A reinvenção dos educadores

Melhorar a formação dos professores sobre o uso da tecnologia é fundamental para que a escola do futuro se transforme na escola do presente

Imagem retirada da Wiki João de Meira https://joaodemeira.wikispaces.com

Por Bruna Nunes

Muito se fala sobre a necessidade de que a escola se atualize. A educação do século 21 exige que professores e professoras se reinventem, refletindo sobre o seu papel como educadores, a forma como se relacionam com os seus alunos e a maneira como realizam a sua prática docente. Promover uma educação mais alinhada aos novos tempos significa compreender as transformações pelas quais a sociedade passa. Uma das quais se relaciona diretamente ao uso da tecnologia.

Os jovens que hoje frequentam nossas escolas nasceram no mundo permeado pela cultura digital. Usam smartphones para compartilhar sentimentos, realizar pesquisas, informar-se, se expressar e interagir com a cidade nas suas diversas esferas e dimensões e exercer a sua cidadania. A cultura digital, que caracteriza a chamada sociedade do século 21, transformou a forma como processamos e construímos o conhecimento. Como observa Pierre Lévy, a inteligência hoje é coletiva, desenvolvida por meio do compartilhamento de experiências e saberes, facilitados pelas novas tecnologias da comunicação. E a escola precisa estar atenta a isso.

Quando se fala sobre incorporar as novas tecnologias nas escolas, o primeiro desafio listado por estudiosos e especialistas é a falta de infraestrutura. Sem dúvida, trata-se de uma questão proeminente na hora de se pensar políticas públicas que possibilitem a alunos e professores usufruir de todos os benefícios e facilidades que hoje a tecnologia oferece para o processo de ensino-aprendizagem. Contudo, prover as escolas com laboratórios de informática e conectividade não é o único fator determinante para o sucesso de qualquer política que tenha como meta a incorporação da tecnologia no cotidiano escolar. Para isso, a tecnologia precisa vir associada ao oferecimento de formação para professores, que os oriente a usá-la com abordagem pedagógica. A tecnologia pela tecnologia não faz milagre. O seu uso pedagógico precisa vir acompanhado de intencionalidade. E a situação brasileira, no que se refere à formação de professores para esse uso qualificado dos recursos tecnológicos, não é muito diferente da trágica realidade que caracteriza a infraestrutura das escolas.

A imensa maioria de professores e professoras que atuam nas redes municipais e estaduais de ensino não cursou disciplinas específicas sobre educação e tecnologia na sua formação inicial. De acordo com dados da pesquisa TIC Educação, realizada em 2014 pelo Comitê Gestor da Internet – Cetic (2014), quase 60% dos professores entre 31 e 45 anos afirmam não ter cursado disciplina específica sobre como usar dispositivos (computadores, tablets e smartphones) e a internet nas atividades escolares.

Se considerarmos que a média de idade dos professores que atuam nas escolas está na faixa dos 38 anos, isso nos revela um aspecto fundamental sobre os desafios relacionados ao uso da tecnologia nas escolas: a maioria não está preparada para usar os recursos digitais pedagogicamente. E a culpa não é deles. Simplesmente não lhes foi oferecida a oportunidade de aprender. Com aprender, não me refiro a saber como ligar um computador ou tablet, a como projetar um vídeo ou elaborar uma apresentação de powerpoint, embora isso também seja importante. Me refiro a saber como utilizar as novas tecnologias com enfoque na aprendizagem dos alunos, e isso passa por aprender a pesquisar, criar e definir quais recursos educativos digitais serão usados, quando e para quê. Trata-se, portanto, de menos fetiche tech e mais consciência de como e com que intuito se utilizará a tecnologia. Ter lousas digitais nas salas de aula não vai melhorar o desempenho escolar dos jovens num passe de mágica. No entanto, saber a forma mais adequada de usá-las, segundo os objetivos que se quer alcançar, sim.

Conscientes do problema, alguns professores e professoras têm procurado minimizar essa brecha formativa. A mesma pesquisa nos mostra que aqueles que afirmam utilizar a tecnologia para potencializar as suas aulas buscaram, por iniciativa própria, outros meios para aprender a usá-la na prática docente. Na pesquisa, projetos que preveem capacitação e treinamento, oferecidos por organizações do terceiro setor em parceria com instituições ou secretarias de educação, também aparecem como alternativa. A oferta, porém, ainda está aquém da demanda.

É por isso que se faz necessário reavaliar o currículo das licenciaturas. A prática docente precisa incorporar a tecnologia tanto da perspectiva ferramental quanto da metodológica. A real inovação em educação acontece quando conseguimos associar ambas as coisas: ferramentas e métodos inovadores. Em termos de estratégias metodológicas, podemos citar a aprendizagem por projeto, o ensino híbrido, a educomunicação, a cultura maker e a gamificação, como propostas interessantes. Associadas a plataformas e recursos digitais diversos, essas metodologias podem revolucionar o processo de ensino-aprendizagem.

A aprendizagem por projeto tem como objetivo fortalecer o aprendizado significativo, estimulando os jovens a aplicar os conhecimentos adquiridos em sala de aula na realização de ações que transladem os conteúdos curriculares da dimensão abstrata para a concreta. Associada ao uso da tecnologia, desperta o interesse dos alunos, a retenção do conhecimento, aumentando o engajamento dos jovens nas atividades escolares, diminuindo a evasão escolar e, em consequência, melhorando o seu desempenho. Além disso, esse tipo de abordagem pedagógica favorece o desenvolvimento de competências e habilidades que apoiarão os jovens ao longo de suas vidas.

Algumas experiências têm sido bem positivas nesse sentido. Uma é a criação de aplicativos ou plataforma digitais por professores e estudantes para desenvolver conteúdos curriculares. Muito mais interessante que estudar taxonomia apenas via aulas expositivas, é propor aos alunos o desenvolvimento de um aplicativo ou mapa geo-referencial que mapeie as plantas que compõem o seu território escolar, atribuindo-lhes seu nome científico. Outra forma mais simples de usar a tecnologia para potencializar o processo de ensino aprendizagem e ao mesmo tempo dialogar com o universo dos jovens é sugerir aos alunos criação de memes, usando figuras de linguagem, ensinando como prevenir as doenças tropicais, sobre as leis de Newton, e por aí vai. As possibilidades são infinitas e podem ser realizadas mesmo em condições com pouca infraestrutura. Temos observado resultados muito animadores nesse tipo de boa prática.

Para que mais experiências como essas aconteçam, no entanto, é preciso mais que exigir dos professores criatividade: é imprescindível oferecer-lhes formação adequada para usar as novas tecnologias de maneira qualificada e segundo o perfil dos seus alunos e o seu contexto escolar. Se desejamos que a escola do futuro se transforme na escola do agora, do nosso presente, é preciso melhorar a formação inicial de professoras e professores. Somente assim a educação do século 21 sairá do plano abstrato para ser reconhecível no fazer cotidiano das escolas.

Bruna Nunes é coordenadora pedagógica do Recode, ONG voltada para o empoderamento digital. Com forte experiência no uso das novas tecnologias e em metodologias educomunicativas de ação socioeducativa, é especialista em Políticas Públicas Culturais pela Universidad de Barcelona, com mestrado em Ciências Sociais e doutorado em Estudos Internacionais e Interculturais, ambos realizados pela Universidad de Deusto (Bilbao-Espanha).

Fonte: http://www.arede.inf.br/reinvencao-dos-educadores/

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