Educação e software livre: ética e técnica de mãos dadas

Muito se discute que a educação deve ser libertadora e formar cidadãos críticos. Mas comumente os laboratórios de informática das escolas possuem softwares proprietários instalados em seus computadores. E a maioria das pessoas não percebe o quanto isso é contraditório. Isso porque toda realização humana está sempre carregada de intenção e de ideologia, mesmo que isso não seja muito explícito à primeira vista. Com isso, a discussão que a dicotomia software livre/software proprietário levanta vai muito além da questão técnica, da computação pura e simples. Mas para chegarmos a esse ponto, é preciso iniciar nossa conversa esclarecendo duas confusões comuns na cabeça das pessoas não familiarizadas com o software livre.

A primeira delas é a ideia de que software livre é sinônimo de software gratuito. Na verdade o software livre (como qualquer outra produção humana) tem um custo. A diferença é que ao invés desse custo ser repassado para os usuários, como normalmente acontece no sistema capitalista, ele é “pago” pelos desenvolvedores e colaboradores, das mais diversas formas. Seja com as despesas de manutenção dos equipamentos utilizados em seu desenvolvimento, seja abrindo mão do lazer, de trabalhos extras ou mesmo de outros projetos pessoais (isso pra citar somente alguns exemplos). Repararam como isso acrescenta um forte componente solidário ao desenvolvimento do software livre? Afinal de contas, quantas pessoas você conhece que trabalhariam de graça para beneficiar desconhecidos? Pois é exatamente isso que os envolvidos como software livre fazem.

Em segundo lugar, a crença de que software livre é uma “terra de ninguém”, em que as pessoas produzem softwares que são apropriados pelos outros, de forma descontrolada, sem nenhum tipo de organização. Ao contrário, o software livre valoriza muito mais as pessoas envolvidas em sua produção. Por exemplo, experimente clicar na seção de ajuda de qualquer software livre e procurar pelo item “Sobre”. Lá você encontrará os nomes dos desenvolvedores e, muitas vezes, até mesmo dos tradutores. Você conhece algum software proprietário que tenha esse cuidado com quem o produziu? No máximo você vai encontrar o nome da empresa que o comercializa.

Assim, conforme anunciado no início desse texto, ao ressaltar elementos como a solidariedade e o compartilhamento, sem deixar de valorizar os responsáveis por sua autoria, o software livre demonstra que, mais do que uma postura puramente técnica, é um movimento social que discute, em sua essência, uma relação diferenciada com o conhecimento humano, baseada no princípio da liberdade. Liberdade para estudar e dissecar esse conhecimento em toda a sua essência. De discuti-lo, questioná-lo e alterá-lo, de forma a mantê-lo sempre atualizado à conjuntura atual. E por fim, mas não menos importante, de compartilhá-lo livremente entre todas as pessoas do planeta, sem nenhum tipo de distição social, étnica ou de gênero. Tudo isso serve para reforçar a ideia de criatividade, colaboração e compartilhamento entre as pessoas, em uma estrutura em que todos podem ser criadores. Isso lembra bastante o ideal de educação ampla e transformadora que tantos educadores (eu incluso) defendem, não é mesmo?

Na contramão dessa ideia está a lógica do software proprietário. Uma vez que ele tem um “dono”, todo o conhecimento produzido pelo seu desenvolvimento pertence a quem detém os direitos sobre ele. Detentor esse que não necessariamente é o seu desenvolvedor (uma vez que essa pode ser a tarefa de um funcionário da empresa “dona” desse software). Assim, você tem um primeiro distanciamento entre quem produz e quem é efetivamente reconhecido como responsável pelo software. Além disso, uma vez que esse produto é propriedade de alguém (ou de uma empresa), resta às outras pessoas somente o “direito” (se é que podemos chamar assim) de utilizá-lo, do jeito que ele foi feito (se essa pessoa puder pagar por ele, claro). E já que o conhecimento em relação à tecnologia por trás desses softwares é restrito, é muito comum vermos iniciativas distintas gerando produtos semelhantes, que não interagem uns com os outros, em uma clara demonstração de desperdício de esforços (que o capitalismo dá o singelo nome de “competição” e, pior, considera saudável). Nessa lógica, poucos são os criadores, cabendo à maioria das pessoas o papel de consumidoras desse conteúdo. Qualquer associação com o conceito de “educação bancária” do grande educador Paulo Freire não é mera coincidência.

Dessa forma, a opção pelo software livre nos ambientes educacionais passa não somente por questões técnicas (como robustez contra falhas e segurança aprimorada, inclusive contra vírus), mas, principalmente, por uma questão ética, uma vez que é uma tecnologia calcada em valores muito caros à educação, como a criatividade, o compartilhamento, a solidariedade a valorização das pessoas enquanto autoras e a liberdade.

