A escola, o video game e o prazer

Por Marcelo Silva de Souza Ribeiro
Professor do Colegiado do Curso de Psicologia da Universidade Federal do Vale do São Francisco, doutorando em educação (UQAC).

Este trabalho é fruto de algumas experiências que perpassam a própria história de vida, enquanto testemunha de uma geração que vive o video game em suas múltiplas facetas. Essas experiências têm a ver com a condição de ser pai de crianças que exploram o video game em seus processos de descobrimentos e também na condição de professor e orientador de um projeto de pesquisa que versa sobre a questão do uso do game em uma escola de educação infantil.

Sendo assim, e de modo mais específico, a metodologia proposta e desenvolvida que resultou na elaboração deste trabalho, teve como ponto de partida a questão da experiência em testemunhar, como pai, reações e comportamentos dos meus filhos face ao video game. Além disso, teve a ver com a minha experiência de professor e orientador, interessado e envolvido nas questões educacionais, sobretudo no que diz respeito ao modo como a escola vem se apropriando e lidando com as novas tecnologias da informação, principalmente o video game.

As reflexões que fazem corpo deste trabalho, portanto, se entrelaçam numa articulação entre o modo como as crianças e as escolas vêm lidando com os videos games, trazendo um destaque para relação entre a escola e o prazer. Essas reflexões, por sua vez, pretendem possibilitar questionamentos do tipo: estariam as escolas em sintonia com o modo como as crianças lidam com os vídeos games e constroem seus conhecimentos? De que modo as escolas tem apreendido e representado o vídeo game como instrumento mediador da formação das crianças? Assim, longe de intencionar respostas precisas para tais questões, o texto visa suscitar algumas reflexões sobre o assunto.

A experiência de ser pai: testemunha de uma geração

Quando o meu filho mais velho tinha seis anos eu sempre o presenteava com algum jogo educativo. Essa era uma das minhas contribuições para sua educação, principalmente na interação com as novas
tecnologias da informação. Assim que ele recebia o CD ROM, instalava-o em meu computador e, entusiasmadamente, ele ia jogar. Ao longo de certo tempo percebi que depois de alguns dias Matheus logo deixava o jogo de lado. Eu imaginava que talvez o jogo educativo não fosse tão bom e que procuraria algo mais próprio, mais autêntico em termos de sua origem e finalidade educativa.

Quando o meu segundo filho passou a ter uma idade que permitia maturidade para interagir com o computador, herdou os CD ROMs do irmão. O fenômeno, de modo semelhante, se repetiu. Assim como seu irmão, Thiago rapidamente “enjoava” dos jogos. Nesse ínterim, cheguei a pensar que o fato de sempre estar presenteando-os com jogos educativos diferentes, estivesse contribuído para algum tipo de condicionamento, onde a perda de interesse pelo jogo que acabara de ganhar fosse o reforço.

Foi então que percebi que os dois ficavam muito mais interessados e estabeleciam uma interação mais duradoura com os jogos convencionais. Deixei de comprar jogos educativos e passei a jogar com os meus filhos no seu play station II.

A experiência de ser professor e orientador: instigantes reflexões

A experiência com os meus filhos, embora marcante, não havia sido ainda motivo de reflexão a respeito da relação entre a escola, o uso do vídeo game e o prazer. Na verdade, o ponto choque foi quando dois alunos de psicologia me procuraram para que os orientassem em um projeto de iniciação à pesquisa.

Tratava-se, na época, de idéias difusas, mas que traziam na sua base discussões sobre a pertinência dos videos games (assim ou videogames?) convencionais para o processo de desenvolvimento e aprendizagem. Fiquei impressionado com a potencialidade de todas as idéias por eles apresentadas, mas terminamos optando por desenvolver um projeto de pesquisa e intervenção, abordando a questão do “video game nas escolas”, utilizando o video game como recurso mediador para o processo de aprendizagem no âmbito da educação infantil. A partir daí, tomei contato com várias idéias de pesquisadores que trabalham a questão das novas tecnologias, como Lévy (1995), Alves (1998) e Papert (2008).

Em retrospectiva, avalio que a experiência pessoal, o trabalho acadêmico, o contato com jovens estudantes criativos e as leituras contribuíram para lançar-me instigantes reflexões sobre a atual situação da escola, ou melhor, algo que passa pela indagação de como as escolas vem se relacionando com o video game e o que tem por base dessa relação, que é a questão do prazer.

Feixes de história da educação…

O educação contemporânea, sobretudo no que se refere a educação voltada para as crianças, surgiu com os primeiros moralistas na modernidade. Após a invenção da infância, com o descobrimento de que a criança seria um ser frágil, puro e vulnerável à corrupção, passou-se a ter a necessidade de criar espaços especializados onde a sua pureza pudesse ser preservada ao máximo e o seu caráter fortalecido ao ponto de poder resistir a um “mundo sujo” e de uma moral corrompida (ARIÈS, 1995).

Esses espaços foram os primórdios das escolas e foram também graças a esses lugares que os primeiros educadores puderam lançar seus olhares aos pequenos seres, aos seus processos de desenvolvimento e aprendizagem. A ironia dessa história é que a educação surge, inicialmente, enclausurando os escolares e é justamente a partir daí que se inicia toda uma série de movimentos que visam a emancipação e autonomia destes.

Seguindo a démarche de movimentos na educação que buscaram a emancipação e autonomia, Jean-Jacques Rousseau é um dos clássicos que vão defender veementemente a necessidade de uma pedagogia onde se respeite a natureza infantil, suas especificidades, suas necessidades e ritmos, em um clima de liberdade e respeito. Ele é, provavelmente, um marco na educação no que diz respeito a idéia de que nascemos capazes de aprender, mas sem nada saber e nada conhecendo. Aliás, outros enfatizam essa perspectiva como Paulo Freire (2008) e Carl Rogers (1990), ao definirem a curiosidade ou a atualização como aprendizagem, respectivamente, como a prima (o que é prima?)da construção do conhecimento. O próprio Piaget vai ter essa consideração ao falar da correspondência entre a vida (no sentido biológico) e a inteligência, referindo-se ao processo de auto-regulação organísmica e tendência majorante.

A psicanálise, como campo de compreensão do comportamento humano, também irá influenciar a educação (e suas práticas), sobretudo no que diz respeito a ideia de desejo enquanto elemento indispensável para que o conhecimento possa ocorrer. Sendo assim, muito educadores (LOPES, 1998; MACIEL, 2001) trouxeram a influência psicanalítica e passaram propor que os processos de ensino e aprendizagem fossem vistos a partir da idéia de desejo. Em outras palavras, seria imprescindível o desejo para que a criança pudesse verdadeiramente aprender.

A escola, tal como é conhecida hoje, nasce na modernidade com uma proposta moralizadora de enclausurar os escolares e é justamente a partir daí, de maneira contraditória, que muitos avanços são possíveis em termos pedagógicos. Entretanto, alguns desses “avanços” parecem não ter se efetivado na prática. A “descoberta”, por exemplo, por parte dos educadores de que o prazer é fundamental para o processo de ensino e aprendizagem tem eco em diversas teorias, mas tem ressonância no cotidiano das escolas?

Um pouco da história atual: a educação e o video game

Nessa perspectiva não é novidade falar da necessidade da escola facilitar processos onde o estudante possa ter prazer em estudar, prazer em estar na escola e prazer em aprender. Apesar das inúmeras discussões que permeiam a questão do prazer e da escola, como as relacionadas às teorias da motivação interna e externa, as teorias instrucionistas e o inconsciente, parece ser um assunto digno de atualização, sobretudo quando se insere no contexto escolar ou no mundo infantil elementos de grande poder de interação e sedução como o video game.

Moita (2007), vai dizer a respeito das possibilidades do game o seguinte: No início deste terceiro milênio, em que a tecnologia domina todos os espaços, desde os públicos aos privados (caixas eletrônicos, aparelhos eletrônicos domésticos sofisticados como: pequenos robôs, geladeiras, microondas máquinas de lavar), os games parecem surgir como natural teachers (Gentile; Anderson, 2005), a porta de entrada para crianças e jovens, principalmente das famílias menos favorecidas, para exercitarem suas habilidades e adentrarem nesse mundo eletrônico do cotidiano.

Os games, embora com algumas semelhanças, em sua elaboração, com os jogos tradicionais, permitem, para além da possibilidade de simulação, de movimento, de efeitos sonoros em sua utilização corriqueira, uma interação com uma nova linguagem, oriunda do surgimento e do desenvolvimento das tecnologias digitais, da transformação do computador em aparato de comunicação e da transformação do computador em aparato de comunicação e da convergência das mídias. Proporciona, assim, novas formas de sentir, pensar, agir e interagir (p.21).

Os recursos e possibilidades dos videos games vêm sendo utilizados em vários campos, que não somente o já conhecido campo do entretenimento. Eles estão sendo utilizados no tratamento de doenças, na atenuação de dores (em momentos onde o paciente tem que ser submetido a procedimentos dolorosos) e em tratamentos psicológicos, sobretudo na terapia para fobia.

Do ponto de vista teórico, o video game vem sendo estudado como recurso propiciador de desenvolvimento cognitivo e sócio-afetivo (estudos sobre o seconde life, entre outros). Além disso, o video game também vem sendo incorporado pela educação e chega até a escola através, sobretudo, dos mais variados jogos educativos.

A grande questão que se coloca no modo como o video game chega até a escola, ou melhor, como ele é apropriado pela educação e aterriza nas escolas é que ele chega, comumente, sem o prazer. Ele parece chegar carregado de elementos moralizadores com reprimendas, proibições e préconceitos.

De modo geral, alguns games educativos permitidos de serem trabalhados nas escolas são considerados pelas crianças como demasiadamente desinteressantes, pouco atrativos e enfadonhos. Ao contrário, é comum, por exemplo, constatar o modo como as crianças se relacionam com os convencionais games, em êxtase, frenesi e grande ansiedade para jogar, para ultrapassar os obstáculos, para vencer os inimigos e para ganhar as apostas. Em outras palavras, com aparente prazer.

Sendo assim, as crianças são capazes de ficarem horas e horas completamente entretidas e, nessa relação, são capazes de construir habilidades psicomotoras, cognitivas e aprender, velozmente, uma série de conteúdos que vão desde as regras dos jogos (muitas vezes complexos), passando pelas longas histórias que antecedem os jogos (que são uma espécie de prefácio onde se explica e contextualiza a história do jogo) até o aprendizado de outras línguas.

Por outro lado, via de regra, os jogos educativos (considerados “oficiais”) rapidamente saturam o interesse das crianças. Parece que são chatos e sem muito atrativo para os meninos e meninas que interagem com eles. É possível, inclusive, pensar que os jogos educativos seriam uma espécie de video games deserotizados. Daí, outra questão que se coloca é: por que parece haver na educação e no campo escolar uma tendência a retirar o prazer das ações e práticas vivenciadas pelos estudantes, apesar das teorias insistirem no poder do prazer para os próprios processos educativos?

A partir do que foi posto, podemos indagar como um universo de possibilidades de aprendizagem, que são essas tecnologias, como os vídeos games, tornaram-se desvalorizadas, sobretudo para a educação? Se podem influenciar no desenvolvimento de várias formas, por que, inserida no ambiente educacional, se tornou apenas uma mera extensão do sistema educacional, reproduzindo a falta de sentido entre o aprender e o prazer?

Para Alves (2003), a utilização de software reduzido a ele mesmo empobrece a prática pedagógica e limita o caráter exploratório tornando essas tecnologias chatas e por isso, desinteressantes. A autora alerta que é preciso rever toda a noção e abordagem de como as novas tecnologias têm sido manejadas no decorrer dos anos.

Até onde podemos constatar há, relativamente, poucos trabalhos, sobretudo no contexto nacional, sobre a utilização do video game como um instrumento que contribui para a aprendizagem e o desenvolvimento global da criança em um espaço educacional.

Podemos inferir, portanto, que pesquisas sobre a questão do video game, entendido como instrumento e em situação de mediação, pode contribuir para alargar compreensões do processo de aprendizagem e desenvolvimento, sobretudo em uma relação prazerosa. Por outro lado, uma série de questões são ainda postas. Vejamos a seguir.

Seriam as escolas e, mais especificamente, os espaços da sala aula impregnados muito mais de relações coercitivas, punitivas e castradoras do que possa imaginar a suposta ingênua visão do senso comum, como apontada por Jackson (2001)? Ou haveria abertura e ainda falta de oportunidade para as escolas se apropriarem de ações e atividades onde, efetivamente, o prazer pudesse estar presente de maneira natural nos processos educativos vividos pelos professores e estudantes? As escolas seriam espaços irremediáveis de não libertação e a serviço da domesticação? Ou dependeria muito do processo histórico e do poder de saber fazer uma pedagogia para libertação, como a apontada por Freire (2008)?

