde queres ir?” E Alice diz: “Não sei, estou perdida.” Então o gato responde: “Qualquer caminho serve para quem não sabe aonde ir. ” Penso que o princípio de tudo é ter clareza de que mundo queremos pra nós enquanto humanidade.Um mundo em que tenha espaço para todos, com uma educação voltada para os direitos humanos ou um mundo onde quem pode mais chora menos, com uma educação voltada para o mercado e competição. Resumindo, eu penso que é uma questão de assumirmos uma posição ideológica clara. Não há como educar de forma neutra, desprezando os valores humanos, a filosofia, a história, a sociologia, as artes. A educação que não proporcione o saber pensar, não cumpre o seu papel. E o saber pensar inclui o saber se perguntar “para onde eu quero ir?” E o educar é proporcionar formas de cada um conseguir buscar o próprio caminho escolhido. Não há como escolher um caminho, se a escola não abrir todo o leque de possibilidades e estiver aberta para uma educação integral e integrada. E nisso me parece que a reforma do Ensino Médio peca feio. Quanto ao uso das novas tecnologias, estamos ainda longe de explorar as melhores possibilidades. Nossos alunos precisam aprender a programar e não serem programados. Quando o professor tem clareza de onde quer chegar, vai ter mais facilidade em definir a metodologia que leve aos seus objetivos. É obvio que uma andorinha só não faz verão e por isso é importante que essas discussões ocorram na coletividade para efetivar ações eficazes. Nisso a web nos ajuda, como agora que estamos aqui numa comunidade educacional trocando ideias. Eu creio que é preciso resgatar os valores humanos e isso não envolve só a escola, mas a família, a sociedade como um todo. O mundo carece de humanidade e sem recuperar isso estamos caindo no precipício do individualismo, da corrupção, da falta de solidariedade. Eu estou fora da sala de aula e da escola, pois completei meu tempo de serviço na escola pública em novembro. Porém sinto uma urgência em fazer mais como educadora, diante desse cenário caótico. Não podemos perder as esperanças. Não nós, educadores. Abraço e seguimos falando.

    • Querida Marli Fiorentin

      O não saber qual caminho seguir é o que está nesse momento engessando tudo. Temos varias pistas, diversos suspeitos, muitos lugares para analisar, tal qual um jogo de detetives o que torna nossa tarefa reduzida a um jogo de tentativa e erro continuo. Sim precisamos humanizar e formar pessoas “humanas” e livres de qualquer tipo preconceito, tolerantes, éticas e com retidão de caráter verdadeiramente construído e constituído sobre valores reais.

      Sim precisamos ter uma posição ideológica clara e definida. Não importa nessa hora deixar as ideologias de fora da escola ou do debate ( odeio a ideia e os conceitos da Escola Sem Partido). Nos professores somos políticos por excelência e praticamos o ato de educar por ideologia e vocação.

      Aqui nesse trecho você resume tudo o que penso sobre a questão central do debate: ”

      Resumindo, eu penso que é uma questão de assumirmos uma posição ideológica clara. Não há como educar de forma neutra, desprezando os valores humanos, a filosofia, a história, a sociologia, as artes. A educação que não proporcione o saber pensar, não cumpre o seu papel. E o saber pensar inclui o saber se perguntar “para onde eu quero ir?”

      Trago aqui a reflexão que fiz para a professora Vera Amaral:

      Como a escola vai atuar sobre o papel da família e da escola nas discussões sobre os novos modelos de família e sociedade junto com a sociedade e a escola?

      Trago aqui uma colocação da Professora Leila Floresta de Oliveira que pode contribuir bastante: “Torna-se, assim, claro o papel da educação como agente formador de mentalidades e vontades libertárias capazes de impulsionar e estimular o processo de mudança e de garantir a continuidade desse processo” (OLIVEIRA, 1997, p.56)

      Outra visão interessante é que para Rousseau, a criança traz, ao nascer, um conceito inato de justiça e é a sociedade corrompida que a desvirtua. Para impedir que isso ocorra, Rousseau advoga, na sua obra “Emílio”, um tipo de ensino em que as crianças são educadas em completa liberdade, no sentido da ausência de total constrangimentos normativos. Somente dessa forma é que a criança se tornaria, no futuro, um adulto íntegro.

