REA no II Fórum da Internet no Brasil

A comunidade REA Brasil está organizando um momento de conversa sobre o livro Recursos Educacionais Abertos: práticas colaborativas e políticas públicas e sobre REA em geral no dia 5/07 às 9h durante o II Fórum da Internet no Brasil em Olinda-PE, que acontece entre 3-5 /07/2012.
O livro Recursos Educacionais Abertos: práticas colaborativas e políticas públicas, tendo por organizadores a Bianca Santana, Carolina Rossini e Nelson Pretto foi lançado em maio passado, está disponível para download ou leitura online no link http://livrorea.net.br e possui licença CC-BY.
Estarão presentes os autores Nelson Pretto, Lilian Starobinas e Sérgio Amadeu. Quem estiver por lá e quiser estar conosco, será muito bem-vindo.
A inscrição para o Fórum é gratuita e deve ser feita até as 12h00 do dia 29/06.
Fonte: http://rea.net.br/site/rea-no-ii-forum-da-internet-no-brasil/

Ser leitor


Celso Antunes

– Não sei ler nem escrever, a vida não me propiciou essas regalias. A ausência desses saberes, entretanto, não impediu a construção de alguma felicidade. Tenho família, tenho emprego e embora o que eu ganhe permita que minha família não passe fome, bem sei que o que posso oferecer aos meus filhos não os impede de cobiçar vitrines, com olhos gulosos. Agora estou freqüentando um curso de alfabetização de adultos e, segundo minha professora, em pouco tempo saberei conhecer as letras, decifrar marcas, saber o que os letreiros dos ônibus falam e, até mesmo, olhar os remédios na prateleira da casa de meu sogro, identificando o nome de um ou de outro. Sabendo ler, creio que ganharei um pouco mais, mas mesmo assim, ainda olharei com inveja o mundo das pessoas que sabem mais, muito mais que eu.

– Eu sou um leitor. Tenho família, tenho emprego e embora o que eu ganhe não permita que minha família passe fome, bem sei que o que posso oferecer os meus filhos não os impede de cobiçar vitrines, com olhos gulosos. Mas, se a riqueza material fica distante de meus sonhos, os livros sempre me fizeram cavaleiro das cruzadas, gladiador de Roma, pescador de almas. Com eles, percorri vielas medievais, viajei em fantásticas naves rumo ao amanhã e como saltimbanco, andei por terras que nunca vi, conversei com pessoas que minha admiração se transformou em amor. Sou amigo íntimo de Bradbary, converso sempre com Conam Doyle, jogo palavras de afeto para Clarice e Machado e, com Castro Alves, até em Navios Negreiros andei. Estou esperando uma promoção, sei que não vou ganhar muito, mas as bibliotecas irei usufruir, pelo doce fascínio de passear pelo ontem e pelo amanhã. Sou feliz em meus sonhos e essa felicidade, divido com todos quantos nesta vida fizeram-se leitor.

Eu tenho um cão, chama-se Negus. Meu cachorro não sabe ler, mas é capaz de pensar. Pode com seus ganidos avisar-me que a hora da comida chegou e pode com seus olhos doces transmitir a afeição que sente por mim. Posso dar um osso e dar afagos a Negus, jamais poderei, entretanto ampliar os limites de seus pensamentos. Escravo de um limite biológico inerente a sua espécie, aprenderá um pouco mais, mas nunca fará desse saber um instrumento para aprender outros aprenderes. Não creio que seja muito difícil adestrá-lo, mostrando-lhe como ficar sentado ou dar-me sua pata dianteira, mas, jamais poderei fazer de Negus um sonhador, jamais minha ação de professor poderá ajudá-lo a ser arquiteto de seus próprios sonhos.

Como professor posso também ensinar uma pessoa a ler. Mostrar-lhe como decodificar símbolos, descobrir sílabas e soletrar palavras. Sei que se assim agir estarei ajudando-o. Estarei fazendo algo não muito diferente do que premiar Negus com um osso.

Mas, sei também que como professor posso fazer de um aluno, um leitor. Ler é bem mais que decodificar símbolos; é atribuir sentido ao texto, é compreender, é interpretar. è também descobrir que a língua, tal como roupa que se usa, pode servir-nos em situações diferentes, assumindo formas alternativas.