Longe de buscar responder de maneira precisa essas perguntas, até porque outras possibilidades e indagações certamente existem, o que nos interessa enquanto provocação é refletir sobre a absorção de práticas, e aqui mais especificamente, do video game com toda sua potencialidade criativa e de prazer no âmbito escolar e a serviço da escola, mas sem perder de vista o interesse, a alegria, o entusiasmo e o prazer que as crianças sentem ao interagir com o video game.

A guisa de uma meia conclusão: a experiência do projeto video game nas escolas

O projeto de iniciação à pesquisa sobre a utilização do video game na escola, como recurso para potencializar a aprendizagem e o desenvolvimento, tem sido uma experiência bastante rica em termos de possibilidades de ação e reflexão. A experiência da pesquisa vem sendo desenvolvida em uma escola de educação infantil da rede municipal da cidade de Petrolina – PE, envolvendo crianças na faixa etária de 5 (cinco) a 7 (sete) anos.

O critério de seleção das crianças passa pela indicação dos próprios professores tendo por base algumas dificuldades de aprendizagem. O trabalho já vem sendo realizado há 2 (dois) anos e, atualmente, trabalha-se com um total de 12 (doze) crianças. Estas são divididas em grupos de 3 (três) ou 4 (quatro) crianças e as sessões acontecem uma vez por semana.

O trabalho consiste em disponibilizar um video game (modelo PS2), aparelho de televisão e os próprios jogos. Estes são selecionados previamente, tomando como critério a adequação a certas habilidades e dificuldades observadas nos grupos das crianças. Estas, então, são convidadas a jogar e nesse processo os orientandos interagem e fazem intervenções em relação ao próprio ato de jogar, mas buscando sempre relacionar com os níveis de desenvolvimento e aprendizagem das crianças.

Um exemplo do que acabemos de abordar é quando a criança que chega com dificuldades de lateralidade e que movimenta o controle de modo espelhado é mediada de modo a assimilar outro tipo de relação entre os movimentos na tela e os que ela opera no controle. Assim, trabalham-se questões relacionadas aos aspectos cognitivos, mas também sociais e afetivos. A questão do limite é outro exemplo. Quando uma criança “perde” a partida tem que passar o controle para o outro colega e nem sempre isso é evidente. Há regras estabelecidas, há questionamento a respeito dos personagens escolhidos e das tarefas a serem executadas durante as jogadas, há descobertas feitas entre as próprias crianças, etc.

Para mensurar o desenvolvimento é feita uma avaliação com as crianças, entrevistas com os pais e professores. Faz-se uso também de uma tabela de acompanhamento do desenvolvimento da criança, de modo que tudo isso permite apresentar um quadro evolutivo. Ainda existem muitos pontos a serem explorados e experimentados nesse tipo de pesquisa, mas já é possível afirmar que há lacunas na utilização do video game nas escolas, sobretudo em relação aos games comerciais. De modo semelhante, podemos também afirmar que várias dificuldades foram e estão sendo encontradas na utilização desse recurso como facilitador do desenvolvimento dos alunos, sobretudo das crianças em educação infantil.

Assim, temos observado uma série de pré-conceitos que rondam a questão da incorporação do video game nas escolas. O que parece ser permitido e que não provoca “sustos” aos educadores é o jogo educativo, aquele que chamamos de “deserotizados”. Entretanto, quando é mencionado o jogo convencional, o video game, percebemos certo espanto na face das professoras. Não incomum, somos questionados se utilizamos “aqueles jogos violentos”. E para escândalo, balançamos a cabeça acenando positivamente (com um leve e discreto sorriso sarcástico).

O que queremos frisar é a pergunta que insiste em permanecer de maneira indignada: educação não rimaria com prazer? A partir das nossas próprias experiências e o que temos encontrado nos estudos consultados é que sim. Tudo aquilo que desperta a curiosidade e atenção das crianças pode ser fonte e recurso positivo para a escola aproveitar como meio educativo. É lógico que não estamos falando de uma tendência contemporânea de buscar sempre aquilo que é mais fácil, na beira de um modismo que é avesso ao esforço. Na verdade, o prazer, a curiosidade, nos leva a transpor montanhas, dificuldades e porque não dizer, as limitações do próprio modelo de escola que existe hoje.

Finalmente, nessas andanças que estão sendo suscitadas pela experiência e reflexão que levam em consideração a tríade escola, video game e prazer, expomos o questionamento de por que não incorporar os vídeo games como recursos, mediadores e facilitadores para os processos de desenvolvimento e aprendizagem no âmbito das escolas?

A questão posta no parágrafo anterior parece suscitar algumas reflexões, objetivo deste trabalho, que levam, por sua vez, a pensar o papel da escola e como esta vem se apropriando das novas tecnologias. Entretanto, também nos parece que a escola não só tem tido modos particulares de se apropriar das novas tecnologias e, mais especificamente, dos games, mas também tende a incorporar certo modo de lidar com o prazer, com o lúdico, em seus espaços.

Com certa obviedade, este trabalho trás limitações no que diz respeito a possibilidade de explorar temas tão complexos como a questão do prazer nos ambientes escolares, mas tende a apontar e provocar compreensões e, porque não, incômodos reflexivos a respeito da relação entre a escola, o video game e o prazer.

Esperamos, portanto, ter contribuído, mesmo que de maneira modesta, para provocar algumas reflexões acerca da pertinência do prazer na escola, sobretudo no que diz respeito à utilização do vídeo game convencional como instrumento potente para desencadear o prazer de aprender. Talvez o game, com toda sua “magia” de modernidade, do novo, possa resgatar algumas reflexões daquilo que a escola tenha perdido em seu passado, ou seja, a conexão entre o ensino e o prazer.

É certo que, entendido como instrumento em si, o video game nada poderá garantir. Há que se valer de processos competentes de mediação, sabendo dispor o vídeo game a serviço dos processos educativos e escolares, mas sem perder de vista a necessidade de não deserotizá-lo.

Fonte: http://migre.me/25VYI

A Evolução do Conhecimento

por Luiz de Paiva

Como evolui o conhecimento de uma pessoa? Por quais etapas passa o aprendizado?

Lendo o blog Project Management 4 Kids, vi um conceito muito simples e interessante que mostra como devemos evoluir nosso conhecimento, e porque não devemos ser egoístas com o ativo intelectual que possuímos. Vou explicar aqui o conceito, adaptado a como eu vejo esta evolução.

Basicamente, a aquisição de conhecimento tem 3 fases principais:

Aprendizado

Fase na qual o conhecimento é adquirido através do estudo da teoria, seja através de livros, cursos, terceiros ou qualquer outra fonte de referência. Nesta etapa da aquisição de conhecimento, ainda há pouca aplicação prática dos conceitos.

Aplicação

A segunda fase da aquisição de conhecimento é aquela na qual a teoria aprendida é aplicada na prática. Nesta etapa, a pessoa passa a entender como a teoria funciona no mundo real, e como obter resultados concretos de sua aplicação.

Compartilhamento

Finalmente, a pessoa que domina a teoria e suas aplicações práticas, passa a compartilhar o conhecimento com outros, seja através de aulas formais, produção de artigos e livros, publicação de blogs, etc.

No contexto destas fases, é importante ressaltar que cada uma, isoladamente, é limitada. Em outras palavras, uma pessoa pode se debruçar por anos em livros sobre um tema específico, mas a partir de um certo ponto seu conhecimento não evoluirá, já que não está aplicando os conceitos na prática.

Da mesma forma, um profissional com décadas de experiência pode ter um avançado conhecimento sobre determinado tema, mas ainda assim seu conhecimento só evoluirá se ele começar a compartilhá-lo. Resumindo, para o melhor aproveitamento do conhecimento, a sequência de fases deve ser seguida.

Por isso, compartilhar conhecimento vai muito além do fato de ser egoísta ou não. A estrutura mental que você precisa desenvolver para ensinar um determinado tema a outra pessoa lhe ajuda a reforçar os conceitos e evoluir ainda mais seu conhecimento.

Podemos simular também o aproveitamento de cada fase com o seguinte gráfico:

Este gráfico mostra que o grau de conhecimento tende a estancar depois de um certo tempo se a pessoa não passa para a próxima fase, e que é importante saber o momento para saltar de fase. Também nos diz que, mesmo que a prioridade seja reduzida, as primeiras fazes não somem – por exemplo, mesmo um profissional muito experiente que compartilha seu conhecimento deve continuar aprendendo coisas novas da teoria.

Como profissionais devemos colocar cada área de conhecimento que queremos dominar em um ponto nestas curvas, para saber onde devemos concentrar os esforços. O ideal é não pular fases, e se sabemos aonde estamos, conseguiremos definir um plano de aquisição de conhecimento que seja mais produtivo.

Fonte: http://ogerente.com/congestionado/2009/05/18/teoria-conhecimento/

WebQuest: Aprendendo com pesquisa

sobre Educação Por Lúcia Serafim
maluserafim@gmail.com

Frente ao cenário que hoje se apresenta envolto em recentes tecnologias digitais, cabe à educação trabalhar na perspectiva de favorecer aprendizagens que ajudem o aprendiz a desenvolver a capacidade de colocar e resolver problemas, de promover o desabrochar da inteligência, de exercitar a curiosidade e explorar a dúvida, como condição ao acerto, possibilitar a discussão, a previsão, a desenvoltura, a atenção rigorosa, o senso ético e também de oportunidade. Neste mover rompem-se limites que separam as disciplinas e através da circulação de conceitos e olhares, novos esquemas cognitivos se estruturam na diversidade de conexões. Interdisciplinar pode significar troca, parceria e cooperação em torno de um projeto. Como afirma Morin (1996, p.136):

As novas tecnologias digitais têm o potencial de oferecer novos olhares, novas formas de acessar a informação, novos estilos de pensar e raciocinar. Surgem novas maneiras de processar a construção do conhecimento e criar redes de saberes, que podem gerar novos ambientes de aprendizagem. Ambientes cognitivos abertos à compreensão do ser humano em sua multidimensionalidade , como um ser indiviso em sua totalidade, com seus diferentes estilos de aprendizagem e suas distintas formas de resolver problemas.

Diante das reflexões realizadas é que se situa a necessidade de novas expressões na prática pedagógica de professores, quando também a estes se possibilita condições de aprendizagem para que possam analisar e rever a prática, num exercício de práxis. E neste sentido, parto de crenças de que estes ao se apropriarem de situações didáticas inserindo dispositivos potencializadores de aprendizagem com tecnologias e ferramentas de aprendizagem disponíveis na Web, estas possibilidades poderão fazer parte dos planejamentos e decisões dos docentes em suas construções cotidianas para aplicação com seus alunos nas diversas séries e níveis.

E neste desencadear de conhecimentos sugiro uma metodologia conhecida como WebQuest que foi apresentada como possibilidade metodológica que orienta o trabalho de pesquisa utilizando os recursos da Internet. Metodologia, estudada, desenvolvida e disponibilizada por Bernie Dodge, Educational Technology, San Diego State Universit em 1995, e disseminada no Brasil por Jarbas Novelino Barato. No site do Projeto WebQuest – Escola do Futuro – USP, ela é definida como:

[…] modelo extremamente simples e rico para dimensionar usos educacionais da Web, com fundamento em aprendizagem cooperativa e processos investigativos na construção do saber. Foi proposto por Bernie Dodge em 1995 e hoje já conta com mais de dez mil páginas na Web, com propostas de educadores de diversas partes do mundo (EUA, Canadá, Islândia, Austrália, Portugal, Brasil, Holanda, entre outros).

Assim ao constituir aprendizagens com os alunos inserindo variadas atividades pedagógicas mediadas por tecnologias digitais é possível enriquecer os aspectos da interdisciplinaridade e o currículo.Nesta metodologia o professor sistematiza, reestrutura e compartilha suas aulas configurando uma produção de conhecimento investigativo, que aguça e orienta a pesquisa do aluno porque o professor primeiro navega na rede pelas indicações que fará para os alunos.

Neste contexto de uso crítico de metodologias inovadoras com tecnologias digitais na prática docente, acredita-se também que os professores que atuam diretamente com os cursos superiores que se propõem a formar professores licenciados em qualquer área do conhecimento também devam assim como os da Educação Básica encarnar convicções como co-responsáveis que são no processo de formação das pessoas, de que a inserção e vivência destes novos saberes – fazeres na construção de significado de aprendizagem dos alunos permite que se crie condições para que a aprendizagem ocorra, utilizando os recursos de interação e pesquisa disponíveis o na Internet de forma colaborativa.