Mas, com tantas características positivas, por que o uso do software livre não é mais disseminado, especialmente em ambientes educacionais? Deixando de lado questões pouco éticas, como “favores” e “presentes” oferecidos pela indústria de software proprietário aos seus compradores (especialmente os grandes), um dos sérios problemas que enfrentamos no software livre é justamente a falta de divulgação e de esclarecimento, especialmente para o público mais leigo. Isso é particularmente sério se considerarmos a propaganda que o software proprietário faz (não só comercial como também ideológica) e o preconceito contra o software livre, por ser considerado difícil (as pessoas falam isso, na maioria das vezes, sem nunca tê-los usado) e pouco confiável, pelo fato de, para o usuário final, ser de “graça” (como se valor financeiro fosse sinônimo de qualidade).

Daí a importância da colaboração de todos para a disseminação do software livre. Mesmo sem conhecer nenhuma linguagem de programação, cada um de nós pode atuar das mais diversas formas: traduzindo os softwares e sua documentação (ou produzindo material inédito), esclarecendo as pessoas, fazendo propaganda direta, divulgando softwares livres entre os conhecidos, ajudando em fóruns e grupos de discussão, distribuindo e instalando esses softwares nos computadores… Você escolhe a melhor forma. :-)

E caso esteja sem ideias, escolha um grupo de usuários já estabelecido e comece a participar. Um desses grupos é o Software Livre Educacional (também conhecido como SLEducacional ou SLEdu, para os íntimos). :-) Esse grupo, formado primariamente por educadores(as) dos mais diversos níveis de ensino, foi montado pensando na questão da pouca divulgação e no fato de praticamente não existir documentação pedagógica sobre o uso de softwares livres (geralmente a documentação tem um caráter mais técnico). Por isso, os objetivos básicos do grupo são três: tradução, documentação e divulgação de softwares livres que possam ser utilizados pela educação. Atualmente mantemos um sítio web com notícias, fóruns e documentação, uma lista de discussão e uma estrutura de rede social digital, tudo isso, obviamente, baseado em softwares livres. Além disso, integramos a recém-montada rede latino-americana de software livre e educação, a LibrEdu, que está em fase de estruturação. Maiores detalhes sobre essa rede e suas próximas atividades podem ser encontradas na ata da reunião que aconteceu no último FISL. O SLEducacional é aberto a participação de qualquer pessoa interessada no assunto, basta acessar nossa página ou se cadastrar em nossa lista e se apresentar. Propostas são sempre muito bem-vindas. :-)

Quem quiser ler um pouco mais sobre o que eu penso sobre educação e software livre, pode dar uma olhada nos links ao final desse texto. Também mantenho um blog (que atualizo “devezemquandomente”), um perfil social usando o software friendica e uma conta no microblog identi.ca.

Quem quiser conversar mais, é só usar os comentários aqui do blog ou passar em qualquer desses meus espaços. :-)

E não posso deixar de agradecer ao meu amigo Robson pela honra do convite de aparecer aqui no Caldeirão. Valeu demais! :-)

[1] http://sleducacional.org/node/16
[2] http://www.arede.inf.br/inclusao/edicao-n-61-agosto/2010/entrevista
[2] http://portaldoprofessor.mec.gov.br/conteudoJornal.html?idConteudo=674

Professor precisamos de sua luta e de sua voz

Olá amigos

Uma intensa onda vigilantista mundial vem assolando o ciberespaço. E hoje venho falar sobre esse tema que tem passado despercebido pela maioria dos meus colegas professores: as tentativas de controlar a rede ou como ficou conhecido o AI-5 Digital #AI5Digital

A liberdade de expressão e informação é um direito humano reconhecido. O artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos afirma que todos tem o direito à “liberdade de, sem interferências, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios, independentemente de fronteiras”. Hoje, a internet é o meio dominante de troca de informações.

Não ter acesso livre  é uma afronta aos direitos já conquistados e uma forma de impedir a livre troca de informações.

Neste momento, nosso foco principal esta no PL 84/99, a polêmica “Lei Azeredo”. A proposta, que prevê a punição para crimes digitais, causa arrepio em muitos militantes das redes sociais, que já estão chamando a proposta de “AI-5 Digital, que tramita na Câmara. A pressão para a aprovação do projeto vem aumentando, e para mostrar que há resistência popular, Deputados, Ciberativistas, e diversos coletivos e organizações se mobilizaram para diversos atos públicos Brasil afora para mostrar nossa indignação

Este movimento liderados pelos governos são fomentados por grandes corporações e os velhos barões da mídia que se beneficiarão com a censura e controle da Internet.Esta liberdade esta incomodando o “establishment”, e fazendo com que grandes corporações e os governos andem de mãos dadas para tornar a Internet um ambiente controlado, um ambiente onde o capital volte a dominar.