Fazer de um aluno um leitor é como lhe mostrar um osso e, aos poucos, vê-lo transformando-se em nave espacial, vagando pelo encanto do imaginário, dançado em uma valsa de Strauss. Fazer de um aluno um leitor é, entre outros, apresentá-lo a Arthur Clark e fazê-lo amigo de Stanley Kulbrich.

Fonte: http://www.celsoantunes.com.br/pt/textos_exibir.php?tipo=TEXTOS&id=23

Livro Grátis – Educação e tecnologia: trilhando caminhos

Olá Amigos

A dica de hoje de de minha amiga Tati Martins do fantástico blog ““Mulher é desdobrável. Eu sou.”“. Ele recomendou o livro para ler totalmente grátis. Nesse tempo de crise nada melhor de um livro 0800. O livro indicado é da Lynn Rosalina Alves que é Doutora em Educação e Comunicação entre outras coisas e atuando como:

  • Professora do Departamento de Educação e Comunicação da UNEB – Campus 1
  • Professora do Mestrado em Educação e Contemporaneidade da UNEB – Campus 1, orientando projetos de pesquisa nas áreas de EAD e Educação e Tecnologia.
  • Coordenadora do Projeto de Pesquisa Ensino on-line: trilhando novas possibilidades pedagógicas mediadas pelos jogos eletrônicos.
  • Coordenadora do Grupo de Pesquisa Comunidades Virtuais ( CNPq )
  • Coordenadora dos Núcleos de Educacao e Tecnologia e Educação a Distância das Faculdades Jorge Amado

Alem do livro abaixo há também outros livros para serem baixados, no site.

ALVES, L. R. G., NOVA, C. C. Educação e tecnologia: trilhando caminhos. Salvador : Editora da UNEB, 2003, v.1. p.263.

Download todos os arquivos compactados

Download de cada texto em PDF

Apresentação
Trilha 1 – Educação a Distância
Educação a Distância e Comunicação Interativa
Andréa Lago, Cristiane Nova e Lynn Alves
Os Meios de Comunicação: um Problema para a EAD
Alessandra de Assis Picanço
Educação a Distância: Repensando o Fazer Pedagógico
Vânia Rita Valente
Educação a Distância: Desafios Pedagógicos
Cláudia Magnavita
Tecnologias para EAD via Internet
Mário Sérgio da Silva Brito
Interfaces Gráficas e Educação a Distância
Antonio Luis Lordelo
Trilha 2 – Ambientes e Comunidades Colaborativos de Aprendizagem
Do Discurso à Prática: uma Experiência de Comunidade de Aprendizagem
Lynn Alves
Ambientes Virtuais de Aprendizagem:Problematizando Práticas Curriculares
Edméa Oliveira dos Santos
Mapas Virtuais: Ambientes Colaborativos de Aprendizagem
Alexandra Okada
Trilha 3 – Educação e DispositivosTecnológicos
Educação e NTIC: do Pensamento Dialético ao Pensamento Virtual
Arnaud Soares de Lima Junior
Imagem e Educação: Rastreando Possibilidades
Cristiane Nova
Que Tempo para a Educação? Uma Leitura Psicanalítica
Lídia Maria de Menezes Pinho
A Sala de Aula: Adolescentes e Mídias Digitais
Andréa Lago
Ação Docente e o Livro Didático nos Ambientes Digitais
Vani Moreira Kenski
A Internet como Espaço de Construção do Conhecimento
Simone de Lucena

A Hipertextualidade como Ambiente de Construção de Novas Identidades Docentes
Andrea Cecília Ramal

Abraços e Boa Leitura

Equipe NTE Itaperuna

>Livro Grátis – Educação e tecnologia: trilhando caminhos

>Olá Amigos

A dica de hoje de de minha amiga Tati Martins do fantástico blog ““Mulher é desdobrável. Eu sou.”“. Ele recomendou o livro para ler totalmente grátis. Nesse tempo de crise nada melhor de um livro 0800. O livro indicado é da Lynn Rosalina Alves que é Doutora em Educação e Comunicação entre outras coisas e atuando como:

  • Professora do Departamento de Educação e Comunicação da UNEB – Campus 1
  • Professora do Mestrado em Educação e Contemporaneidade da UNEB – Campus 1, orientando projetos de pesquisa nas áreas de EAD e Educação e Tecnologia.
  • Coordenadora do Projeto de Pesquisa Ensino on-line: trilhando novas possibilidades pedagógicas mediadas pelos jogos eletrônicos.
  • Coordenadora do Grupo de Pesquisa Comunidades Virtuais ( CNPq )
  • Coordenadora dos Núcleos de Educacao e Tecnologia e Educação a Distância das Faculdades Jorge Amado

Alem do livro abaixo há também outros livros para serem baixados, no site.