Surgimento e importância da Webquest na prática docente

No ano de 1995, é criado um novo conceito que consiste numa abordagem à organização de conteúdos web no contexto do ensino. Esse novo método foi chamado de WebQuest – criado pelos professores Bernie Dodge e Tom March, na San Diego State University, Estados Unidos – em que “Web” significa rede e se refere à World Wide Web e “Quest” quer dizer pesquisa, exploração ou busca.

A proposta da WebQuest parte da criação de sites, que eu sugiro também slides ou blogs com atividades orientadas para a pesquisa em que toda e qualquer informação encontrada na Internet, promoveria no aluno o desenvolvimento e a capacidade de resolver problemas e motivar a aprendizagem, envolvendo a interdisciplinaridade com as disciplinas adotadas tradicionalmente nas escolas. Além da Internet, pode-se usar também outros meios de comunicação como o email, fóruns, groups, entre outros. A proposta é que as atividades sejam baseadas na investigação, de forma que os conteúdos encontrados na Internet sejam explorados de forma orientada, em que o professor organiza e estrutura em condição, modo de desafio no qual deve ser solucionado pelos alunos.

Esse desafio deve anexar propostas de extensão da investigação, como a produção de um texto sobre o tema estudado, construção de blogs, slides, sobre os resultados obtidos através dos estudos feitos usando a WebQuest, dentre outros. Além disso, possibilita uma racionalização da utilização dos recursos da Internet, tornando o processo de pesquisa menos cansativo e mais produtivo. Portanto, a WebQuest extrai o melhor das possibilidades de pesquisa, indicando fontes mais adequadas a determinadas matérias, contextualizando-as e orientando a aprendizagem das mesmas.

É cada vez maior o número de WebQuests criadas por professores e alunos. Já foram criados mais de 10 mil em todo o mundo. Do ponto de vista construtivista, esta metodologia tem permitido que algumas das concepções que regem o construcionismo sejam cumpridas como a interatividade, onde o aluno tem o papel principal na construção do conhecimento; o respeito ao universo de cada aluno no processo de abstração do conhecimento, sabendo que cada indivíduo tem processo de aprendizado diversificado; como também tem sido permitido uma melhor aproximação do aprendiz com o computador, através de simulações de situações da vida real, colocando-o em experiências de aplicação e/ou teste de seus conhecimentos.

A webQuest é uma ferramenta intelectual, não física, nem de computação. Uma pessoa que conhece muitos recursos para construir páginas na web vai usá-los. Quem conhece pouco vai fazer uma página mais simples, mas o mais importante é a concepção educacional. A parte de informática fica em segundo plano, não é o foco do trabalho. (Barato, 2004)

De acordo com Bernie Dodge, a WebQuest foi desenvolvida de modo que o docente abrace essa ação didática como aprendizagem colaborativa de outros saberes desenvolvidos em sala, facilitando o pensar crítico e a integração das tecnologias numa perspectiva de criação do saber; permitindo ao aluno envolver-se em níveis que facilitem o desenvolvimento de pensamentos cada vez mais aprimorados, através da comparação, formulação de hipóteses para que, finalmente, pesquise uma solução viável para o problema sem que haja simplesmente a memorização do conteúdo, valorizando a construção do conhecimento através de um processo evolutivo, estimulando a capacidade de análise, síntese e de pesquisa.

Fonte: http://www.algosobre.com.br/educacao/webquest-aprendendo-com-pesquisa.html

Role-Playing Game e Educação

sobre Educação Por Robson Moura
profrobsonmou@yahoo.com.br

Origem:

Uma nova forma de diversão chega as telas de computadores e promete até mediações de sua aplicabilidade no processo ensino-aprendizagem. Será? Será uma novidade que auxiliará o processo educativo? É O Sistema de diversão conhecido como RPG, que significa Role-Playing Game, pelo fato de usar e abusar da capacidade de Interpretação de Personagens variadas em diversos mundos, do uso da Imaginação do jogador e sua habilidade de criar estratégias para sobreviver num mundo de aventuras e superação dos obstáculos observando as regras descritas para cada mundo escolhido. Segundo Alexandre Sugamosto e Silva, Christian Brenner e Tiago Schiavon , 2007. p.38:

“…é uma diversão que vem conquistando adeptos e admiradores em todas as partes do mundo. Consiste basicamente em um jogo de representação no qual os participantes são conduzidos por um narrador (o mestre) para novos mundos, realidades diversas e paisagens transfiguradas.”

Surgiu em 1974 com o jogo criado por Gary Gygax da TSR/USA, Dungeons & Dragons que em português significa –Masmorras e Dragões. Ponto inicial para torná-lo inovador. No Brasil chegou tardiamente a partir da década de 80, com seus adeptos xerocando produções sobre RPG. Em 1991 aparece o primeiro RPG do Brasil Tagmar – acusado de cópia do Dungeons & Dragons, com ambientes dos livros de J.R.R Tolkien. Apresenta uma diversidade incrível como cita Alexandre Sugamosto e Silva, Christian Brenner e Tiago Schiavon , 2007. p.38:

“Existem diversas modalidades de RPG. A mais tradicional e com maior número de adeptos no Brasil é o RPG de mesa. É jogado com um livro básico de instruções, planilhas de personagem, dados, canetas e uma boa dose de criatividade.Cada jogador representa um personagem, ou PC, que dentro do enredo da aventura tem sempre o irrevogável direito de optar: um dragão apareceu na sua frente – diz o mestre – o que você faz? Correr, saltar, fugir, gritar? São infinitas as opções. Cada opção, por sua vez, gera uma reação equivalente. Você quer enfrentar o dragão?”

O RPG chegou para ficar com seu poder de transformação e adaptação aos variados ambientes de aplicação, vem ampliando suas modalidades conforme o Site RPG Online apresenta:

Quais as outras formas de se jogar RPG…? Já que é algo tão amplo, é claro que existem variações da sua prática:

  • Se o RPG de mesa – narrador, jogadores, livros, regras e dados – é o equilíbrio entre o teatro e os jogos de regras, as variações surgem quando tal mistura ganha mais influência de alguma das partes.
  • Pegue o RPG. Agora adicione à ele mais interpretação e reduza a importância das regras, trazendo ele para mais próximo do teatro. Assim teremos os Live Actions – em bom português, “Ação ao Vivo”. Cada jogador representa seu personagem exatamente como um ator o representaria, incluindo possíveis roupas e acessórios para enriquecer o ato teatral. Como geralmente um Live Action se parece mais com uma festa à fantasia, eles são realizados em lugares mais reservados, distantes do público. Além disso, esses eventos realmente se parecem com uma festa, pois como o trabalho do narrador chega a ficar mais simples – lembrem-se, as regras são mais simples – é comum ter um grande número de jogadores e mais do que um narrador – Uma medida boa, é um narrador para cada 10 ou 20 jogadores. Para aumentar ainda mais o dinamismo do Live Action, os dados do RPG de mesa são substituídos por cartas de baralho, par ou ímpar, pedra-papel-tesoura, ou qualquer outra maneira rápida de decidir o sucesso de uma ação. Pra finalizar, um Live Action possui uma regra muito importante: o toque é proibido. O toque é narrado, pois tocar seu adversário de verdade pode gerar brigas – um jogador mais exaltado poderia aplicar força e machucar de verdade seu adversário.
  • Agora pegue o RPG novamente mas adicione desta vez, mais e mais regras e reduza a interpretação. Assim teremos os RPGs Eletrônicos, sejam eles de videogame ou computador. A base inicial dos RPGs Eletrônicos foi inspirada no sistema D20, de Dungeons & Dragons, onde temos atributos como HP, MP, Level, experiência, entre outros. Quando dizemos pra reduzir a interpretação, na verdade por parte do jogador, ela é praticamente nula se limitando à tomadas de decisão. A interpretação se resume ao personagem, com atitudes previamente programadas. Alguns jogadores mais clássicos não aceitam o RPG Eletrônico como forma de RPG, por não haver interpretação, porém é uma forma fácil de começar a se acostumar com este universo, pois não é preciso conciliar tempo livre de um grupo inteiro de jogadores;
  • Se adicionarmos estratégia à esta fórmula chegaremos no RTS, sigla para Real Time Strategy. Esses jogos são facilmente reconhecidos pela fórmula: coleta recursos, constróem uma cidade, prepara um exército e parte para o ataque. A maioria das pessoas julga este derivado do RPG como algo mais limitado, mas é necessário compreender que o foco aqui é outro. Também podemos ter aqui atributos básicos como por exemplo. HP, MP, Level, e uma história de fundo para dar o clima à aventura;
  • Se alguém levar o RPG Eletrônico para a internet, e permitir que vários jogadores coexistam em mesmo mundo, teremos o MMORPG, sigla de Massive Multiplayer Online Role Playing Game – ou de algumas variantes, como Multi Massive Online Role Playing Game por exemplo – um formato de sucesso que movimenta milhões de dólares pelo mundo afora. Nele não existe um herói ou grupo de heróis principais como nas outras formas de RPG, pois aqui todos são igualmente importantes, sendo diferenciados no máximo em uma hierarquia sobre o level e experiência – adquiridos no decorrer do jogo. Geralmente jogadores com level alto podem criar uma guilda, ou clã – onde abrigará jogadores novatos sob sua proteção.”.

Objetivos:

Jogar com teatralização;

  • Os atores decoram seu script;
  • Script – conjunto de ações, gestos, falas…;
  • Interpretação das personagens de ficção;
  • Ter capacidade de seguir um enredo pré-definido pelo autor;
  • Tomar decisões ilimitadas, mas conhecer regras;
  • Reunir um grupo de Jogadores, partilhando papéis como: “narrador” ou “mestre” e os demais simplesmente “jogadores”com suas “personagens”;
  • Fazer uma Ficha de Dados das Personagens como: força, resistência, inteligência, detalhes sobre a personalidade, perícias, entre outros.
  • Conhecer História para contextualizar o jogo.

Quais as formas usuais de utilização?

No momento para a diversão, como jogo propriamente. Mas alguns educadores estão tentando aplicá-lo em educação.

Como jogo: O narrador orientará os jogadores obedecendo às regras para o período escolhido com todos os dados da personagem. Prepara-se o ambiente da aventura com informações de fatos ocorridos até o momento do início do jogo, definindo assim o objetivo básico daquela aventura.

Agora é à hora da imaginação, a ficção ganha forma, tudo é comunicado e ocorre de acordo com sua viabilidade e dependendo dos dados de cada um.
Para se jogar precisamos dos dados numéricos de várias faces, não se limitando aos convencionais. Existem até com 12 faces. Não há limite de jogadores. Existem narradores que chegam controlar muitas personagens recebendo a sigla NPCNon – Player Character. Podem enriquecer a história, atrapalhar a todos, ou ser adversário.

O narrador nunca tem controle total da história, cada sessão é única, não se sabe as decisões que serão tomadas no decorrer do jogo. Com o jogo os aumentos de pontos e experiências que encontramos nos demais jogos, aí a partida pega fogo.

Quem já utilizou em educação? Exemplos?

Não conheço quem já utilizou e possa estar usando o RPG no processo educativo, mas há possibilidade fazendo SOS temas das aventuras terem relação com um determinado período histórico real, onde os narradores seriam os professores e uma turma inteira de alunos com suas personagens de época na história que seriam figuras importantes para proclamação da República por exemplo. Imaginem a interação como seria grandiosa e o aprendizado também. Na biologia, o professor narrador criaria com os alunos suas fichas como partes do organismo humano, estabelecendo regras de funcionamento dos órgãos. Na química as fichas ficariam constituídas de elementos e ocorreriam ligações, explosões nucleares quando fissões ocorrerem, ou descobertas maravilhosas de uma infinidade de produtos. O RPG não é doença contagiosa que não possa ser usado como recurso em sala de aula. Mas terá grande reação pelos tradicionalistas com suas fichas amareladas, que vencem gerações.

Quem está usando em educação?

Foi criada uma proposta de mudança radical quando grupo do Teatro Mitológico Despertar de Sugamosto, Brenner e Schiavon. Resolveram empregar o RPG para ajudar no processo de desenvolvimento humano, englobando desde os cinco sentidos até a capacidade de simbolização pelo ato da linguagem que exclusiva do ser humano. Para os criadores Alexandre Sugamosto e Silva, Christian Brenner e Tiago Schiavon, 2007. p.41:
“O Teatro Mitológico Despertar (Desenvolvimento Simbólico-Pessoal Relacionado à temática da Aventura de Representação) tem como criadores três jovens estudiosos em psicologia, filosofia, artes cênicas, lingüística e RPG.” Os três autores acima.