No Brasil já existem diversas ações vigilantistas, são censuras de blogs e até de jornais inteiros, são comunidades no Orkut que são sumariamente eliminadas, e são diversos projetos de lei que tramitam na Câmara e no Senado que tornarão a Internet no Brasil um ambiente inóspito.

Por mais tentativas que “o lado negro da força” venha tentando controlar a rede, fica evidente todo dia que a rede nos pertence. Foi como se a rede desse um megafone a cada um de nos para que possamos expressar nossas opiniões, por mais louca, simples ou filosófica que ela possa ser.

Essa rede nos deu também a possibilidade de sermos extremamente criativos, de extrapolarmos os limites de nossa imaginação, mas principalmente de podermos demonstrar isso para nossos amigos, família ou para pessoas totalmente estranhas aos nossos círculos, pelo simples desejo de conhecer coisas diferentes e criativas irão ver nosso trabalho.

Para acessarmos a mídia do jeito que queremos e principalmente dizer o que quisermos, devemos primeiro defender o direito de usar a rede livremente, antes de criminalizar precisamos decidir quais são os nossos direitos na rede. E principalmente deve ser considerado crime a violação de alguns desses direitos. Por isso a participação de todos no Marco Civil Regulatório é fundamental para todos que usam a rede.

Na tentativa de frear a aprovação do AI-5 Digital, uma mobilização da sociedade civil conseguiu reunir mais de 160 mil assinaturas numa petição online chamada “Pelo veto ao projeto de cibercrimes – Em defesa da liberdade e do progresso do conhecimento da internet brasileira”.

Nesse momento todos devemos ter um único propósito: o de que a regulamentação da internet no Brasil deve respeitar acima de tudo o princípio da liberdade de expressão e a livre circulação de conteúdos, possibilidade peculiar da rede mundial de computadores. O contrário disso representa seguir o rumo da contramão da história.

Reforçar este ponto chave no debate da regulação da internet do Brasil deve ser uma tarefa de todas e todos os brasileiros. O que está em jogo é o fluxo do poder que sai das mãos da velha mídia e seus barões para pessoas como eu e vocês. Hoje qualquer um pode chamar a atenção do público com uma música, um vídeo, um texto ou uma simples imagem e é isso que importa: você é o autor dessa revolução. E eles querem tirar isso de você.

A rede está finalmente tornando-se, naquilo que sempre quisermos/sonhamos: um lugar onde as grandes empresas nunca poderão controlar e onde o povo pode se expressar livremente. Ou seja: A Fronteira Final.

Mas todo esse poder e liberdade têm um preço: sua luta. Por isso sua participação na defesa desses direitos é tão importante contra aqueles que querem retomar esse poder de você, assim tirando o direito de decidir o que fazer na rede.

Então querido professor faça a sua parte: Lute, mobilize, proteste, solte sua voz contra essa violência. Diga um #MEGANÃO ao #AI5Digital

Para saber mais recomendo os links:

Ivana Bentes  (parte 1, parte 2 e parte 3)
Blog do Sergio Amadeu ( link1, link2, link3 )

Abraços e vamos à luta por uma internet livre

Robson Freire

Liberdade de Ensinar

Como garantir a liberdade de ensinar na escola?

Vicente Martins

Que devemos entender por liberdade de ensinar?
Qual a relação entre a liberdade de ensinar e a liberdade de aprender?

Para responder a estas questões , tomaremos, como ponto de referência, o inciso II, do artigo 206, da Constituição de 1988, que se volta ao princípio de liberdade. No primeiro instante, pode-se levantar a questão do sentido de liberdade atribuído ao artigo.

Podemos deduzir, a partir da leitura do inciso II, do artigo 206, da Constituição Federal, que se trata do reconhecimento de que, no processo de formação escolar, cabe à escola, representada por professores, alunos, principalmente estes, a decisão e o agir segundo a sua proposta pedagógica.

As instituições podem assegurar a ação pedagógica ou o agir educacional do professor, no âmbito da educação escolar, respeitando suas metodologias próprias e diretivas segundo a orientação de sua educação superior. O que garante a liberdade de ensinar do professor é o respeito da escola a atitude pedagógica, o discernimento, a exegese que o mesmo faz da pedagogia posta no fazer escolar. Quem define, pois, caminho a percorrer, em sala, para fazer a aprender, é o professor.