ALVES, L. R. G., NOVA, C. C. Educação e tecnologia: trilhando caminhos. Salvador : Editora da UNEB, 2003, v.1. p.263.

Download todos os arquivos compactados

Download de cada texto em PDF

Apresentação
Trilha 1 – Educação a Distância
Educação a Distância e Comunicação Interativa
Andréa Lago, Cristiane Nova e Lynn Alves
Os Meios de Comunicação: um Problema para a EAD
Alessandra de Assis Picanço
Educação a Distância: Repensando o Fazer Pedagógico
Vânia Rita Valente
Educação a Distância: Desafios Pedagógicos
Cláudia Magnavita
Tecnologias para EAD via Internet
Mário Sérgio da Silva Brito
Interfaces Gráficas e Educação a Distância
Antonio Luis Lordelo
Trilha 2 – Ambientes e Comunidades Colaborativos de Aprendizagem
Do Discurso à Prática: uma Experiência de Comunidade de Aprendizagem
Lynn Alves
Ambientes Virtuais de Aprendizagem:Problematizando Práticas Curriculares
Edméa Oliveira dos Santos
Mapas Virtuais: Ambientes Colaborativos de Aprendizagem
Alexandra Okada
Trilha 3 – Educação e DispositivosTecnológicos
Educação e NTIC: do Pensamento Dialético ao Pensamento Virtual
Arnaud Soares de Lima Junior
Imagem e Educação: Rastreando Possibilidades
Cristiane Nova
Que Tempo para a Educação? Uma Leitura Psicanalítica
Lídia Maria de Menezes Pinho
A Sala de Aula: Adolescentes e Mídias Digitais
Andréa Lago
Ação Docente e o Livro Didático nos Ambientes Digitais
Vani Moreira Kenski
A Internet como Espaço de Construção do Conhecimento
Simone de Lucena

A Hipertextualidade como Ambiente de Construção de Novas Identidades Docentes
Andrea Cecília Ramal

Abraços e Boa Leitura

Equipe NTE Itaperuna

Quando a escola é de vidro

[292160g[5].gif]

Ruth Rocha

Naquele tempo eu até que achava natural que as coisas fossem daquele jeito.
Eu nem desconfiava que existissem lugares muito diferentes…
Eu ia pra escola todos os dias de manhã e quando chegava, logo, logo, eu tinha que me meter no vidro.
É, no vidro!
Cada menino ou menina tinha um vidro e o vidro não dependia do tamanho de cada um, não!
O vidro dependia da classe em que a gente estudava.

Se você estava no primeiro ano ganhava um vidro de um tamanho.
Se você fosse do segundo ano seu vidro era um pouquinho maior.
E assim, os vidros iam crescendo á medida em que você ia passando de ano.
Se não passasse de ano era um horror.
Você tinha que usar o mesmo vidro do ano passado.
Coubesse ou não coubesse.
Aliás nunca ninguém se preocupou em saber se a gente cabia nos vidros.
E pra falar a verdade, ninguém cabia direito.

Uns eram muito gordos, outros eram muito grandes, uns eram pequenos e ficavam afundados no vidro, nem assim era confortável.
Os muitos altos de repente se esticavam e as tampas dos vidros saltavam longe, ás vezes até batiam no professor.
Ele ficava louco da vida e atarrachava a tampa com força, que era pra não sair mais.
A gente não escutava direito o que os professores diziam, os professores não entendiam o que a gente falava…
As meninas ganhavam uns vidros menores que os meninos.
Ninguém queria saber se elas estavam crescendo depressa, se não cabia nos vidros, se respiravam direito…

A gente só podia respirar direito na hora do recreio ou na aula de educação física.
Mas aí a gente já estava desesperado, de tanto ficar preso e começava a correr, a gritar, a bater uns nos outros.
As meninas, coitadas, nem tiravam os vidros no recreio. e na aula de educação física elas ficavam atrapalhadas, não estavam acostumadas a ficarem livres, não tinha jeito nenhum para Educação Física.
Dizem, nem sei se é verdade, que muitas meninas usavam vidros até em casa.
E alguns meninos também.
Estes eram os mais tristes de todos.
Nunca sabiam inventar brincadeiras, não davam risada á toa, uma tristeza!