Limitações/críticas:

  • Enquanto Jogo, a fichas de cartas de monstros, criaturas e poções;
  • Ser encarado como um mero passatempo;
  • Como jogo de cartas, quebra-se a capacidade de interpretação e não desenvolve o raciocínio abstrato;
  • Alguns consideram um jogo idiota;

Potencialidades e inovação:

  • Levar o homem ao reencontro com suas potencialidades e as aventuras épicas a muito esquecidas, os feitos heróicos e lendários;
  • Acabar com o conflito entre transcendência, heroísmo e realidade;
  • Propicia uma relação inconsciente do jovem com o seu poder interior, criativo e interativo oculto;
  • Levar ao entendimento do conflito entre Sociedade X universo Mítico;

Pode promover a modernização ou mudança na educação?

Ao apresentar os temas das aventuras de forma didática, o professor pode criar uma nova visão da história, da biologia, da química, da literatura e outras disciplinas. Mas é responsabilidade, com propostas de predefinidas, para que tudo fique marcado na mente do educando/jogador. Existem ações que ficam semanas na mente do jogador, às vezes, ele não as esquece nunca. Toda tecnologia ministrada de forma dinâmica, simples e completa. Como instrumento para complementar o processo ensino-aprendizagem, com certeza vai valorizar essa nova relação Professor X Aluno (Mestre X Jogador).
Eis acima o Pequeno Dicionário de RPG apresentado por Alexandre Sugamosto e Silva, Christian Brenner e Tiago Schiavon , 2007. p.40.

Referência Bibliográfica:

Fonte: http://www.algosobre.com.br/educacao/role-playing-game-e-educacao.html

Geração Y e os estilos de aprendizagem

por Michele Schmitz
Twitter: @micheleschmitz

Café? Puro, com açúcar ou adoçante? Se você aprecia café puro, que expressão faz ao beber um bem adocicado? E o contrário, quem está acostumado ao café com açúcar ou adoçante, que sensação tem ao experimentar um café puro?


Isso é apenas uma provocação simples, para evidenciar que até mesmo em nossas opções de cafés, quando estas não atendem nossas peculiares características, nos causam sensações desagradáveis.

E o que isso tem a ver com estilos de aprendizagem? Ora, a resposta parece óbvia e, talvez, senso comum: aprendemos de maneiras diferentes. Sim, epistemologicamente isso já foi evidenciado há muito tempo. Eis que agora, a Geração Y vem confirmar que não é possível mais crer que todos aprendem da mesma forma e oferecer estratégias didáticas que não respeitem este pressuposto para uma classe, seja em qualquer nível de ensino, faixa etária.

Alguns aprendem mais em atividades em grupos, outros individualmente. Escrever e fazer exercícios sobre assuntos em estudo pode ser o estilo de aprendizagem de alguns, sendo que outros necessitam interagir, experimentar, comunicar, testar suas hipóteses de diversas maneiras e criar soluções.

Em pensar que há pouco tempo acreditava-se que todos aprendiam da mesma forma, em mesmos ritmos e tempos, linearmente em processos de ouvir, copiar, fazer exercícios de compreensão, exercícios de fixação e finalmente “provar” que aprendeu em testes e provas.

O nível de exigência cognitiva era tão pouco complexo, que algumas questões que “caíam” nas provas eram idênticas as realizadas nos exercícios em classe.

Sem dúvida, os objetivos do ensino eram transmissão de informação, memorização e fixação de conteúdos. As respostas de por que esse modelo de educação não é mais adequado, dispensa esforços. Era apropriado ao contexto, à geração em tempos pré Revolução Industrial.

Por outro lado, a Geração Y, expressão denominada aos que nasceram a partir da década de 80, vem certificar que temos diferentes estilos de aprendizagem e nos ajuda a entender e criar as mudanças urgentemente necessárias em como ensinar neste novo contexto.

Dentre tantas, cito algumas características inerentes desta geração, as quais são fundamentais serem consideradas:

1) necessidade de aprender a partir de desafios reais, na busca de soluções inovadoras;
2) multitarefas;
3) engajados;
4) questionadores e
5) colaborativos, aprendem em redes.

Em suma, aprendemos de formas diferenciadas, temos habilidades e competências distintas, que precisam ser respeitadas, valorizadas e estimuladas.

Se nos causa sensação desagradável beber um café que contraria nossos paladares, imagina sermos forçados a aprendermos com métodos que não respeitem nossos estilos próprios de desenvolvimento. A Geração Y vem colaborar fenomenalmente alavancando um novo ensinar, para um novo aprender. Mas é fato: profissionais da educação têm expectativas com “eles” e “eles” também têm as suas com os profissionais da educação. A Gabi e o Rafinha nos ajudam a visualizar as características desta geração.

Fonte: http://www.tfedu.com.br/blog/Lists/Posts/Post.aspx?ID=9

Tudo o que você usa você realmente precisa?


Olá Amigos

Depois de vários dias com problema de conexão (Oi #fail), estou de volta ao mundo virtual. Não que a estada no mundo real não tenha tido os seus momentos maravilhosos como a primeira comunhão da minha filha, um tempo em casa vendo filmes com a família e promovendo debates entre a gente sobre qual foi o melhor filme visto no dia (coisa de família cinéfila).

Mas o que me deixou principalmente feliz foi ler os meus emails e ver o meu amigo Sergio Lima (@ticseducacao) a toda, na sua plena acidez critica e o bom humor fantástico que lhe é peculiar. Deparo-me com perolas dele como: Usar #twitter para travar debates/discussões é como fazer sexo em pé na escada! coisa que gente de nossa idade não pode fazer com freqüência pois corre o risco de ficar travado na posição ai seria deveras constrangedor.
E a outra foi uma postagem, que está abaixo, falando sobre o NING intitulada: 3 lições que os professores podem aprender com o NING que eu recomendo com louvor a leitura, pois além de trazer alternativas para o NING abre e propõe uma discussão saudável sobre o uso das ferramentas e suas aplicações educacionais ou não.

O Sergio Lima (@ticseducacao) e eu nascemos sobre a luz Jedi da força, mas ele a exercita ao limite com relação ao twitter e a filosofia do menos e mais do qual eu admiro suas propostas e sua base de razões propostas por ele no debate. Com base nesse material eu pergunto a você: Tudo o que você usa você realmente precisa?

Abraços

Equipe NTE Itaperuna

3 lições que os professores podem aprender com o NING

Introdução

Como todos já devem saber, o NING pretende mudar seu modelo de negócios e, possivelmente, acabar com todas as contas gratuitas. Além de todo chororô e alvoroço, professores que tem redes no NING já começam a pensar em alternativas. Alguns colegas já botaram o pé na estrada e começaram a desbravar as alternativas:

Como se pode ver, o problema nem será tanto as alternativas, mas eventualmente o trabalho que se poderá ter para se efetuar a migração de dados e usuários do NING para a nova plataforma escolhida.

Enquanto o momento desta eventual migração não chega, que tal os professores que têm criado suas redes sociais para fins educacionais pensarem um pouco que lições podem tirar deste episódio?

As Três Lições

Lição #1 – Preciso mesmo desta tecnologia?

Tudo aquilo que é simples, fácil e gratuito se torna tentador e, via de regra, professores (e profissionais de um modo geral) tem a mania de achar que “mais é mais” em educação (e em todas as áreas). Mas não é!

Tem redes no NING para 1 turma, para grupos de estudo (pequenos), para eventos isolados e etc… O que proponho para a reflexão é: uma plataforma de interação e produção de conteúdos, como o NING e suas alternativas, não seria um “tiro de canhão para se matar uma mosca” para uma grande parte das necessidades de professores ou grupos de aprendentes?

Não seria possível criar um ambiente de interação, conversações e produção coletiva de conhecimento e/ou conteúdo usando apenas um blogue?

Lição #2 – A plataforma que escolhi facilita migrações futuras?

Muita, mas muita gente boa de educação (e fora dela) acha que o fato de algo ser gratuito é condição suficiente para se adotar como solução tecnológica.

Não consideram o fato, importantíssimo, de que se a tecnologia usa padrões fechados e/ou proprietários você está entrando num aprisionamento tecnológico.

Quaisquer que sejam os objetivos educacionais, que tenham como horizonte o médio e longo prazo, deve-se olhar atentamente se a solução adotada permitirá, caso seja necessário, uma migração para outra solução sem impossibilidades técnicas.

Isto só é possível com soluções e/ou tecnologias que utilizem padrões abertos, documentados e livres!

Se você resolver migrar sua rede do NING para outra plataforma correlata, procure observar com atenção este detalhe.

Lição #3 – Soluções gratuitas são adequadas para o longo prazo?

Como eu já disse antes:

Embora “peopleware” e pedagogia sejam mais determinantes que a tecnologia em si, como veremos a seguir, a escolha da ferramenta adequada nos poupará trabalho e nos permitirá gastar tutano nas coisas que realmente são as mais importantes: Criar Comunidades de Aprendizagem em torno de uma plataforma.

A maior parte de nós professores já temos muitas tarefas a realizar na tentativa de construir práticas educativas adequadas ao nosso contexto educacional e eficazes para que os alunos aprendam e, mais importante de tudo, aprendam como se aprende.

É natural que escolhamos, num primeiro momento, plataformas gratuitas e simples para as nossas experiências de construção/animação de comunidades de aprendizagem. Mas, na medida que vislumbramos um caminho a seguir (e, em educação, será sempre de médio e longo prazo!) precisamos refletir se soluções gratuitas não contribuirão para que a produção de nossa comunidade fique dispersa na rede no médio e longo prazo.

Não valerá a pena, para um horizonte de médio e longo prazo, se pensar em um domínio próprio e um maior controle da produção da sua comunidade de aprendizagem?

Mesmo que individualmente você não tenha facilidades com as tecnologias necessárias para manter suas soluções por sua própria conta, não valerá a pena, juntar-se a outros professores e organizarem “um condomínio” para a produção deste coletivo?

[atualização]
Um exemplo de “condomínio” ou de solução coletiva para redes sociais em educação é o SLEducacional!
[/atualização]

A ideia de que vivemos em rede (não mais sozinhos nas nossas escrivaninhas) precisa ser traduzida em práticas mais coletivas e colaborativas!

Uma solução paga, para um coletivo, pode ser mais barata do que um cafezinho por dia. Não que eu defenda que não possa existir o “almoço grátis!“, mas o ponto crucial é: se você acredita no seu trabalho, por que não investir, um pouco, para que ele tenha garantia de presença e organização na web no médio e longo prazo?

Conclusões provisórias

Eu não quero trazer certezas com este texto! Eu quero que professores, educadores e gestores de espaços educacionais pensem para além do curto prazo, da solução imediata para o próximo mês.

Educação é algo muito importante para que tenhamos sempre soluções improvisadas e não ponderadas. Reflexão e ação, em qualquer área, assim como em Educação, deve ser a regra e não a exceção.

PS: Das redes NING que eu mantenho (duas), pretendo ficar com apenas uma. Dependendo das políticas de preço que serão implementadas prentendo mantê-la no NING. Caso seja necessário uma migração, pretendo migrar para a solução wordpress + budypress.

PPS: Na mesma linha de discutir além do óbvio a Lilian Starobinas tece algumas considerações importantes sobre as mudanças no NING. Aponte seu navegador para o endereço abaixo:

http://discursocitado.blogspot.com/2010/04/perdas-e-danos.html

PPPS: Se eu tivesse que migrar para um sistema gratuito (não usar domínio próprio, isto é, wordpress + buddypress) a minha opção seria, seguramente, o grou.ps. Os motivos são: 1) Tem uma página de ajuda só pra quem vem do NING. 2) Tem código aberto e planejam disponibilizá-lo no futuro.

Fonte: http://www.aprendendoemrede.info/3-licoes-que-os-professores-podem-aprender-com-o-ning/

10 Modos de se aprender em 2010

Aviso Importante!

Este texto (indicação da Suzana Gutierrez no Google Reader) é uma tradução livre do texto 10 Ways to Learn in 2010. O original se encontra aqui e todos os créditos do texto são do excelente blogue The Elearning Coach. (Thanks Connie Malamed for permission to translate!)

10 Modos de se aprender em 2010

maneiras para se aprender em 2010

maneiras para se aprender em 2010

Uau. Há muitas maneiras interessantes para se aprender online agora. O mundo todo é uma escola. Esta lista é destinada aos eternos aprendizes e para procrastinadores procurando distrações no ano que chega.