      Outra vertente é essa: “Como iriam (professores e pais) dar aos alunos o que eles próprios não têm? Só com o exemplo é que se prega bem a moral, e, ao ser a moral socialista contrária à moral atual, os professores, necessariamente dominados por esta, fariam diante dos alunos exatamente o contrário do que estariam pregando. De sorte que a educação socialista é impossível nas escolas assim como nas famílias atuais. ( BAKUNIN, 1989 p. 49)”

      Bem depois dessa outra “provocação” quero agradecer imensamente a sua participação nesse debate.

      Meu muito obrigado

  4. Opa Robson, textão na semana não consigo ler! Hoje, domingo, consegui ler 10% 🙂 Muitas ligações externas, quase um curso 🙂 Vou comentar brevemente por aqui, porque é mais fácil de achar no futuro do que nos jardins murados do FB 🙂

    Pra começo de conversa acredito que a resposta a esta pergunta não é nem simples, nem única e nem definitiva! Deve ir se ajustando a cada realidade e contexto. Embora, eu suponha (ou seja não é uma certeza ou absoluto), que qualquer que seja a resposta ela deva passar por alguns dos pontos abaixo:
    – Fim de currículo únicos, engessados e universais;
    – Uso de plataformas e tecnologias abertas (Não serão plataformas fechadas e violadoras de privacidade que trarão a redenção da educação) ;
    – Apropriação de todos os envolvidos (Alunos e Professores) da tecnologia, o que passa, também, por programação, autogestão e autocontrole de conteúdos… Ouvi blogues, redes federadas e descentralizadas, hardwares livres e similares?
    – Experimentação e compartilhamento das experiências (com licenças que permitam a remixagem).
    – Simplicidade (menos é mais).
    – Menos textão e mais práticas 🙂
    – Menos análises de especialistas externos a Escola e ao cotidiano da mesma e mais ação/reflexão de quem está no “chão da sala de aula”…

    E por último, mas não menos importante, se alguém souber as respostas, me conte…. Tenho mais 10 anos (ou 20 dependendo da reforma da previdência dos golpistas) para experimentar as soluções 🙂

    Abração e vida longa as conversações fora dos jardins murados!

    • Meu querido amigo

      Estava ansioso por ler sua contribuição, pois elas são sempre pontuadas de questionamentos paralelos que engrandecem o debate. Gosto do seu jeito provocador. Isso faz com que as pessoas me movam na direção do pensar.

      Mas vamos lá aos contrapontos (sim, também sei provocar)

      Concordo em gênero, número e grau com tudo isso que você pontuou:

      – Fim de currículo únicos, engessados e universais; –
      – Uso de plataformas e tecnologias abertas (Não serão plataformas fechadas e violadoras de privacidade que trarão a redenção da educação) ;
      – Apropriação de todos os envolvidos (Alunos e Professores) da tecnologia, o que passa, também, por programação, autogestão e autocontrole de conteúdos… Ouvi blogues, redes federadas e descentralizadas, hardwares livres e similares?
      – Experimentação e compartilhamento das experiências (com licenças que permitam a remixagem).
      – Simplicidade (menos é mais).
      – Menos textão e mais práticas
      – Menos análises de especialistas externos a Escola e ao cotidiano da mesma e mais ação/reflexão de quem está no “chão da sala de aula

      Mas a questão que colocaste que eu acho fundamental nesse momento é a ultima, onde pontuas a ação/reflexão de quem está no “chão de sala de aula”..