Se agente reclamava?
Alguns reclamavam.
E então os grandes diziam que sempre tinha sido assim; ia ser assim o resto da vida.
Uma professora, que eu tinha, dizia que ela sempre tinha usado vidro, até pra dormir, por isso que ela tinha boa postura.
Uma vez um colega meu disse pra professora que existem lugares onde as escolas não usam vidro nenhum, e as crianças podem crescer a vontade.
Então a professora respondeu que era mentira, que isso era conversa de comunistas. Ou até coisa pior…

Tinha menino que tinha até de sair da escola porque não havia jeito de se acomodar nos vidros. E tinha uns que mesmo quando saíam dos vidros ficavam do mesmo jeitinho, meio encolhidos, como se estivessem tão acostumados que até estranhavam sair dos vidros.
Mas uma vez, veio para minha escola um menino, que parece que era favelado, carente, essas coisas que as pessoas dizem pra não dizer que é pobre.
Aí não tinha vidro pra botar esse menino.
Então os professores acharam que não fazia mal não, já que ele não pagava a escola mesmo…

Então o Firuli, ele se chamava Firuli, começou a assistir as aulas sem estar dentro do vidro.
O engraçado é que o Firuli desenhava melhor que qualquer um, o Firuli respondia perguntas mais depressa que os outros, o Firuli era muito mais engraçado…
E os professores não gostavam nada disso…
Afinal, o Firuli podia ser um mal exemplo pra nós…
E nós morríamos de inveja dele, que ficava no bem-bom, de perna esticada, quando queria ele espreguiçava, e até mesmo que gozava a cara da gente que vivia preso.
Então um dia um menino da minha classe falou que também não ia entrar no vidro.

Dona Demência ficou furiosa, deu um coque nele e ele acabou tendo que se meter no vidro, como qualquer um.
Mas no dia seguinte duas meninas resolveram que não iam entrar no vidro também:
– Se o Firuli pode por que é que nós não podemos?
Mas Dona Demência não era sopa.
Deu um coque em cada uma, e lá se foram elas, cada uma pro seu vidro…
Já no outro dia a coisa tinha engrossado.
Já tinha oito meninos que não queriam saber de entrar nos vidros.

Dona Demência perdeu a paciência e mandou chamar seu Hermenegildo que era o diretor lá da escola.
Seu Hermenegildo chegou muito desconfiado:
– Aposto que essa rebelião foi fomentada pelo Firuli. É um perigo esse tipo de gente aqui na escola. Um perigo!
A gente não sabia o que é que queria dizer fomentada, mas entendeu muito bem que ele estava falando mal do Firuli.
E seu Hermenegildo não conversou mais. Começou a pegar as meninos um por um e enfiar á força dentro dos vidros.

Mas nós estávamos loucos para sair também, e pra cada um que ele conseguia enfiar dentro do vidro – já tinha dois fora.
E todo mundo começou a correr do seu Hermenegildo, que era pra ele não pegar a gente, e na correria começamos a derrubar os vidros.
E quebramos um vidro, depois quebramos outro e outro mais dona Demência já estava na janela gritando – SOCORRO! VÂNDALOS! BÀRBAROS!
(pra ela bárbaro era xingação).
Chamem o Bombeiro, o exército da Salvação, a Polícia Feminina…

Os professores das outras classes mandaram cada um, um aluno para ver o que estava acontecendo.
E quando os alunos voltaram e contaram a farra que estava na 6° série todo mundo ficou assanhado e começou a sair dos vidros.
Na pressa de sair começaram a esbarrar uns nos outros e os vidros começaram a cair e a quebrar.
Foi um custo botar ordem na escola e o diretor achou melhor mandar todo mundo pra casa, que era pra pensar num castigo bem grande, pro dia seguinte.
Então eles descobriram que a maior parte dos vidros estava quebrada e que ia ficar muito caro comprar aquela vidraria tudo de novo.