1. Aprenda mais através de Mecanismos Visuais de Pesquisa

Gostaria que seu mecanismo de pesquisa mostrasse os resultados como uma colagem? O Spezify faz exatamente isso. É um motor de busca visual que desenha o conteúdo de toda a Web, em particular, sítios-web de mídia social. Sua colagem pode mostrar um livro da Amazon, um vídeo do YouTube e uma página de um blogue ou sítio-web. Você arrasta os resultados para navegar na página e clica no gráfico para ver o resultado. Embora os resultados possam não ser tão robustos quanto os dos motores de busca convencionais, são muito mais divertidos. Outras ferramentas de busca visual incluem: Viewzi, Kart00 e Search-cube.

2. Aprenda a partir de Nuvens de Palavras

Como você pode pesquisar alguma coisa num sítio-web quando você não tem certeza do que existe por lá? Embora elas não sejam novidade, você já tinha utilizado as nuvens de palavras como uma ferramenta de aprendizagem? Se você for no Wordle e digitar a URL de um sítio-web ou a URL de um feed, você pode usar a nuvem de palavras como um índice para o sítio-web. Procure por palavras de interesse e então pesquise por estes artigos ou páginas.

Você também pode usar nuvens de palavras como base para escrever um poema, para estudar outro idioma e para a comparação de duas páginas de informações. Janet Clarey comparou dois artigos deste sítio-web com nuvens de palavras. Você também pode criar nuvens de etiquetas (tags) com TagCrowd e você provavelmente vai perceber que deveria existir uma tweetcloud.

3. Faça Perguntas

Embora os sítios-web de perguntas e respostas não sejam novidades na Web, estamos agora num ponto onde existem especialistas suficientes on-line e bastante sítios-web Q & A (Q&A sites) para se encontrar respostas mais adequadas. Alguns sítios usam a inteligência da multidões (crowd-source ) como fonte das respostas enquanto outros utilizam especialistas para responder as perguntas na sua área de especialização. Esses sítios-web também são ótimos para se navegar quando você está num estado de procrastinação.

Aqui estão alguns: Askville Amazon, Yahoo Answers, Answerbag, Gotta Mentor, BlurtIt e WikiAnswers (N.T. Brasigo). Para obter respostas para questões relacionadas com eLearning, tente um dos Grupos de eLearning no LinkedIn com grande adesão, como o eLearning Guild ou Design Instrucional & E-Learning Professionals’ Group. PSI (Para Sua Informação): Você sempre pode me lançar (N.T. para a autora original do texto!) uma pergunta através da página de contato e eu vou responder ou a inteligência das multidões o fará.

4. Pense Visualmente

Uma das melhores maneiras de se aprender é olhar as coisas sob uma nova perspectiva. Prezi pode ajudá-lo a fazer isto. É uma das ferramentas mais inovadoras para a criação não linear de apresentações. Dê uma olhada nos seus exemplos.

Expressar e organizar suas ideias em mapas mentais é uma outra abordagem para expandir ou mudar sua perspectiva. Tente estas ferramentas gratuitas de mapas-mentais on-line, algumas das quais são colaborativas: Mindmeister (confira os seus Mapas Mentais públicos), XMind e Mindomo.

5. Saia com os professores

Agora temos muitas opções para assistir gratuitamente cursos universitários online. Imagine uma grande palestra, sem provas, artigos ou prazos. Gostou. Confira o UC Berkeley Webcasts , que tem uma mistura de aulas em vídeo e audio e o MIT’s Open Courseware , que consiste de notas de aulas em PDF e algumas apresentações multimídia. A OpenLearn tem Espaços de Aprendizagens com notas de aula e foruns de discussão. Você também pode reutilizar e remixar os conteúdos para criar seus próprios cursos em seu laboratório. Outros cursos universitários abertos estão na Universidade Carnegie Mellon e na Universidade Tufts. Não se esqueça das palestras da Universidade de Oxford e Stanford no iTunesU.

6. Assista documentários

Se você gosta de aprender com documentários, você pode encontrar algumas versões livres no Get Docued, Free Online Documentários e Free Documentaries

7. Sintonize-se a Grandes Ideias

Discuta, observe e busque inspiração em alguns dos sítios-web que promovem idéias novas e inovadoras. Você provavelmente já viu os vídeos do Ted, mas e sobre Big Think, Fora.tv e Ideas Project?

8. Aprenda mais através do Twitter

Você sempre pesquisa nos tweets para descobrir as novidades mais recentes e sobre o que estão conversando? Pesquisa em tempo real é bem atual. Por exemplo, eu procurei por ‘e-learning’ (eu sei que sou um chato) e encontrei uma grande discussão sobre como ajudar os alunos a obter o máximo do eLearning. Você pode procurar diretamente no Twitter, mas dizem que os resultados são menos do que razoáveis. Outros motores de busca em tempo real com melhores avaliações são Twazzup, Tweetzi, IceRocket (pesquisas em outras mídias sociais também) e TweetScan.

9. Entre num debate

Aprenda sobre todos os pontos de vista de um problema através dos debates online. Debategraph usa uma ferramenta de visualização para mostrar a complexidade e os múltiplos aspectos das questões debatidas no mundo. Você pode começar na galeria (Gallery) e escolher um tema. Em seguida, selecione “Stream View” (link pequeno embaixo) para ver o debate. Você pode então analisar um tema e adicionar seu próprio ponto de vista. Confira também o Debate.org, onde você lê os debates e vota em um vencedor.

10. Crie um Mashup

Mashups te permitem combinar e remixar informações, mídias, conteúdos, aplicações web e serviços. Fazer um mashup te ajuda a perceber a informação de novas maneiras e é uma experiência de aprendizagem em si. Duas plataformas de mashup são o Pipes e o Scrapplet. O Pipes é uma ferramenta para manipular e remixar conteúdo e dados de todo um sítio-web via rss. Scrapplet utiliza uma abordagem de arrastar e soltar para fazer mashups de conteúdos, particularmente a partir de sítios de mídia social.

Como você pretende aprender on-line este ano?

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Fonte: http://www.aprendendoemrede.info/10-modos-de-se-aprender-em-2010/

Novos desafios para o educador

José Manuel Moran

Especialista em mudanças na educação presencial e a distância
jmmoran@usp.br

“Continuo buscando, re-procurando. Ensino porque busco, porque indaguei, porque indago e me indago. Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar e anunciar a novidade”. Paulo Freire

O mais importante no educador
A aprendizagem de ser professor
As etapas pessoais como docente
O professor bem sucedido
A rotina da profissão do educador
Aprendendo a construir a identidade pedagógica pessoal

O mais importante no educador

O importante, como educadores, é acreditarmos no potencial de aprendizagem pessoal, na capacidade de evoluir, de integrar sempre novas experiências e dimensões do cotidiano, ao mesmo tempo que compreendemos e aceitamos nossos limites, nosso jeito de ser, nossa história pessoal.

Ao educar, tornamos visíveis nossos valores, atitudes, idéias, emoções. O delicado equilíbrio e síntese que fazemos no dia a dia transparece nas diversas situações pedagógicas em que nos envolvemos. Os alunos e colegas percebem como somos, como reagimos diante das diferenças de opiniões, dos conflitos de valores. O que expressamos em cada momento como pessoas é tão importante quanto o conteúdo explícito das nossas aulas. A postura diante do mundo e dos outros é importante como facilitadora ou complicadora dos relacionamentos que se estabelecem com os que querem aprender conosco. Se gostamos de aprender, facilitamos o desejo de que os outros aprendam. Se mostramos uma visão confiante e equilibrada da vida, facilitamos nos outros a forma de lidar com seus problemas, mostramos que é possível avançar no meio das dificuldades. Alguns educadores confundem visão crítica com pessimismo estrutural; eles só transmitem aos alunos visões negativistas e desanimadoras da realidade. Esse substrato pessimista interfere profundamente na visão dos alunos.

Da mesma forma, educadores com credibilidade e uma visão construtiva da vida contribuem muito para que os alunos se sintam motivados a continuar, a querer aprender, a aceitar-se melhor.

O educador é um ser complexo e limitado, mas sua postura pode contribuir para reforçar que vale a pena aprender, que a vida tem mais aspectos positivos que negativos, que o ser humano está evoluindo, que pode realizar-se cada vez mais. Pode ser luz no meio de visões derrotistas, negativistas, muito enraizadas em sociedades dependentes como a nossa.

Vejo hoje o educador como um orientador, um sinalizador de possibilidades onde ele também está envolvido, onde ele se coloca como um dos exemplos das contradições e da capacidade de superação que todos possuem.

O educador é um testemunho vivo de que podemos evoluir sempre, ano após ano, tornando-nos mais humanos, mostrando que vale a pena viver.

Numa sociedade em mudança acelerada, além da competência intelectual, do saber específico, é importante termos muitas pessoas que nos sinalizem com formas concretas de compreensão do mundo, de aprendizagem experimentada de novos caminhos, de testemunhos vivos –embora imperfeitos- das nossas imensas possibilidades de crescimento em todos os campos.

Cada vez mais precisamos de educadores-luz, sinalizadores de caminhos, testemunhos vivos de formas concretas de realização humana, de integração progressiva, seres imperfeitos que vão evoluindo, humanizando-se, tornando-se mais simples e profundos ao mesmo tempo.

A aprendizagem de ser educador

A aprendizagem pessoal

O educador é especialista em conhecimento, em aprendizagem. Como especialista, espera-se que ao longo dos anos aprenda a ser um profissional equilibrado, experiente, evoluído; que construa sua identidade pacientemente, equilibrando o intelectual, o emocional, o ético, o pedagógico.

O educador pode ser testemunha viva da aprendizagem continuada. Testemunho impresso na sua pele e personalidade de que evolui, aprende, se humaniza, se torna uma pessoa mais aberta, acolhedora, compreensiva.

Testemunha viva, também, das dificuldades de aprender, das dificuldades em mudar, das contradições no cotidiano; de aprender a compreender-se e a compreender.

Com o passar do tempo ele vai mostrando uma trajetória coerente, de avanços, de sensatez e firmeza. Passa por etapas em que se sente perdido, angustiado, fora de foco. Retoma o rumo, depois, revigorado, estimulado por novos desafios, pelo contato com seus alunos, pela vontade de continuar vivendo, aprendendo, realizando-se e frustrando-se, mas mantendo o impulso de avançar.

Há momentos em que se sente perdido, desmotivado. Educar tem muito de rotina, de repetição, de decepção. É um campo cada vez mais tomado por investidores, por pessoas que buscam lucros fáceis. Ele se sente parte de uma máquina, de uma engrenagem que cresce desproporcionalmente. Sente-se insignificante, impotente, um número que pode ser substituído por muitos jovens ansiosos pelo seu lugar. Sabe que sua experiência é importante, mas também que outros estão dispostos a assumir o seu lugar por salários menores.

Ensinar tem momentos “glamourosos”, em que os alunos participam, se envolvem, trazem contribuições significativas. Mas muitos outros momentos são banais; parece que nada acontece. É um entra e sai de rostos que se revezam no mesmo ritmo semanal de aula, exercícios, mais aulas, provas, correções, notas, novas aulas, novas atividades…. A rotina corrói uma parte do sonho, a engrenagem despersonaliza; a multiplicação de instituições escolares torna previsíveis as atividades profissionais. Há um aumento de oferta profissional (mais vagas para ser professor), junto com uma diminuição das exigências para a profissão (mais fácil ter diploma, muitos estudantes em fase final são contratados, aumenta a concorrência). A tentação da mediocridade é real. Basta ir tocando para ficar anos como docente, ganhar um salário seguro, razoável. Os anos vão passando e quando o professor percebe já está na fase madura e se tornou um professor acomodado.

As etapas pessoais como docente

Apesar de que cada docente tem sua trajetória, há pontos da evolução profissional coincidentes. Relato a seguir uma síntese de questões que costumam acontecer – com muitas variáveis – na trajetória de muitos professores, a partir da minha experiência.

Primeira etapa: iniciação

No começo recém formado, começa a ser chamado para substituir um professor em férias, uma professora em licença maternidade, dá algumas aulas no lugar de professores ausentes. Ele ainda se confunde com o aluno, intimamente se sente aluno, mas percebe que é visto pelos alunos como uma mistura de professor e aluno. Ele luta para se impor, para impressionar, para ser reconhecido. Prepara as aulas, traz atividades novas, se preocupa em cativar os alunos, em ser aceito. Sente medo de ser ridicularizado em público com alguma pergunta impertinente ou muito difícil. Tem medo dos que o desafiam, dos alunos que não ligam para as suas aulas, dos que ficam conversando o tempo todo. Procura ser inovador, e, ao mesmo tempo, percebe que reproduz algumas formas de ensinar que via como aluno, algumas até que criticava. É uma etapa de aprendizagem, de insegurança, de entusiasmo e de muito medo de fracassar. O tempo passa, os alunos vão embora, chegam outros em outro semestre e o processo recomeça. Agora já tem uma noção mais clara do que o espera; planeja com mais segurança o novo semestre, repete alguns macetes que deram certo no primeiro semestre, busca alguns textos diferentes, inova um pouco, faz uma síntese do que deu certo antes. Vê que algumas atividades funcionam sempre e outras não tanto. Descobre que cada turma tem comportamentos semelhantes, mas que reage de forma diferente às mesmas propostas e assim vai, por tentativa e erro, aprendendo a diversificar, a desenvolver um “feeling” de como está cada classe, de quando vale a pena insistir na aula teórica planejada e quando tem que introduzir uma nova dinâmica, contar uma história, passar um vídeo, encurtar o fim da aula, etc.