      Faça também uma provocação no seu espaço. Vamos ampliando o debate. Tá ficando legal a convocação

    • Feliz em ver o Caldeirão de volta!!!
      Agora ufa Robson, concordo com o Sérgio Lima que textão durante a semana complexo para ler… e de fim de semana vc conseguiu me fazer pensar hahahah… Vou pegar o bonde aqui na resposta dele.
      Preciso (re)ler isso aqui várias vezes. Sua inquietação também é minha e da maior parte dos educadores.
      O que percebo, tanto nos links que encaminhou quanto no que temos em nosso quadro político atual é que as coisas da educação deveriam ser debatidas por educadores, pois vemos muitas pessoas de fora “metendo o dedo” em coisas que pouco conhecem.
      Outra questão que percebo é que nossos modelos educacionais (aqui falo da forma como a escola se constitui: currículo, turmas seriadas, disciplinas que não conversam, avaliação, afins) são arcaicos e enquanto não revermos esses modelos nenhuma metodologia nova dará conta…
      Assisti dia desses uma série no Netflix que recomendo. Chama-se Merli, uma série catalã que apesar do professor ser um tanto polêmico, os encaminhamentos que dá em sala de aula são bem interessantes, #ficaadica.
      Seguimos conversando!!!

      • Querida Egui Branco

        Eu sei que o textão ficou textão demais, mas são meses de germinação e inquietação que me afligia de forma intensa. Agora vamos lá ao debate. Tu trouxe uma coisa que realmente devemos pensar e que eu já havia comentado com amigos, que é a questão dos modelos educacionais utilizados. O problema como diria meu amigo Sergio Lima, são os modismos. Tá crush usar X agora e logo mais a frente o crush é Y. Isso esculhamba com tudo. Pegamos tudo e tiramos um pouco de cada um é fazemos um modelo único ou adotamos um? Se formos adotar qual seria? Como fugir dos modismos e utilizar uma modelo educacional ou metodologia que realmente funcione. Mas, penso eu, que nos professores é que devemos assumir esse protagonismo e impor a discussão.

        Adorei a dica da série na Netflix, que entrou na lista para assistir em breve. E muito muito obrigado por você responde a essa provocação e trazer excelentes colocações.

        Vamos discutindo mais, porque se faz urgente o debate. Chame mais pessoas para se juntarem a ele.

        Beijos minha amiga

  5. Olá meu querido amigo Robson,

    Primeiramente agradeço pelo convite para participar de tamanho afrontamento educacional considerando os imensos contextos já discutidos. Tentarei dimensionar considerações e questões que deveriam ser repensadas, face à nossa realidade educacional atual.

    Vamos lá!
    Inicio com documento legal PNE (Plano Nacional de Educação) 2014-2024.
    O Plano Nacional de Educação (PNE), Lei nº 13.005/2014, como sabemos é um instrumento de planejamento do nosso Estado democrático de direito que orienta a execução e o aprimoramento de políticas públicas do setor. Conforme documento legalmente definido: “Ao ser sancionada, sem vetos, a Lei nº 13.005, de 25 de junho de 2014, fez entrar em vigor o Plano Nacional de Educação (PNE) 2014-2024 – o segundo PNE aprovado por lei. Na redação dada pelo constituinte, o art. 214 da Carta Magna previu a implantação legal do Plano Nacional de Educação. Ao alterar tal artigo, contudo, a Emenda Constitucional (EC) nº 59/2009 melhor qualificou o papel do PNE, ao estabelecer sua duração como decenal – no texto anterior, o plano era plurianual – e aperfeiçoar seu objetivo: articular o sistema nacional de educação em regime de colaboração e definir diretrizes, objetivos, metas e estratégias de implementação para assegurar a manutenção e desenvolvimento do ensino, em seus diversos níveis, etapas e modalidades, por meio de ações integradas das diferentes esferas federativas. Essas são as ações que deverão conduzir aos propósitos expressos nos incisos do art. 214 da Constituição, quais sejam: erradicação do analfabetismo; universalização do atendimento escolar; melhoria da qualidade do ensino; formação para o trabalho; promoção humanística, científica e tecnológica do país; e estabelecimento de meta de aplicação de recursos públicos em educação como proporção do produto interno bruto”. (Plano Nacional de Educação (PNE) e dá outras providências. Brasília: Câmara dos Deputados, Edições Câmara, 2014. 86 p. [Série legislação; n. 125]).