Então diante disso seu Hermenegildo pensou um pocadinho, e começou a contar pra todo mundo que em outros lugares tinha umas escolas que não usavam vidro nem nada, e que dava bem certo, as crianças gostavam muito mais.
E que de agora em diante ia ser assim: nada de vidro, cada um podia se esticar um bocadinho, não precisava ficar duro nem nada, e que a escola agora ia se chamar Escola Experimental.
Dona Demência, que apesar do nome não era louca nem nada, ainda disse timidamente:
– Mas seu Hermenegildo, Escola Experimental não é bem isso…

Seu Hermenegildo não se perturbou:
– Não tem importância. Agente começa experimentando isso. Depois a gente experimenta outras coisas…
E foi assim que na minha terra começaram a aparecer as Escolas Experimentais.
Depois aconteceram muitas coisas, que um dia eu ainda vou contar…

Obs.: O terceiro conto de Este admirável mundo louco, de Ruth Rocha que pode ser lido aqui

>Quando a escola é de vidro

>

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Ruth Rocha

Naquele tempo eu até que achava natural que as coisas fossem daquele jeito.
Eu nem desconfiava que existissem lugares muito diferentes…
Eu ia pra escola todos os dias de manhã e quando chegava, logo, logo, eu tinha que me meter no vidro.
É, no vidro!
Cada menino ou menina tinha um vidro e o vidro não dependia do tamanho de cada um, não!
O vidro dependia da classe em que a gente estudava.

Se você estava no primeiro ano ganhava um vidro de um tamanho.
Se você fosse do segundo ano seu vidro era um pouquinho maior.
E assim, os vidros iam crescendo á medida em que você ia passando de ano.
Se não passasse de ano era um horror.
Você tinha que usar o mesmo vidro do ano passado.
Coubesse ou não coubesse.
Aliás nunca ninguém se preocupou em saber se a gente cabia nos vidros.
E pra falar a verdade, ninguém cabia direito.

Uns eram muito gordos, outros eram muito grandes, uns eram pequenos e ficavam afundados no vidro, nem assim era confortável.
Os muitos altos de repente se esticavam e as tampas dos vidros saltavam longe, ás vezes até batiam no professor.
Ele ficava louco da vida e atarrachava a tampa com força, que era pra não sair mais.
A gente não escutava direito o que os professores diziam, os professores não entendiam o que a gente falava…
As meninas ganhavam uns vidros menores que os meninos.
Ninguém queria saber se elas estavam crescendo depressa, se não cabia nos vidros, se respiravam direito…

A gente só podia respirar direito na hora do recreio ou na aula de educação física.
Mas aí a gente já estava desesperado, de tanto ficar preso e começava a correr, a gritar, a bater uns nos outros.
As meninas, coitadas, nem tiravam os vidros no recreio. e na aula de educação física elas ficavam atrapalhadas, não estavam acostumadas a ficarem livres, não tinha jeito nenhum para Educação Física.
Dizem, nem sei se é verdade, que muitas meninas usavam vidros até em casa.
E alguns meninos também.
Estes eram os mais tristes de todos.
Nunca sabiam inventar brincadeiras, não davam risada á toa, uma tristeza!

Se agente reclamava?
Alguns reclamavam.
E então os grandes diziam que sempre tinha sido assim; ia ser assim o resto da vida.
Uma professora, que eu tinha, dizia que ela sempre tinha usado vidro, até pra dormir, por isso que ela tinha boa postura.
Uma vez um colega meu disse pra professora que existem lugares onde as escolas não usam vidro nenhum, e as crianças podem crescer a vontade.
Então a professora respondeu que era mentira, que isso era conversa de comunistas. Ou até coisa pior…

Tinha menino que tinha até de sair da escola porque não havia jeito de se acomodar nos vidros. E tinha uns que mesmo quando saíam dos vidros ficavam do mesmo jeitinho, meio encolhidos, como se estivessem tão acostumados que até estranhavam sair dos vidros.
Mas uma vez, veio para minha escola um menino, que parece que era favelado, carente, essas coisas que as pessoas dizem pra não dizer que é pobre.
Aí não tinha vidro pra botar esse menino.
Então os professores acharam que não fazia mal não, já que ele não pagava a escola mesmo…

Então o Firuli, ele se chamava Firuli, começou a assistir as aulas sem estar dentro do vidro.
O engraçado é que o Firuli desenhava melhor que qualquer um, o Firuli respondia perguntas mais depressa que os outros, o Firuli era muito mais engraçado…
E os professores não gostavam nada disso…
Afinal, o Firuli podia ser um mal exemplo pra nós…
E nós morríamos de inveja dele, que ficava no bem-bom, de perna esticada, quando queria ele espreguiçava, e até mesmo que gozava a cara da gente que vivia preso.
Então um dia um menino da minha classe falou que também não ia entrar no vidro.