Segunda etapa: consolidação

De semestre em semestre o jovem professor vá consolidando o seu jeito de ensinar, de lidar com os alunos, as áreas de atuação. Consegue ter maior domínio de todo o processo. Isso lhe dá segurança, tranqüilidade. Os colegas e coordenadores vão indicando-o para novas turmas, novas disciplinas, novas instituições. Multiplica o número de aulas. Aumenta o número de alunos. É freqüente, no ensino superior particular, um professor ter entre mais de quinhentos alunos por semana. Compra um apartamento. Forma uma família. Vira um tocador de aulas. Cada vez precisa aumentar mais o número de aulas, para manter a renda.

Desenvolve algumas fórmulas para se poupar. Repete o mesmo texto em várias turmas e, às vezes, em várias disciplinas. Utiliza um mesmo vídeo para diversos temas. Dá trabalhos bem parecidos para turmas diferentes, em grupo, para facilitar a correção. Lê superficialmente os trabalhos e as provas. Faz comentários genéricos: Continue assim, “insuficiente”, “esforce-se mais”, “parabéns”, “interessante”. Prepara as aulas encima da hora, com poucas mudanças. Repete fórmulas, métodos, técnicas.

Terceira etapa: Crise de identidade

Sempre há alguma crise, mas esta é diferente: pega o professor de cheio. Aos poucos o dar aula se torna cansativo, repetitivo, insuportável. Parece que alguns coordenadores são mais “chatos”, “pegam mais no pé”. Algumas turmas também não querem nada com nada. As reuniões de professores são todas iguais, pura perda de tempo. Os salários são baixos. Outros colegas mostram que ganham mais em outras profissões. Renova-se a dúvida: vale a pena ficar como está ou dar uma guinada profissional?

Por enquanto vai tocando. Torce para que haja muitos feriados, para que os alunos não venham em determinados dias. Qualquer motivo justifica não dar aula. Cria muitas atividades durante a aula: leituras em grupo, pesquisa na biblioteca, vídeos longos e isso lhe permite descansar um pouco, ficar na sala dos professores, poupar a voz.

Muitas vezes essa crise profissional vem acompanhada de uma crise afetiva. O relacionamento a dois não é o mesmo, passa pela indiferença ou pela separação. Sente-se intimamente bastante só, apesar das aparências. E em algum momento a crise bate mais fundo: o que é que eu faço aqui? Qual é o sentido da minha vida? Tem tanta gente que sabe menos e está melhor! Como defender uma sociedade mais justa num país onde só os mesmos ficam mais e mais ricos?

Olha para trás e vê muitos recém formados doidos para entrar a qualquer jeito, ganhando menos do que ele. E esses moleques petulantes têm outra linguagem, dominam mais a Internet, estão cheios de gás. Embora faça cursos de atualização, sente-se em muitos pontos ultrapassado. Sempre foi preparado para dar respostas, para ser o centro do saber e agora descobre mais claramente que não tem certezas, que cada vez sabe menos, que há muitas variáveis para uma mesma questão e que novas pesquisas questionam verdades que pareciam definitivas. Essa sensação de estar fora do lugar, de inadequação vai aumentando e um dia explode. A crise se generaliza. Nada faz sentido. A depressão toma conta dele. Não tem mais vontade de levantar, chega atrasado. Justifica cada vez mais suas faltas.

Quarta etapa: mudanças

Diante da crise, alguns professores desistem, entregam a toalha. Procuram algumas saídas, mesmo que precárias: festas, um caso, bebida, algumas viagens. Depois vão se acalmando, dizem: a vida é assim mesmo; “vou tocar a vida o melhor que puder e seguir enfrente”.

Alguns procuram uma nova atividade profissional mais empolgante e deixam as aulas como complemento, como “bico”.

Ele procura refletir sobre sua vida profissional e pessoal. Tenta encontrar caminhos, reaprender a aprender. Atualiza-se, observa mais, conversa, medita. Aos poucos busca uma nova síntese, um novo foco. Começa pelo externo, por estabelecer um relacionamento melhor com os alunos, procura escutá-los mais. Prepara melhor as aulas, utiliza novas dinâmicas, novas tecnologias. Lê novos autores, novas filosofias. Reflete mais, medita. Descobre que precisa se gostar mais, aceitar-se melhor, ser mais humilde e confiante. E assim, pouco a pouco, redescobre o prazer de ler, de aprender, de ensinar, de viver. Está mais atento ao que acontece ao seu lado e dentro de si. Procura simplificar a vida, consumir menos, relaxar mais. Vê exemplos de pessoas que envelhecem motivados para aprender e isso lhe é um estímulo para o futuro, para seguir adiante, para renovar-se todos os dias. Torna-se mais humano, acolhedor, compreensivo, tolerante, aberto. Dialoga mais, ouve mais, presta mais atenção. Com o assar do tempo percebe que não é perfeito, mas que tem evoluído muito e que redescobriu o prazer de ensinar e de viver.

“Sinto-me como alguém que envelhece crescendo” (Rogers)[1]

Esta é a atitude maravilhosa de quem gosta de aprender. O aprender dá sentido à vida, a todos os momentos da vida, mesmo quando ela está no fim.

Aprendi com Rogers a sentir prazer em aprender, e a perceber que podemos envelhecer vivenciando a alegria de aprender com mais profundidade, descobrindo novas perspectivas, idéias, pessoas. Sinto que muitas pessoas aprendem por necessidade, para sobreviver, para não ficar para trás, para ganhar dinheiro. Quando se aposentam, costumam aposentar-se também de aprender. E perdem uma das grandes motivações de viver. Tornam-se previsíveis, repetitivos.

Essa atitude de gostar de aprender não se improvisa. Vai se desenvolvendo ao longo da vida, a partir de experiências positivas na infância, em casa e na escola. Se a escola incentiva a curiosidade, a descoberta, o aluno desenvolve o gosto por ler, por ir além do exigido, pesquisa por si mesmo e vai atrás de novos conhecimentos.

O professor bem sucedido

Por que, nas mesmas escolas, nas mesmas condições, com a mesma formação e os mesmos salários, uns professores são bem aceitos, conseguem atrair os alunos e realizar um bom trabalho no ofício de ajudar os alunos a aprender?

Não há uma única forma ou modelo. Depende muito da personalidade, competência, facilidade de aproximar e gerenciar pessoas. Uma das questões que determina o sucesso profissional maior ou menor do professor é a capacidade de relacionar-se, de comunicar-se, de motivar o aluno de forma constante e competente. Alguns professores conseguem uma mobilização afetiva dos alunos pelo seu magnetismo, simpatia, capacidade de sinergia, de estabelecer um “rapport”, uma sintonia interpessoal grande. É uma qualidade que pode ser desenvolvida, mas alguns a possuem em grau superlativo, a exercem intuitivamente e facilita todas as atividades propostas.

Uma das formas de estabelecer vínculos é mostrar genuíno interesse pelos alunos. Os professores de sucesso não se preparam para o pior, mas para o melhor nos seus cursos. Preparam-se para desenvolver um bom relacionamento com os alunos e para isso os aceitam afetivamente antes de os conhecerem, se predispõem a gostar deles antes de começar um novo curso. Essa atitude positiva é captada consciente e inconscientemente pelos alunos que reagem da mesma forma, dando-lhes crédito, confiança, expectativas otimistas. O contrário também acontece: professores que se preparam para a aula como uma batalha, que estão cheios, cansados de dar aula passam consciente e inconscientemente esse mal-estar que é correspondido com a desconfiança dos alunos, com o distanciamento, com barreiras nas expectativas.

É muito tênue o que fazemos em aula para facilitar a aceitação ou provocar a rejeição. É um conjunto de intenções, gestos, palavras, ações que são traduzidos pelos alunos como positivos ou negativos, que facilitam a interação, o desejo de participar de um processo grupal de aprendizagem, de uma aventura pedagógica (desejo de aprender) ou, pelo contrário, levantam barreiras, desconfianças, que desmobilizam.

O sucesso pedagógico depende também da capacidade de expressar competência intelectual, de mostrar que conhecemos de forma pessoal determinadas áreas do saber, que as relacionamos com os interesses dos alunos, que podemos aproximar a teoria da prática e a vivência da reflexão teórica.

A coerência entre o que o professor fala e o que faz, como vive é um fator importante para o sucesso pedagógico. Se um professor une a competência intelectual, a emocional e a ética causa um profundo impacto nos alunos. Estes estão muito atentos à pessoa do professor, não somente ao que fala. A pessoa fala mais que as palavras. A junção da fala competente com a pessoa coerente é poderosa.

As técnicas de comunicação também são importantes para o sucesso do professor. Um professor que fala bem, que conta histórias interessantes, que tem feeling para sentir o estado de ânimo da classe, que se adapta às circunstâncias, que sabe jogar com as metáforas, o humor, que usa as tecnologias adequadamente, sem dúvida consegue bons resultados com os alunos. Os alunos gostam de um professor que os surpreenda, que traga novidades, que varie suas técnicas e métodos de organizar o processo de ensino-aprendizagem.

Ensinar sempre será complicado pela distância profunda que existe entre adultos e jovens. Por outro lado, essa distância nos torna interessantes, justamente porque somos diferentes. Podemos aproveitar a curiosidade que suscita encontrar uma pessoa com mais experiência, realizações e fracassos. Um dos caminhos de aproximação ao aluno é pela comunicação pessoal de vivências, estórias, situações que o aluno ainda não conhece em profundidade. Outro é o da comunicação afetiva, da aproximação pelo gostar, pela aceitação do outro como ele é e encontrar o que nos une, o que nos identifica, o que temos em comum. Um professor que se mostra competente e humano, afetivo, compreensivo atrai os alunos. Não é a tecnologia que resolve esse distanciamento, mas pode ser um caminho para a aproximação mais rápida: valorizar a rapidez, a facilidade com que crianças e jovens se expressam tecnologicamente ajuda a motivar os alunos, a que queiram se envolver mais. Podemos aproximar nossa linguagem da deles, mas sempre será muito diferente. O que facilita são as entrelinhas da comunicação lingüística: a entonação, os gestos aproximadores, a gestão de processos de participação e acolhimento, dentro dos limites sociais e acadêmicos possíveis.

O educador não precisa ser “perfeito” para fazer um grande trabalho. Fará um grande trabalho na medida em que se apresenta da forma mais próxima ao que ele é naquele momento, que se “revela” sem máscaras, jogos. Quando se mostra como alguém que está atento a evoluir, a aprender, a ensinar e a aprender. O bom educador é um otimista, sem ser ‘ingênuo”. Consegue “despertar”, estimular, incentivar as melhores qualidades de cada pessoa.

A rotina da profissão do educador

Como em outras profissões há uma distância entre os sonhos e a realidade. No começo, recém formados, os jovens professores compensam com o entusiasmo a falta de experiência e de formação nos métodos e técnicas de comunicação em sala de aula, de gestão do processo de ensino-aprendizagem.

Aos poucos vão assumindo novas turmas, trabalhando em duas ou três escolas para poder ter um salário decente e o ensinar vai tornando-se sua profissão, seu ofício um ano após o outro, uma profissão segura e previsível.

Com o tempo, domina os macetes, procura dosar as energias para chegar até o fim da jornada, escolhe turmas melhores, procura facilitar as tarefas de avaliação para não demorar tanto na correção de atividades.

A profissão do professor vira rotina, repetição, os semestres e os anos vão passando, tudo parece que se repete e costumam, muito deles, passar pelo período de saturação: tudo incomoda, ensinar parece tedioso, improdutivo; consultam o calendário olhando os feriados, as pontes sem aula, os domingos a noite cada vez mais deprimentes, calculam o tempo que lhes falta para aposentadoria.

Uma parte dos professores continua sua rotina a caminho da mediocridade. Fazem cursos de atualização para ganhar pontos, melhorar o salário, mas pouco mudam na sua prática pedagógica. Outros, insatisfeitos, procuram formas de melhorar, de evoluir. Inscrevem-se em novos cursos, procuram melhorar suas aulas, se preocupam mais com os alunos, introduzem novas tecnologias nas classes, novas técnicas de comunicação.