    Onde estão as ações integradas aprovadas no PNE/2014-2024?
    O desgoverno utilizou o poder ilegítimo e conseguiu manobrar, desvalorizar e vincular reformas arcaicas, antidemocráticas, impostas e de interesses próprios. Temos como realidade pouco e vergonhoso recurso para educação e muito para os banqueiros. Em que nos afeta como profissionais?

    Temos duas dimensões: o currículo e as decisões do desgoverno que nos afetam direta e indiretamente.

    Comecemos pelo currículo…
    Há tempos penso e configuro em minha prática pedagógica que o conhecimento e a educação não residem apenas no meio institucional escola, mas também entre outros âmbitos da prática pedagógica, entre eles: ONGS, Clínicas, Hospitais, Comunidades, Projetos diversos, etc. A esses exemplos têm a prática pedagógica do que defino de currículo oculto. Aquele necessário à subárea de conhecimentos das relações de aprendizagem dos aprendizes que precisam ser compreendidos, não apenas no puro cognitivo como propõe o currículo engessado que as instituições perpetuam, mas também considerar a dimensão de aprendizagem social e cultural em suas competências e habilidades dentre os saberes discentes, que devem estar vinculados ao processo de aprendizagem como um todo. O mais agravante no currículo são os modelos que replicam, metodologicamente, o século passado. Está claro e já foi aprovado que o “Novo Ensino Médio” perpetuará o modelo imposto em duas dimensões. A primeira está alicerçada ao modelo real que teremos e a segunda dimensão é como o governo ilegítimo propaga, junto à mídia corrompida, o lindo e prazeroso “Novo Ensino Médio”.

    Que modelo real de “Novo Ensino Médio” teremos? Tendência capitalista-liberal concorrencial e elitista-conservadora que imprime um projeto de modernização. No estado ficará a desregulamentação e privatização; desqualificação dos serviços e das políticas públicas e fortalecimento da iniciativa privada com ênfase na competitividade de serviços e produtos. Conseguem vincular quem serão os “produtos robotizados”?

    Como o governo ilegítimo propaga o modelo de currículo do “Novo Ensino Médio”? Projeto de modernização em que o papel do estado será de bem-estar social- interventor, regulador, organizador e planejador da economia, provedor do pleno emprego e do crescimento da educação e saúde. Na democracia? O ideal da democracia direta discutido por Rousseau: governo do povo, pelo povo e por intermédio de um povo; democracia político-social.

    Se os currículos precisam ser redimensionados, agregando temáticas relativas a questões de classe social, etnia, gênero, gerações e outras, alicerçados nos princípios da cidadania e da democracia. Onde ficou essa dimensão na proposta atual? Até o presente momento uso uma lupa para descobrir. Caso alguém tenha encontrado esse vínculo, por favor, me situem….

    A minha dúvida quanto ao currículo no “novo ensino médio” permanece:
    Como dimensionar tudo isso se a democratização do acesso e a não-ampliação dos recursos para o ensino obrigatório das disciplinas foram aniquilados? Como pensar uma construção de escola pública pensando a questão curricular alicerçado ao PPP, se na verdade tornaram-se insignificantes tornando a qualidade de ensino precária a população mais necessitada?

    Recentemente fiz um “check up pedagógico” em meus arquivos de trabalhos desenvolvidos com discentes do ensino médio, nas disciplinas pedagógicas filosofia, artes e sociologia; e não posso negar o meu sentimento de indignação e vontade de servir um chá de cicuta aos responsáveis por essa barbárie.

    Desculpem-me, mas na dimensão de tudo que já presenciei na educação não consigo pensar em mais nada, além dos poucos atributos de minhas origens indigenistas- “cicuta ou flecha”(último recurso).

    Sabemos que o currículo propagado pelo desgoverno é mais um golpe irônico a nos atingir grosseiramente. É muito claro para quem está na área, assim como é mascarado aqueles que nada conhecem ou relaciona. Teremos como modelo de formação para os jovens, cuja meta será cumprida por profissionais com “notário saber”, entregas de titulações de proletariados e zumbis. Sim, os jovens estarão sendo preparados para a forca.