Dona Demência ficou furiosa, deu um coque nele e ele acabou tendo que se meter no vidro, como qualquer um.
Mas no dia seguinte duas meninas resolveram que não iam entrar no vidro também:
– Se o Firuli pode por que é que nós não podemos?
Mas Dona Demência não era sopa.
Deu um coque em cada uma, e lá se foram elas, cada uma pro seu vidro…
Já no outro dia a coisa tinha engrossado.
Já tinha oito meninos que não queriam saber de entrar nos vidros.

Dona Demência perdeu a paciência e mandou chamar seu Hermenegildo que era o diretor lá da escola.
Seu Hermenegildo chegou muito desconfiado:
– Aposto que essa rebelião foi fomentada pelo Firuli. É um perigo esse tipo de gente aqui na escola. Um perigo!
A gente não sabia o que é que queria dizer fomentada, mas entendeu muito bem que ele estava falando mal do Firuli.
E seu Hermenegildo não conversou mais. Começou a pegar as meninos um por um e enfiar á força dentro dos vidros.

Mas nós estávamos loucos para sair também, e pra cada um que ele conseguia enfiar dentro do vidro – já tinha dois fora.
E todo mundo começou a correr do seu Hermenegildo, que era pra ele não pegar a gente, e na correria começamos a derrubar os vidros.
E quebramos um vidro, depois quebramos outro e outro mais dona Demência já estava na janela gritando – SOCORRO! VÂNDALOS! BÀRBAROS!
(pra ela bárbaro era xingação).
Chamem o Bombeiro, o exército da Salvação, a Polícia Feminina…

Os professores das outras classes mandaram cada um, um aluno para ver o que estava acontecendo.
E quando os alunos voltaram e contaram a farra que estava na 6° série todo mundo ficou assanhado e começou a sair dos vidros.
Na pressa de sair começaram a esbarrar uns nos outros e os vidros começaram a cair e a quebrar.
Foi um custo botar ordem na escola e o diretor achou melhor mandar todo mundo pra casa, que era pra pensar num castigo bem grande, pro dia seguinte.
Então eles descobriram que a maior parte dos vidros estava quebrada e que ia ficar muito caro comprar aquela vidraria tudo de novo.

Então diante disso seu Hermenegildo pensou um pocadinho, e começou a contar pra todo mundo que em outros lugares tinha umas escolas que não usavam vidro nem nada, e que dava bem certo, as crianças gostavam muito mais.
E que de agora em diante ia ser assim: nada de vidro, cada um podia se esticar um bocadinho, não precisava ficar duro nem nada, e que a escola agora ia se chamar Escola Experimental.
Dona Demência, que apesar do nome não era louca nem nada, ainda disse timidamente:
– Mas seu Hermenegildo, Escola Experimental não é bem isso…

Seu Hermenegildo não se perturbou:
– Não tem importância. Agente começa experimentando isso. Depois a gente experimenta outras coisas…
E foi assim que na minha terra começaram a aparecer as Escolas Experimentais.
Depois aconteceram muitas coisas, que um dia eu ainda vou contar…

Obs.: O terceiro conto de Este admirável mundo louco, de Ruth Rocha que pode ser lido aqui

A História vai ao Cinema

Filmes nacionais entram na sala de aula

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“Minha geração é ‘cinemeira, como dizia minha avó; como Lênin, acho que o cinema foi a arte do século XX, e os filmes agora não são mais vistos no delicioso escurinho do cinema mas também na televisão ou no vídeo. Os intelectuais, mesmo aqueles mais isolados em sua torre de marfim, apreciam cinema. ‘Papos-cabeça, tentando entender e/ou mudar o mundo ou o país (ou mesmo a nós mesmos, o que é tão difícil quanto o resto), se deram muitas vezes a partir de discussões sobre filmes que nos toca(va)m mais profundamente.”

Na “orelha” do livro “A História vai ao Cinema”, a professora doutora Vavy Pacheco Borges, da Universidade de Campinas (Unicamp) já dá uma clara demonstração da importância e da presença do cinema no imaginário coletivo mundial a partir de seu surgimento e consolidação no século XX. Somos todos, de certa forma, “cinemeiros”. Mesmo quando não vamos com a desejada freqüência ao cinema, assistindo filmes a partir da programação da televisão ou vídeo e DVD, consolidamos a presença e a influência da sétima arte sobre a contemporaneidade.