São quatro formas de liberdades pedagógicas, a saber:

a) a liberdade de aprender b) a liberdade de ensinar c) a liberdade de pesquisar d) a liberdade de divulgar

Cabe às instituições de ensino o reconhecimento de que o processo de formação escolar se dá fundamentalmente com a liberdade de aprender. Nesse princípio, fica claro que aprender é mais importante do que ensinar.

Aprender deve resultar de uma condição de liberdade de escolha e do reconhecimento das potencialidades que caracterizam as pessoas na sua essência.

Dar liberdade para aprender significa o reconhecimento do efetivo exercício da potencialidade do aluno.

A liberdade de aprender se manifesta pelo reconhecimento de que a aprendizagem resulta de condicionamentos, implicações e consequências individuais. Por isso, quem tem liberdade de liberdade tem o poder conservar condicionamentos ou transformá-lo em benefício de uma assimilação ativa, essência do aprender.

A aprendizagem do aluno depende da liberdade de ensinar do professor. Assim a liberdade de ensinar reside fundamentalmente no liberdade de pensamento e do fazer aprender a prender, de modo a externar, sem qualquer inspeção policialesca da escola, os modelos pedagógicos mais adequados para o trabalho com o alunos. Agora, caberá ao professor conhecer as diferentes pedagogias e métodos para fazer, nas diferentes situações, a escolha do modelo mais apropriado para o ensino.

Ter liberdade de ensinar é ter a liberdade de escolher o que considera melhor para seus educandos.

A liberdade de ensinar pressupõe, também, que ao professor sejam asseguradas as condições objetivas para ensinar, instruir, transmitir conhecimento, através de suas exposições dialogadas e dos recursos materiais e tecnológicos disponíveis nas instituições de ensino, mas o professor poderá reconhecer que ensinar é fundamentalmente levar o aluno a aprender por si. Enfim, o professor deve ter liberdade de ensinar para poder viabilizar a liberdade de aprender do aluno. Quem sabe, ensina. Quem ensina com liberdade, educa. Quem sabe ensinar com liberdade e amor, desenvolve integralmente o educando.

A liberdade de pesquisar, especialmente na educação superior, é um princípio que os profissionais de educação não podem abrir mão para assegurar sua autonomia universitária. Todo professor deve ter o compromisso com a investigação pedagógica.

Os docentes da educação básica também estar engajados na investigação do processo ensino-aprendizagem, desenvolvendo trabalhos científicos que oxigenem o processo pedagógico.

Quem tem a liberdade de aprender, de ensinar e pesquisar acaba desenvolvendo estratégias e atividades originais no ambiente escolar, de tal modo significativo que deve a liberdade de divulgar seu pensamento, sua arte e seu saber. Quem tem liberdade de aprender descobre que a verdadeira liberdade reside em ter um pensamento próprio e que nada no meio escolar justifica enclausuramento de ideias ou de sua memória crítica.

Quem tem liberdade de ensinar transforma suas aulas em muito mais do que lições, mas em artes de ensinar, de tal modo que a liberdade de ensinar revela-se, em muitos professores, como a liberdade de pôr em prática uma ideia, valendo-se, para tanto, de sua competência técnica.

Quando os professores transformam suas aulas em artes revela-se, que sob a liberdade de ensinar, podem obter resultados, no processo escolar, de modos diferentes, de formas pedagógicas das mais diversas.

A liberdade de divulgar a arte refere-se, também, as formas de criação de caráter estético resultantes da vivência pessoa dos alunos e professores, manifestas em obras de arte, artes visuais, artes religiosas, artes populares, arte poéticas e artes musicais.

Quando respeitamos a liberdade dos agentes da escola de divulgarem suas artes, passamos a valorizar a capacidade criadora dos artistas emergentes na escola.

A liberdade de pesquisar exige a garantia da liberdade de divulgar o saber.

Quem pesquisa, fundamenta-se, pedagogicamente, no conhecimento adquirido nos cursos de atualização ou pós-graduação, nas leituras, na formação científica e na captura de informações por meio de recursos tradicionais ou eletrônicos.

Pesquisar é um imperativo para os profissionais de educação escolar.

Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), de Sobral, Ceará, Brasil

Fonte: http://www.centrorefeducacional.com.br/liberens.htm

O mundo livre e a liberdade na escola

Alberto Tornaghi1

Liberdade – [Do lat. Libertate.] S. f. 1. Faculdade de cada um se decidir ou agir segundo a própria determinação(…) 3. Faculdade de praticar tudo quanto não é proibido por lei. 4. Supressão ou ausência de toda a opressão considerada anormal, ilegítima, imoral (…) 6. Independência, autonomia (Dicionário Aurélio Eletrônico)2 .