    Minha inquietação perpassa a lógica de todo educador pensante. Quando teremos a oportunidade de contribuir lapidando, esculpindo, jovens cidadãos que se tornarão futuros adultos num esquema torturante de escravidão neurológica? A pior prisão é a hemisférica. Aquela que não podemos pensar por nós e como citou Edgar Morin em seu livro “Os Sete Saberes Necessários a Educação do Futuro” em torno do sentido intrínseco do terceiro saber: “Ensinar a Condição Humana”, citando Werne Heisenberg:

    […] Precisamos ensinar nas escolas a ideia da incerteza. Nossos alunos precisam perceber essa fragmentação para avançar suas concepções. O conhecimento científico nunca deve ser um produtor absoluto de certezas, ele deve ser crivado pela ideia da incerteza. A incerteza seria o que comandaria a voz do saber, o avanço da cultura (sem certezas), seria incorporar essa ideia nos ensinos de Geografia, História, Filosofia, Línguas, Química, Física, Matemática. Perceber que tudo que foi criado pelo homem é crivado pela ideia da incerteza […](MORIN,2004 apud WERNE ,1927). Portanto cabe refletir, analisar e transformar….

    A quem interessar a leitura- algumas considerações sobre “Os Sete Saberes Necessários a Educação do Futuro”:
    http://josivaniafreitas.blogspot.com.br/2013/07/os-sete-saberes-necessarios-educacao-do.html

    Quanto às decisões de desgovernos que nos afetam direta e indiretamente?

    No país em que a sigla “STF” é transformada em forma de chacota para “Sugestivo Tribunal Federal”; ou seja, se der deu, se colar colou e se rolar rolou. O Brasil conseguiu ser o único país em que o tribunal não decide, apenas sugestiona. Na fase mais irônica do que podemos supor vou parafrasear o ator Fábio Porchat sobre as decisões atuais do STF:

    “[…] Gente desculpa, se não for pedir muito e se der, a gente acha que não, mas se não der, tudo bem, e se for, a gente não quis atrapalhar […]. Ironia a nossa classe? Não, realidade. Eu, pobre mortal e professora, lecionando há 20 anos, sempre acreditei que um indivíduo tendo praticado qualquer ato ilícito existia todo um trâmite legal para o STF julgar e/ou condenar de acordo com os autos. Pobre inocência! Nossa realidade já nos provou que é o contrário. Acho que agora compreendi.

    No Brasil bandido bom é aquele que vive engravatado, no poder, e merece todo o respeito do STF. Nossa situação é tão séria que os bandidos engravatados estão agradecendo a compreensão e determinando a estadia nos poderes. Até quando? Uma situação dessas já nos diz muito do passo horrendo e desastroso que estamos imersos graças aos nossos governantes corruptos.

    Quem se atreverá ir contra as corjas de corruptos engravatados a não sermos nós Educadores?

    Contudo, embora eu seja otimista, continuo tendo a súbita impressão que o ano 2016 construiu um muro para 2017 não adentrar e crescer positivamente. O que é lamentável!

    Como o educador poderá difundir a pleno vapor, cenários de aprendizagens se as comunicações estão a favor de um sistema corrompido em todas as esperas?
    Tenho muitas dúvidas e inquietações, por isso provoco algumas questões…

    Contextualizando a dimensão do currículo e das decisões….

    Estamos vinculados a um cenário antidemocrático onde nem os modelos aprovados, seja dos PNEs da vida ou outros não terão respaldo. Só perpetuarão as conivências, pois temos um governo que além de golpista consegue estar dessincronizado com o digital. Uma marca do século 21.
    O que esperar de um trem bala que não acerta uma linha reta? Quem consegue em tempos de inovações tecnológicas, em todos os âmbitos, escrever uma carta a punho?

    Se eu fosse supor uma hipótese em minha área Psicopedagógica Clínica seria: neurônios interligados por sinapses no Córtex Orbitofrontal estão sempre em processo de recolhimento.