Tem professores que se burocratizam na profissão. Outros se renovam com o tempo, se tornam pessoas mais humanas, ricas e abertas. As chances são as mesmas, os cursos feitos, os mesmos; os alunos, também são iguais. A diferença é que uma parte muda de verdade, busca novos caminhos e a outra se acomoda na mediocridade, se esconde nos ritos repetidos. Muitos professores se arrastam pelas salas de aula, enquanto outros, nas mesmas circunstâncias, encontram forças para continuar, para melhorar, para realizar-se.

Não tem programas de formação, de atualização que dêem certo se os professores não se motivam para melhorar, se não estão dispostos a crescer, aprender, evoluir.

O professor-aprendiz

Quando pensamos em educação costumamos pensar no outro, no aluno, no aprendiz e esquecer como é importante olharmo-nos os que somos profissionais do ensino como sujeitos e objetos também de aprendizagem. Ao focarmo-nos como aprendizes, muda a forma de ensinar. Se me vejo como aprendiz, antes do que professor, me coloco numa atitude mais atenta, receptiva, e tenho mais facilidade em estar no lugar do aluno, de aproximar-me a como ele vê, a modificar meus pontos de vista.

A atitude primeira do educador profissional em perceber-se como aprendiz o torna atento ao que acontece ao seu redor, sensível às informações do ambiente, dos outros. Preciso colocar-me junto com o aluno como professor-ensinante e professor-aprendiz. Parece óbvio ou só um jogo de palavras, mas não o é e a mudança de atitude tem grandes conseqüências. Se me coloco, como professor, sempre e somente no lugar do aluno, trabalho com informações úteis para o aluno, adquiro uma grande capacidade de senti-lo, de adaptar a minha linguagem, de sintonizar com suas aspirações e isso é bom. Se eu, ao mesmo tempo, que penso no aluno, também me penso como aluno, além de adaptar-me ao outro, eu estou aprendendo junto, estou fazendo a ponte entre informação, conhecimento e sabedoria, entre teoria e prática, entre conhecimento adquirido e o novo. Com um olho vejo o aluno, como o outro me enxergo como aluno-professor. O que estou propondo é ampliar o foco da relação para não colocar-me só na posição de professor e sim na de aluno/professor com mais intensidade.

Quais são as conseqüências? Se aprendo mais, de verdade, se incorporo a aprendizagem para o outro à aprendizagem também para mim, evoluirei mais rapidamente, entenderei melhor os mecanismos de aprender, as dificuldades, os conflitos pessoais e os dos meus alunos. Se eu aprendo mais e melhor, só me falta pensar como encontrar o caminho para comunicar-me com os alunos, como ser mediados entre onde me encontro e onde eles se encontram.

Roteiros previsíveis e semi-desconhecidos

Se me coloco como professor que aprende e não só que ensina, viverei duas situações interligadas, mas diferentes. Em muitas ocasiões, me coloco diante dos alunos como alguém que já conhece, que já percorreu o caminho anteriormente e que quer ajudar os alunos a fazer essa travessia. Ensinar o que já conhecemos é o que fazemos quando transmitimos nossas experiências, vivências, exemplos, situações, leituras. Como pessoa mais experiente, espera-se que ajude os alunos nesta travessia.

Mas há momentos e situações que escapam mais ao meu controle, nas quais me vejo também vivendo como aprendiz, que eu começo a enxergar de uma outra forma, sem ainda ter feito todo o percurso de antemão. Nesta situação, sou um professor que está aprendendo e, ao mesmo tempo, mostrando o processo de aprender enquanto acontece e não só o resultado, como um processo plenamente dominado. É uma outra forma e situação que hoje enfrentamos com freqüência e que é rica também para o aluno.

Com um exemplo ficará mais fácil visualizar o que estou dizendo. Se eu já conheço Madri e Barcelona, ao vivo e por leituras, posso ser guia dos meus alunos, ajudá-los a escolher os melhores pontos turísticos para visitar, darei informações mais precisas sobre o que estamos vendo. O meu conhecimento prévio me torna um informante e mediador confiável. Isso me dá segurança e confere segurança também aos alunos: temos um guia conhecedor e confiável.

Mas há outros momentos em que posso fazer um convite aos alunos e dizer-lhes: Vamos viver uma aventura? Vamos todos juntos para uma cidade desconhecida, fazer um caminho diferente, que eu ainda não percorri? Apesar da minha experiência como viajante-conhecedor, agora há elementos que me escapam, há conhecimentos que preciso atualizar rapidamente, haverá um maior número de surpresas, os alunos poderão trazer informações significativas que eu desconheço. Nesta última situação eu aprendo junto muito mais, embora possa cometer alguns erros de percurso, me perder em alguns momentos, ficar em dúvida sobre quais escolhas são as mais acertadas. E os alunos, sendo co-responsáveis pelo processo, também estarão mais motivados e darão contribuições mais significativas.

Se eu me coloco como um professor-aprendiz e não só como um especialista em viagens, proporei aos alunos novos caminhos, novos desafios, e não só roteiros previsíveis. Os roteiros previsíveis dão segurança, nos tranqüilizam, mas, na segunda ou terceira vez, já perdem a graça. Muitos professores se comportam como guias turísticos que fazem sempre os mesmos roteiros, repetem as mesmas falas, percorrem cada semestre os mesmos percursos. Na décima viagem, será muito difícil estar empolgado, a não ser fazendo um esforço, conscientizando-me de que é minha atividade profissional e represento o papel da descoberta, mas não a vivencio. Somente os alunos podem vivenciá-la, se para eles realmente é uma descoberta, se eles já não tinham estado antes em outra excursão ou por si mesmos. Se eu sou professor-aprendiz, mesmo que conheça os roteiros, estarei atento a novos detalhes, novas informações, novos caminhos. Criarei estratégias de motivação diferentes, farei entrevistas com pessoas que não conheço. Dentro da previsibilidade do roteiro, farei inúmeras variações (porque eu também estou aprendendo junto).

Se sou um professor-aprendiz inovador posso combinar roteiros previsíveis, trilhados com diferentes estratégias e caminhos, com roteiros semi-desconhecidos onde eu não sou tão especialista e em que proponho que o grupo esteja mais atento para aprendermos juntos, para utilizar todas as experiências prévias de todos, para trocar mais informações. Sem dúvida é mais arriscado, mas mais excitante.

Numa sociedade como a nossa, com tantas mudanças, rapidez de informações e desestruturação de certezas, não podemos ensinar só roteiros seguros, caminhos conhecidos, excursões programadas. Precisamos arriscar um pouco mais, navegar juntos, trocar mais informações, apoiados no guia um pouco mais experiente, mas que não tem todas as certezas, porque elas não existem como antes se pensava.

Muitos transformam a educação em uma agência de viagens, com roteiros pré-programados, previsíveis. É, sem dúvida, mais seguro, fácil para todos e confortável. Hoje é insuficiente esse modelo. Precisamos combiná-lo com roteiros semi-previsíveis, semi-estruturados, com pontos de apoio sólidos, mas com muitos momentos livres para permitir escolhas personalizadas e com outros de aventura, onde todos nos sintamos empolgados e efetivamente participantes de uma aprendizagem coletiva.

O que é importante para ser professor hoje

Algumas diretrizes são importantes para o professor que quer ser excelente profissional:[2]

  • Crescer profissionalmente, atento a mudanças e aberto à atualização.
  • Conhecer a realidade econômica, cultural, política e social do país, lendo atenta e criticamente jornais e revistas impressos e na Internet.
  • Participar de atividades e projetos importantes da escola
  • Escolher didáticas que promovam a aprendizagem de todos os alunos, evitando qualquer tipo de exclusão e respeitando as particularidades de cada aluno, como sua religião ou origem étnica.
  • Orientar a prática de acordo com as características e a realidade dos alunos, do bairro, da comunidade.
  • Participar como profissional das associações da categoria e lutar por melhores salários e condições de trabalho.
  • Utilizar diferentes estratégias de avaliação de aprendizagem — os resultados são a base para você elaborar novas propostas pedagógicas. Não há mais espaço para quem só sabe avaliar com provas.

Aprendendo a construir a identidade pedagógica pessoal

Cada um de nós vai construindo sua identidade com pontos de apoio que considera fundamentais e que definem as suas escolhas. Cada um tem uma forma peculiar de ver o mundo, de enfrentar situações inesperadas. Filtramos tudo a partir de nossas lentes, experiências, personalidade, formas de perceber, sentir e avaliar a nós mesmos e aos outros.

Uns precisam viver em um ambiente super-organizado e não conseguem produzir se houver desordem, enquanto outros não dão a mínima para a bagunça ou fazem dela um hábito. Uns precisam de muita antecedência para realizar uma tarefa, enquanto outros só produzem sob a pressão do último momento.

Na construção da nossa identidade é importante como nos vemos, como nos sentimos, como nos situamos em relação aos outros. Muitos fomos educados para depender da aprovação dos demais, fazemos as coisas pensando mais em agradar os outros do que no que realmente desejamos.

Todos experimentamos inúmeras formas de comparação, ficamos em segundo plano, fomos deixados de lado, sofremos todo tipo de perdas e isso interfere na nossa auto-imagem.

Sempre nos colocam modelos inatingíveis de beleza, de riqueza, de sucesso, de realização afetiva. É intensa a pressão social para que nos sintamos infelizes, diminuídos em alguns pontos ou para que nos contentemos com pouco.

Muitos permanecem imobilizados pelo medo do julgamento alheio, pelo medo de falhar. Vivem para fora, para serem queridos, aceitos. E sem essa aceitação se sentem mal, se escondem fisicamente ou através de formas de comunicar-se pouco autênticas, desenvolvendo papéis para consumo externo.

Internamente – mesmo quando aparentemente o negamos – temos consciência de que somos frágeis, contraditórios, inconstantes e, em alguns campos, inferiores a outros.

A grande questão é que, intimamente, muitos não se gostam de verdade, não se aceitam plenamente como são, duvidam do seu valor, tentam justificar seus problemas, procuram formas de compensação, de aprovação.

Boa parte dos nossos descaminhos, das nossas dificuldades, perdas e problemas advém do medo de sermos felizes, de acreditar no nosso potencial.

Ficamos marcando passo por sentir-nos inseguros, por incorporar tantas injunções negativas, acomodadoras, medíocres.

Essa construção da nossa identidade que fomos realizando tão penosamente não a podemos modificar magicamente. Podemos, contudo, aprender a ir modificando alguns processos de percepção, emoção e ação.

É importante reconhecer nossas qualidades, valorizá-las, destacá-las e buscar formas de colocá-las em prática, escolhendo situações em que elas sejam mais testadas e necessárias. Estar atentos ao que acontece e ir antecipando-nos, prevendo, testando, avaliando.

Somos chamados a realizar grandes vôos. Podemos ir muito além de onde estamos e de onde imaginamos e de onde os outros nos percebem.

Podemos modificar nossa percepção, aprendendo a aceitar-nos e a gostar plenamente de nós, a aceitar-nos plenamente, intimamente como somos, sem comparações nem desvalorizações, quando ninguém nos vê, quando não temos que representar para alguém e ir adiante, no nosso ritmo, acreditando no nosso potencial.

Para mudar o mundo podemos começar mudando a nossa visão dele, de nós. Ao mudar nossa visão das coisas, tudo continua no mesmo lugar, mas o sentido muda, o contexto se altera.

Em geral não é preciso ir morar em outro ambiente, em outra cidade, mas descobrir novas formas de olhar e de compreender as pessoas, os ambientes com as que convivemos.

Construímos a vida sobre fundamentos autênticos ou falsos. As construções em falso são como andaimes ou contrapesos para segurar uma parte do prédio que pode vir abaixo, cair. Procuramos esconder – até de nós mesmos – o lado negativo, o que anos incomoda, o que não gostamos.

Quanto mais muros de contenção, duplas paredes, contrafortes criamos,

Quanto mais estruturas paralelas levantamos, menos evoluímos a longo prazo, menos nos realizamos.

As pessoas podem criar obras incríveis, maravilhosas em qualquer setor e, mesmo assim, girar em falso, estarem construindo superestruturas paralelas.

Se o que nos leva a realizar coisas é a necessidade de reconhecimento, de aceitação, de ser queridos, o foco está distorcido e poderemos estar agindo a vida toda em falso.

Se eu preciso necessariamente da aprovação de alguém para sentir-me bem, na mesma medida deixo de aceitar-me, de gostar-me, de integrar-me. Eu me volto na direção do outro, o coloco como eixo e começo a girar em falso. E quanto mais insisto nesse padrão e direção, mais me afasto do meu centro, mais energia preciso gastar, mais peso e superestrutura acumular. Posso ser reconhecido e não evoluir nem ser feliz.