E não há, entre nós, atualmente, pessoa que possa se dizer imune a essa presença tão marcante dos filmes. É certo, em qualquer ambiente que freqüentemos, encontrar pessoas comentando alguma produção recentemente assistida. Sugestões, críticas, dúvidas, artigos lidos, seqüências destacadas, a interpretação dos atores, a criatividade dos diretores e técnicos, os efeitos especiais, a música, tudo isso e muito mais é objeto de comentários por parte de cinéfilos mais fanáticos ou mesmo de cidadãos comuns, influenciados pelo filme apresentado na noite anterior em algum canal aberto.

O mais interessante é perceber que a riqueza e a variedade de informações dos filmes transparece a cada novo comentário incorporado a discussão. Por mais que tenhamos visto um filme diversas vezes, o mais atentamente possível, sempre aparece alguém com uma idéia, imagem ou dado que passou despercebido a nossos olhos.

Imagem-de-cartaz-de-respectivamente-Bye-bye-Brasil-A-Marvada-Carne-e-Carlota-JoaquinaImagem-de-cartaz-de-respectivamente-Bye-bye-Brasil-A-Marvada-Carne-e-Carlota-JoaquinaImagem-de-cartaz-de-respectivamente-Bye-bye-Brasil-A-Marvada-Carne-e-Carlota-Joaquina

A história do Brasil, nossa cultura, nossos hábitos e costumes, a política ou a economia podem ser percebidas em produções concebidas por nossos melhores cineastas, atores, produtores e técnicos. Acima vemos os cartazes de três filmes de sucesso de diferentes décadas: “Bye-bye Brasil” (1979), “A Marvada Carne” (1985) e “Carlota Joaquina” (1995).

Outro aspecto deveras marcante dessa relação entre os filmes e as pessoas é a forma como muitas vezes estabelecemos uma relação de amor e ódio com alguns títulos. Sempre temos em nossa mente uma lista de filmes que sugerimos a nossos amigos ou colegas de trabalho. Do mesmo modo, estamos dispostos a aconselhar que não assistam determinados títulos, previamente vistos por nós e que condenamos por uma grande variedade de fatores. Essas análises são tão subjetivas que na maior parte das vezes em que condenamos ou recomendamos uma determinada produção invariavelmente aparece alguém a nos contradizer.

Uma das mais conturbadas relações estabelecidas nesse convívio entre homens e filmes é aquela que se verifica num país tropical, de grandes dimensões territoriais, abençoado por Deus e bonito por natureza. E não me refiro, nesse caso, ao intercâmbio estabelecido com o cinema internacional. A questão é de infinitos amores e ódios dentro das próprias fronteiras tupiniquins, entre público e realizadores do cinema nacional. E não é recente, se arrasta a muitos e muitos anos, praticamente desde o estabelecimento de nossa produção cinematográfica.

Nesse ínterim um dos grandes méritos do trabalho organizado por Mariza de Carvalho Soares e Jorge Ferreira, “A História vai ao Cinema”, consiste em dar ao cinema nacional o destaque que merece. Por esse motivo, os organizadores desse livro valioso reuniram um destacado e prestigiado grupo de historiadores das mais variadas instituições acadêmicas para analisar alguns dos melhores e mais polêmicos filmes produzidos no Brasil entre as décadas de 1970 e 1990.

O fato de contar com o apoio de intelectuais prestigiados, provenientes de seleto grupo de universidades dos quatro cantos do país (UFBA, UFPR, UFF, UFRJ, UFCE, USP, UNICAMP, UFMG, UFPE, UnB, UFRGS) só dá ao livro mais charme, credibilidade e diversidade. São diferentes vozes se articulando a respeito de filmes tão dispares quanto Central do Brasil, Gaijin, Pixote, Guerra de Canudos, Eles não usam black-tie, Lúcio Flávio,…

Imagem-do-filme-Pra-Frente-BrasilImagem-do-filme-Eles-nao-usam-black-tie

A repressão da ditadura militar ou a luta dos trabalhadores por seus direitos são temas presentes em filmes de grande sucesso como “Pra Frente Brasil” (1983) e “Eles não usam black-tie” (1981).