    Fico a pensar e indagar se a “Pedagogia Libertadora”, a inimiga da “Pedagogia Bancária”, tão bem conduzida por Paulo Freire, em toda à sua luta por uma educação de qualidade em que cujo convite é sermos transformadores autônomos; ficará na inércia? Ou ficará no conformismo daqueles que acreditam na máscara imposta e propagada do “NOVO Ensino Médio”?

    Se estamos no caminho certo de como construir o estudante do século 21?

    Como pensar na perspectiva de avanços com esse “novo ensino médio” se a perspectiva crítica, a organização política, ideológica e cultural em que indivíduos e grupos de diferentes interesses, preferências, crenças, valores e percepções da realidade que mobilizam poderes e elaboram processos de negociação, pactos e enfrentamentos estão sendo recolocadas, conforme aprendemos historicamente, no modelo da tradição greco-romana. Não consigo relacionar a outro fim educacional. Vivemos um período doentio de desvalorização da formação profissional. Como afirmar que estamos no caminho certo se o “notório saber”(marca registrada da aprovação) conduzirá o percurso de aprendizagem do estudante do século 21?

    O “notório saber” divulgado como primordial na nova proposta me reporta a ideia antepassada da “nova” classe, a burguesia, que contratava “professores leigos” nomeados pelo Estado, cujo objetivo era ensinar coisas práticas da vida, isto é, para os interesses da nova classe que emergia. O que podemos supor é que a Escola atende historicamente os interesses de quem a controla.

    Qualquer relação, meu querido amigo Robson, não é mera coincidência.

    Sinceramente, não é só a ausência de estímulo que nos inquieta nesta dimensão nas situações que enfrentamos diariamente, mas principalmente poder comprovar que estamos vinculados a um meio em que a nossa escolha em transformar cidadãos nunca foi prioridade no país e hoje, pior que antes, não é absolutamente nada diante de tantas arquiteturas e manobras inescrupulosas desse Governo Golpista.

    Parece-me que nossa opção ainda é seguir adiante. Precisamos pressionar para que essas ações inescrupulosas, vivenciadas neste terreno corrompido sejam limpas e ocupadas por quem é de direito, NÓS.

    Ciber@braço!

    • Querida Josivânia

      Que contribuição fantástica. Excelente analise do contexto e melhor ainda as opções postas como solução ou como forma de pensar. É isso que essa provocação pretende: FAZER PENSAR.

      Mas vamos apimentar o debate?

      Imaginando o pior cenário a frente possível, o que nos enquanto professores (protagonistas) podemos fazer para reverter isso? As mobilizações/greves/movimentos feitos não conseguem unidade e não tem tido os efeitos desejados (visto a última greve de professores e os movimentos de ocupação) o que resta para nos fazer? Segundo Bakunin, que acreditava que a revolução deveria ser levada a cabo pelos próprios trabalhadores, que, organizados em seus sindicatos, deflagrariam um movimento de amplas greves que se generalizariam por toda a sociedade. Mas como conseguir isso no cenário atual em que não temos maioria nem no câmara ou no senado e muito menos na sociedade brasileira que está dividida.

      O que fazer?

      Beijos e grato pela participação

  6. Considerações finais sobre o nosso cenário…
    [Como postei no meu blog recentemente]…

    Não é uma determinante, mas penso que a partir dessa dimensão pensemos e repensemos adiante….

    Nesse terreno corrompido parece-me que nos resta ocupar os movimentos diversos, reestruturar e afrontar os desafios impostos antidemocraticamente, estruturar novos desafios[relacionar o que priorizamos no processo], buscar e potencializar contribuições para visibilidade nas diversas possibilidades digitais midiáticas e transmidiáticas [nosso fortalecimento continua sendo as possibilidades do digital]; fortificando e estruturando as dimensões que pretendemos alicerçar na prática, visando encontrar, definir metas e formas estratégicas de nos libertar.

    Como afirmava Frederich Engels: “A liberdade é necessidade reconhecida”.