Creio que a grande maioria das pessoas se agita muito, faz mil atividades, mas não foca o essencial. Chega quase lá, mas lhe falta a atitude de total sinceridade consigo, de permitir-se o desvendamento de tudo o que é e carrega consigo. Espera a sua realização dos outros, de ser reconhecido por eles.

Hoje dá-se muita ênfase às profissões onde há visibilidade, de divulgação, de marketing, que propiciam ser reconhecido como as de modelo, ator, esportista, televisão…). Muitos buscam a TV, ser entrevistados, aparecer em comun as de jornais. Em si isso é bom, mas a atitude pode atrapalhar. Precisam de reconhecimento social como condição fundamental para sentir-se bem. São felizes se e quando aparecem, quando são solicitados, quando estão em evidência.

É bom ser chamado, mas não posso depender disso, não posso ser infeliz se não me chamam nem focar minha vida em função do reconhecimento público. Se vier, ótimo, o aceitarei com prazer, mas não estarei ansioso pelo sucesso, pela aprovação, por ser reconhecido. Continuo minha vida focando a aceitação, a mudança possível e a interação tranqüila com as pessoas e atividades que em cada etapa possuem significado e que me ajudam a crescer.

A comunicação autêntica estabelece conexões significativas na relação com o outro. Desarma as resistências e provoca, geralmente, uma resposta positiva, ativa, e desarmada dele. Em contrapartida, a comunicação agressiva gera reações semelhantes no outro e pode complicar todo o processo subseqüente.

A cada dia confirmo mais a importância de termos mais e mais pessoas na sociedade e especificamente na educação que sejam capazes de relacionar-se de forma aberta com os outros, que facilitem a comunicação com os colegas, alunos, administração e famílias. Pessoas maduras emocionalmente, que saibam gerenciar os conflitos pessoais e grupais; que tenham suficiente flexibilidade para compreender diferentes pontos de vista, e intuição para aproximar-se de forma adequada a diferentes pessoas e formas de viver.

Necessitamos urgentemente dessas pessoas para mudar o enfoque fundamental das práticas educacionais, para vivenciar práticas mais ricas, abertas e significativas de comunicação pedagógica inovadora, profunda, criativa, progressista.

Descubro, com satisfação, que mais e mais pessoas estão ou mudando ou querendo mudar. Isso é um excelente sinal de que é possível realizar um grande trabalho na educação brasileira. Vamos concentrar-nos nestes grupos que estão prontos para o novo, que procuram aprender, que estão dispostos a avançar, a experimentar formas mais profundas de comunicação pessoal e tecnológica.

Temos um longo trabalho, no campo político, de implementar ações estruturais de apoio à mudança integrada, que contemple currículo, processos de comunicação e tecnologias. Podemos ir incentivando as pessoas, grupos e instituições que estão buscando soluções novas e sérias em educação. Na universidade podemos dar subsídios teóricos e pedagógicos para essa mudança.

[1] Um jeito de ser, p.33.

[2] Adaptado de Denise PELLEGRINI. O ensino mudou e você?. Revista Nova Escola. Ed. 131, abril, 2000. Disponível em: http://novaescola.abril.uol.com.br/ed/131_abr00/html/cresca.htm

Este texto meu foi publicado no livro A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá, p. 73-86.

Fonte: http://www.eca.usp.br/prof/moran/desafios.htm

Pedro Demo aborda os desafios da linguagem no século XXI

Pedro Demo é professor do departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB). PhD em Sociologia pela Universidade de Saarbrücken, Alemanha, e pós-doutor pela University of California at Los Angeles (UCLA), possui 76 livros publicados, envolvendo Sociologia e Educação. No mês passado esteve em Curitiba para uma palestra promovida pela Faculdade Opet, e conversou com o Nota 10.

O tema de sua palestra é “Os desafios da linguagem do século XXI para a aprendizagem na escola”. Quais são os maiores desafios que professores e alunos enfrentam, envolvendo essa linguagem?

A escola está distante dos desafios do século XX. O fato é que quando as crianças de hoje forem para o mercado, elas terão de usar computadores, e a escola não usa. Algumas crianças têm acesso à tecnologia e se desenvolvem de uma maneira diferente – gostam menos ainda da escola porque acham que aprendem melhor na internet. As novas alfabetizações estão entrando em cena, e o Brasil não está dando muita importância a isso – estamos encalhados no processo do ler, escrever e contar. Na escola, a criança escreve porque tem que copiar do quadro. Na internet, escreve porque quer interagir com o mundo. A linguagem do século XXI – tecnologia, internet – permite uma forma de aprendizado diferente. As próprias crianças trocam informações entre si, e a escola está longe disso. Não acho que devemos abraçar isso de qualquer maneira, é preciso ter espírito crítico – mas não tem como ficar distante. A tecnologia vai se implantar aqui “conosco ou sem nosco”.

A linguagem do século XXI envolve apenas a internet?

Geralmente se diz linguagem de computador porque o computador, de certa maneira, é uma convergência. Quando se fala nova mídia, falamos tanto do computador como do celular. Então o que está em jogo é o texto impresso. Primeiro, nós não podemos jogar fora o texto impresso, mas talvez ele vá se tornar um texto menos importante do que os outros. Um bom exemplo de linguagem digital é um bom jogo eletrônico – alguns são considerados como ambientes de boa aprendizagem. O jogador tem que fazer o avatar dele – aquela figura que ele vai incorporar para jogar -, pode mudar regras de jogo, discute com os colegas sobre o que estão jogando. O jogo coloca desafios enormes, e a criança aprende a gostar de desafios. Também há o texto: o jogo vem com um manual de instruções e ela se obriga a ler. Não é que a criança não lê – ela não lê o que o adulto quer que ele leia na escola. Mas quando é do seu interesse, lê sem problema. Isso tem sido chamado de aprendizagem situada – um aprendizado de tal maneira que apareça sempre na vida da criança. Aquilo que ela aprende, quando está mexendo na internet, são coisas da vida. Quando ela vai para a escola não aparece nada. A linguagem que ela usa na escola, quando ela volta para casa ela não vê em lugar nenhum. E aí, onde é que está a escola? A escola parece um mundo estranho. As linguagens, hoje, se tornaram multimodais. Um texto que já tem várias coisas inclusas. Som, imagem, texto, animação, um texto deve ter tudo isso para ser atrativo. As crianças têm que aprender isso. Para você fazer um blog, você tem que ser autor – é uma tecnologia maravilhosa porque puxa a autoria. Você não pode fazer um blog pelo outro, o blog é seu, você tem que redigir, elaborar, se expor, discutir. É muito comum lá fora, como nos Estados Unidos, onde milhares de crianças de sete anos que já são autoras de ficção estilo Harry Potter no blog, e discutem animadamente com outros autores mirins. Quando vão para a escola, essas crianças se aborrecem, porque a escola é devagar.

Então a escola precisa mudar para acompanhar o ritmo dos alunos?

Precisa, e muito. Não que a escola esteja em risco de extinção, não acredito que a escola vai desaparecer. Mas nós temos que restaurar a escola para ela se situar nas habilidades do século XXI, que não aparecem na escola. Aparecem em casa, no computador, na internet, na lan house, mas não na escola. A escola usa a linguagem de Gutenberg, de 600 anos atrás. Então acho que é aí que temos que fazer uma grande mudança. Para mim, essa grande mudança começa com o professor. Temos que cuidar do professor, porque todas essas mudanças só entram bem na escola se entrarem pelo professor – ele é a figura fundamental. Não há como substituir o professor. Ele é a tecnologia das tecnologias, e deve se portar como tal.

Qual é a diferença da interferência da linguagem mais tecnológica para, como o senhor falou, a linguagem de Gutenberg?

Cultura popular. O termo mudou muito, e cultura popular agora é mp3, dvd, televisão, internet. Essa é a linguagem que as crianças querem e precisam. Não exclui texto. Qual é a diferença? O texto, veja bem, é de cima para baixo, da esquerda para a direita, linha por linha, palavra por palavra, tudo arrumadinho. Não é real. A vida real não é arrumadinha, nosso texto que é assim. Nós ficamos quadrados até por causa desses textos que a gente faz. A gente quer pensar tudo seqüencial, mas a criança não é seqüencial. Ela faz sete, oito tarefas ao mesmo tempo – mexe na internet, escuta telefone, escuta música, manda email, recebe email, responde – e ainda acham que na escola ela deve apenas escutar a aula. Elas têm uma cabeça diferente. O texto impresso vai continuar, é o texto ordenado. Mas vai entrar muito mais o texto da imagem, que não é hierárquico, não é centrado, é flexível, é maleável. Ele permite a criação conjunta de algo, inclusive existe um termo interessante para isso que é “re-mix” – todos os textos da internet são re-mix, partem de outros textos. Alguns são quase cópias, outros já são muito bons, como é um texto da wikipedia (que é um texto de enciclopédia do melhor nível).

Qual a sua opinião sobre o internetês?

Assim como é impossível imaginar que exista uma língua única no mundo, também existem as línguas concorrentes. As sociedades não se unificam por língua, mas sim por interesses comuns, por interatividade (como faz a internet por exemplo). A internet usa basicamente o texto em inglês, mas admite outras culturas. Eu não acho errado que a criança que usa a internet invente sua maneira de falar. No fundo, a gramática rígida também é apenas uma maneira de falar. A questão é que pensamos que o português gramaticalmente correto é o único aceitável, e isso é bobagem. Não existe uma única maneira de falar, existem várias. Mas com a liberdade da internet as pessoas cometem abusos. As crianças, às vezes, sequer aprendem bem o português porque só ficam falando o internetês. Acho que eles devem usar cada linguagem isso no ambiente certo – e isso implica também aprender bem o português correto.

O senhor é um grande escritor na área de educação, e tem vários livros publicados. Desses livros qual é o seu preferido?

Posso dizer uma coisa? Eu acho que todos os livros vão envelhecendo, e eu vou deixando todos pelo caminho. Não há livro que resista ao tempo. Mas um dos que eu considero com mais impacto – e não é o que eu prefiro – é o livro sobre a LDB (A Nova LDB: Ranços e Avanços), que chegou a 20 e tantas edições. É um livro que eu não gosto muito, que eu não considero um bom livro, mas… Outros livros que eu gosto mais saíram menos, depende muito das circunstâncias. Eu gosto sobretudo de um livrinho que eu publiquei em 2004, chamado Ser Professor é Cuidar que o Aluno Aprenda. É o ponto que eu queria transmitir a todos os professores: ser professor não é dar aulas, não é instruir, é cuidar que o aluno aprenda. Partir do aluno, da linguagem dele, e cuidar dele, não dar aulas. O professor gosta de dar aula, e os dados sugerem que quanto mais aulas, menos o aluno aprende. O professor não acredita nisso, acha que isso é um grande disparate. Mas é verdade. É melhor dar menos aulas e cuidar que o aluno pesquise, elabore, escreva – aprenda. Aí entra a questão da linguagem de mídia: a língua hoje não é dos gramáticos, é de quem usa a internet. Então a língua vai andar mais, vai ter que se contorcer, vai ser mais maleável.

Então o professor gosta de dar aulas deve mudar esse pensamento?

É um grande desafio: cuidar do professor, arrumar uma pedagogia na qual ele nasça de uma maneira diferente, não seja só vinculado a dar aulas. A pedagogia precisa inventar um professor que já venha com uma cara diferente, não só para dar aulas e que seja tecnologicamente correto. Que mexa com as novas linguagens, que tenha blog, que participe desse mundo – isso é fundamental. Depois, quando ele está na escola, ele precisa ter um reforço constante para aprender. É preciso um curso grande, intensivo, especialização, voltar para a universidade, de maneira que o professor se reconstrua. Um dos desejos que nós temos é de que o professor produza material didático próprio, que ainda é desconhecido no Brasil. Ele tem que ter o material dele, porque a gente só pode dar aula daquilo que produz – essa é a regra lá fora. Quem não produz não pode dar aula, porque vai contar lorota. Não adianta também só criticar o professor, ele é uma grande vítima de todos esses anos de descaso, pedagogias e licenciaturas horríveis, encurtadas cada vez mais, ambientes de trabalho muito ruins, salários horrorosos… Também nós temos que, mais que criticar, cuidar do professor para que ele se coloque a altura da criança. E também, com isso, coloque à altura da criança a escola – sobretudo a escola pública, onde grande parte da população está.

Fonte: http://www.nota10.com.br/novo/web/noticia_view.php?noticia_id=749