Através de suas análises percebemos o quanto o cinema nacional consegue ser atuante, questionador, perturbador, polêmico e culturalmente relevante. Nossos filmes abordam temas como política, violência, nazismo, cotidiano, amor, solidariedade, diversidade, greves e muitos outros assuntos. Utiliza o escurinho do cinema para divulgar causas, consolidar formas de pensar ou questionar posicionamentos. Através de nossos filmes ficamos sabendo que os brasileiros foram, são e continuaram sendo atuantes, participativos e preocupados com o futuro de seu país.

O foco principal dado à história pode, a princípio, esconder a riqueza do trabalho, capaz de atender a um público muito maior que aquele localizado entre os estudiosos da história. Há uma ampla gama de pessoas que poderia ler o livro e tirar proveito do mesmo. Desde estudiosos de cinema, passando por leigos interessados no tema, estudantes em busca de uma maior compreensão do Brasil, professores das mais diversas áreas interessados em diversificar e enriquecer seu trabalho a, até mesmo, políticos, dirigentes sindicais, ONGs ou lideranças comunitárias que pretendam aprender um pouco mais sobre a brasilidade.

Sílvio Tendler, no prefácio, destaca que “a história do século XX será contada com recursos audiovisuais e a partir da produção audiovisual do século XX”, o que reafirma a importância de trabalhos como “A História vai ao Cinema”.

Vivemos imersos numa sociedade onde a imagem é valiosíssima como recurso fomentador de conhecimento e aprendizagem. Não podemos dispor dessa ferramenta tão rica que é o cinema. Uma das colocações iniciais de minha dissertação de mestrado acerca desse poderoso instrumento ponderava que quando vemos um filme temos que nos sintonizar nos mais variados elementos (atores, diálogos, cenografia, sons, música, iluminação, locações, figurinos, fotografia) para podermos entender o que está sendo passado para nós.

Livro-Dona-Flor-e-seus-dois-maridosMemorias-do-carcerePixote-a-lei-do-mais-forte

Veja o filme, leia o livro. Alguns de nossos melhores filmes surgiram de obras de consagrados escritores ou deram origem a livros muito ricos e interessantes a respeito do tema ou da própria produção cinematográfica.

Realizamos múltiplas leituras quando vemos um filme. Ao utilizarmos o cinema como recurso didático em nossas aulas estamos colocando diante de nossos alunos produções que exigiram o trabalho de um grande número de profissionais; pensadas por diretores e roteiristas de forma exaustiva; surgidas do investimento de grandes somas de dinheiro; fruídas após longos períodos de trabalho (de pesquisa, captação de recursos, pré-produção, produção, marketing, edição e distribuição). Não dá para desperdiçar todo esse esforço simplesmente assistindo aos filmes e esquecendo-os.

E o melhor de tudo é perceber como, ao utilizarmos os filmes em nossas aulas, a resposta por parte de nossos estudantes é positiva, enriquecida. O cinema, aliado aos livros, a Internet, a artigos científicos, a revistas e jornais, a pesquisa de campo e a outros recursos e metodologias de trabalho em educação dá ao professor e a seus alunos uma maior capacidade de argumentação, análise, comparação, síntese e posicionamento perante a vida.

Tenho um bom histórico de práticas relacionadas à utilização de filmes em sala de aula. Sinto que há ainda uma certa resistência por parte de um grande número de professores a utilização regular do cinema na escola. A publicação de um número cada vez maior de livros, artigos e páginas da internet dedicadas ao tema auxilia e muito a conscientização quanto as possibilidades da utilização dos filmes no ambiente educacional. Ressalto, entretanto, que para bons resultados nessa prática é necessário muito planejamento. Temos tentado orientar os professores nesse sentido a partir de nossos artigos da coluna Cinema e Educação.

Leiam mais livros como “A História vai ao Cinema”, assistam novos filmes, conversem com outros educadores sobre a aplicação desse recurso em suas aulas, valorizem a produção nacional (cada vez mais rica, cheia de novas idéias e valorizada internacionalmente) e criem projetos que venham a realizar em suas aulas mesclando o cinema a outros recursos. Seus alunos agradecem. A educação também!

Obs.: Traduzindo as siglas das universidades citadas – Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade Federal Fluminense (UFF), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal do Ceará (UFCE), Universidade de São Paulo (USP), Universidade de Campinas (UNICAMP), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade de Brasília (UnB) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

João Luís de Almeida Machado Editor do Portal Planeta Educação; Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro “Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema” (Editora Intersubjetiva).

Fonte: http://www.planetaeducacao.com.br/novo/artigo.asp?artigo=335