    Beijão no coração…

    • Aqui a minha resposta a provocação que ela colocou por lá:

      Olá Lúcia Helena, minha amiga (amiga ainda apenas virtual, mas que em breve desvirtualizaremos)

      Primeiramente #ForaTemer, depois vamos analisando/refletindo sobre o seu texto. Você toca em um ponto que eu acho crucial que é a questão da ENSINAGEM RUIM. Exatamente isso que eu penso também, não existe aluno com problema de aprendizagem (sem generalização lógico), o que existe e professor com problema de ensinagem. Mas agora vem a pergunta: De onde vem essa deficiência? Da formação? Da metodologia utilizada? Da prática viciada e deficiente?

      Falar da estrutura deficiente e atrasada (modelo de escola do século passado) já nem vale a pena pois é consenso entre todos nos.

      Outra questão é quanto a visão da tecnologia ser a tábua de salvação da educação (promessa/esperança que nunca se concretizou) a tecnologia é apenas mais uma ferramenta, mais um meio e não a salvação. Ter e utilizar a tecnologia com ponte é um diferencial enorme. Outro grande ponto em que concordamos é a inclusão da programação no currículo obrigatório. Podemos sim, ensinar linguagem de programação aos alunos dentro de uma abordagem construtivista e com viés empreendedor e inovador. Gosto demais desse trecho do texto: “Enquanto continuarmos discutindo propostas educativas em tecnologias e educação para o futuro, ele nunca chegará. ” Não vai chegar mesmo. NUNCA.

      Dr. John Kelly, vice-presidente de Centro de Pesquisas da IBM traz essa mensagem: “Este futuro cooperativo entre ambos é o que leva a sociedade ao progresso”. Ter no futuro, essa sinergia entre homem e máquina, para prosperar a humanidade tendo a educação como base é sim um caminho possível.

      Aqui um bom texto desse futuro possível http://ofuturodascoisas.com/um-futuro-de-harmonia-entre-humanos-e-maquinas/

      Mais uma vez obrigado amiga por responder a provocação.

      • Olá, Robson!

        Vou cobrar a promessa de desvirtualizar essa amizade, hein? Rsrsrsrs!
        Bem, a ensinagem ruim é um problema estrutural. A formação acadêmica não consegue fazer cm que o professor desperte para uma prática pedagógica diferenciada do que já temos visto, estuda por 4 anos numa Universidade para repetir as velhas práticas. Seja por comodismo, seja porque não entendeu a necessidade de se fazer um ensino melhor, o fato é que o discurso do professor ainda é o de que “já faço muito, com o salário que ganho”. Sim, é verdade. Ganhamos pouco. Mas nossos alunos não devem pagar essa conta.
        As tecnologias são necessárias pois vivemos na Era Digital. Não tem como um ser, de qualquer parte deste Planeta, considerar-se incluído socialmente sem dominar as linguagens digitais. E a escola não deve ficar de fora disso. O que me admira é que professores ainda achem que podem fazer escla de qualidade sem passar pela inclusão social.
        A Academia, por seu lado, não dá conta de produzir conteúdo relevante para consumo imediato. Conheço muito pesquisador preguiçoso que, com preguiça de estudar, rejeita a possibilidade do “novo”. E assim conseguimos piorar o que já é muito ruim.
        Abraços!

  7. Grande Robson!

    Excelente iniciativa. Excelente texto. Excelentes reflexões. Ou seja, nenhuma novidade, você continua ótimo!
    Puxa-saquismo à parte, confesso que não tenho nenhuma resposta para suas indagações. Mas vou explicar por quê. E vou tentar fazê-lo à partir de uma estratégia um pouco inusual.
    Imagine-se como um professor 30 anos atrás. Como você estaria preparando seus alunos para que eles enfrentassem o futuro e hoje fossem pais competentes dos alunos que temos nas escolas e cidadão capazes de lidar com o mundo atual? Hum… Veja bem, esses seus alunos de 30 anos atrás são os adultos que estão no mercado de trabalho, ou desempregados; são policiais e bandidos, são professores e analfabetos funcionais, são políticos e eleitores, são pais dos seus alunos atuais. O que foi feito deles, com eles e para eles nos idos tempos de colégio 30 anos antes?
    30 anos atrás não tínhamos internet, nem celulares, nem TV a cabo, NetFlix e TEDs. Há 30 anos éramos idiotas?
    Talvez fôssemos, mas na verdade é mais provável que tenhamos sido apenas humanos incapazes de prever o futuro. Como, aliás, continuamos a ser hoje em dia.
    Porém, não nos perguntávamos, com a frequência e desespero como fazemos hoje, como deveríamos educar nossas crianças para o futuro. Apenas educávamos para lhes ensinar valores, conceitos e técnicas que acreditávamos serem necessárias para qualquer um, em qualquer situação presente ou futura.
    Nós sabíamos nada sobre o futuro e nem éramos capazes de imaginá-lo como o nosso presente atual. Mas isso não nos era problema. Não tínhamos a pretensão da futurologia.
    E hoje? Hoje nos perguntamos como devemos educar as crianças para um futuro que temos certeza de não sermos capazes de imaginar (talvez isso seja uma evolução, mas será que é?). E, no entanto, além da certeza sobre o futuro também perdemos outras certezas. Muitas.
    Tudo, absolutamente tudo, o que você colocou no seu texto eu me atreveria a resumir assim: não temos mais certeza sobre que conteúdos, habilidades, competências, valores e práticas devemos ensinar. Não temos certeza sobre modelos de escola, currículos, competências ou valores.
    Talvez nossa incerteza e nosso “medo de errar” venha da constatação de que nesses 30 anos quase nada deu certo na Educação e na sociedade. Vivemos há décadas numa montanha russa à espera de uma subida.
    Talvez seja apenas um modismo desse início de século crer que estejamos realmente perdidos. Ou será que nos convenceram de que somos mesmo incapazes de encontrar rumos? Ou pior, será que acreditamos mesmo que estamos sem rumo?
    Nas últimas duas décadas tenho refletido sobre tudo isso. Tenho feito muitos experimentos, muitas observações. E a cada dia tenho mais certeza de que o que perdemos de fato foram apenas as nossas certezas. Vivemos as décadas da desilusão. Do crer que já não vale a pena acreditar. Há quem veja isso como ganho.
    Às vezes para seguir adiante é preciso dar alguns passos para trás. Principalmente se você estiver à beira de algum abismo. Talvez estejamos mesmo precisando voltar um pouco no tempo, para aquela época em que acreditávamos em algo e fazíamos o que tinha que ser feito. Essa vida de incertezas contemplativas, de aventuras sem convicção, de discursos vazios sob holofotes e claques, isso não está prestando não.
    Terminando, então: não tenho respostas. Só tenho minhas certezas. Não tenho medo de errar. Tenho medo de passar a vida não fazendo nada na esperança de um dia descobrir o “certo”. Educo meus alunos para serem pessoas melhores. Simples assim. E o que é mais curioso: isso independe do modelo de escola, independe do currículo oficial, independe dos recursos tecnológicos e até mesmo do que chamam por aí de “inovações”. É incrível o que se pode fazer com apenas umas poucas convicções.
    Grande abraço!

    P.S.: Espero ter confundido muita gente. Essa é uma das minhas convicções: sem confusão não há reordenamento.

    • Meu amigo José Carlos Antônio, primeiramente UAU QUE TEXTO

      Tocaste numa coisa que me “aperreia” muito: a perda das certezas. A convicção de estar certo escorreu pelos dedos e se perdeu em um mar de dúvidas que estão consumindo tudo e todos. Compartilho contigo do melhor método de ensino já criado: “Educo meus alunos para serem pessoas melhores. Simples assim.” Se eles forem seres humanos tolerantes, conscientes, respeitosos, educados, honestos, de caráter, solidários e apaixonados pela vida já teremos feito a nossa parte enquanto professores (odeio usar educadores). Gosto demais quando confundimos mais do que explicamos. A nossa função é justamente essa: inquietar. Obrigado meu amigo querido pela participação nessa provocação. Vou compartilhar seu comentário em uma postagem. Ele merece ser divulgado.

      Um grande abraço

    • Thank you for coming to visit my blog and kindly leave your comment here. Come back more often to see the things that we put here with a lot of dedication for you.

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