Liberdade. Software livre. Mundo livre. Escola livre… O que significa essa liberdade a que nos referimos e o que isto tem a ver com a nossa realidade do dia-a-dia? O que é um software livre? O que existe em oposição a “Software Livre”?, “Software Preso”? Vamos discutir neste texto o que é “software livre” e como esse “software livre” mexe com nosso trabalho na escola, bem como quais as liberdades que ele pode trazer para a escola e para a comunidade em que esta está inserida.

O que é software livre?

Software é a palavra da língua inglesa que designa programa de computador. Alguns exemplos podem ser um editor de textos, um programa de cálculos, um jogo de computador, o Windows, o Linux…

Windows e Linux são dois programas de computador com finalidades semelhantes: são “sistemas operacionais”, os programa básicos de que todo computador precisa para funcionar. Os programas que usamos em computador, nós “pobres mortais – usuários”, precisam de um sistema operacional para funcionar. Um sistema operacional é o programa que fica entre nós e o computador, como um tradutor que consegue entender nossas ordens e traduzi-las para a linguagem do computador, para os bits e bytes, aquela linguagem digital com a qual os computadores sabem operar.

O Linux é um sistema operacional livre, o Windows um sistema operacional proprietário.

Qual a diferença fundamental que há entre eles?

A expressão “software livre”, que passarei a chamar de “programa livre” neste texto, é tradução da expressão em inglês “free software”. Essa expressão, se traduzida literalmente, pode ser entendida como programa livre mesmo e não “programa gratuito” o que não é exatamente verdade, ainda que muitos programas livres possam ser conseguidos legalmente sem custos.

A expressão “programa livre” foi criada em oposição ao conceito de “programa proprietário”. São chamados de “programas proprietários” os programas de computador que são propriedade de alguém, programas que têm dono e que não podem ser modificados, alterados, vendidos ou utilizados sem autorização expressa de seu dono. A maior parte dos programas que encontramos para vender nas prateleiras das lojas de computador é “programa proprietário”.

O que compramos na loja não é o programa em si, mas o direito de usá-lo. Por exemplo, quando compramos um CD de música, não compramos as músicas em si, mas adquirimos o direito de ouvi-las. Quem compra um CD de música não tem o direito de fazer uma cópia dele e vender, nem de receber direitos a cada vez que o CD é tocado. Estes são direitos do dono da música, que pode ser seu autor ou alguém que comprou os direitos sobre a música.

Já os “programas livres” podem ser utilizados, modificados, adaptados por qualquer um que tenha competência para tal, sem necessitar de autorização de quem quer que seja para fazê-lo. O programa não tem um dono que recebe direitos a cada vez que o programa é comercializado ou utilizado.

Se o mesmo ocorresse com as músicas, você poderia se “apropriar” de uma “música livre” qualquer de que gostasse, mudar algumas notas ou frases musicais e apresentá-la: “esta é a minha versão para a música x”.

Por trás destes conceitos, ou mais apropriado ainda seria dizer, junto com estes conceitos, está uma concepção de produto intelectual como produto de direito público. Sabemos que os chamados produtos intelectuais trazem “direito autoral”. Em inglês, a expressão para direito autoral é “copy right” o que, numa tradução literal, pode ser entendido como “direito de cópia”. Esta é uma expressão interessante para nos ajudar a refletir sobre o tema: o dono do direito autoral é quem tem direito sobre as cópias daquele produto, só ele pode autorizar cópias, reprodução ou seu uso em qualquer contexto ou formato. E pode cobrar por isso se quiser.

Em oposição à expressão “copy right”, criou-se em inglês, a expressão “copy left”. É um trocadilho, bem-humorado mas muito sério. A expressão poderia ser traduzida por “cópia à esquerda” (em oposição à cópia direita – copy right) mas pode (ou será que deve?) ser traduzida como “cópia deixada” no sentido de que o direito de cópia, uso, modificação e adaptação é expressamente permitido a todos.

Os programas livres têm “copy left” em lugar de copy right. Sua apropriação é permitida a todos os que deles necessitarem.

E a escola com isso?

O software Livre traz alguma novidade para a escola? Acrescenta a ela algum tipo de liberdade, alguma possibilidade de autonomia? Podemos abordar a questão por diversos aspectos. Tentarei tratar pelo menos dos três que me parecem mais urgentes e pertinentes para nós que trabalhamos em escolas e que em breve teremos acesso a computadores equipados com programas livres.

A escola livre e a escola dependente

Para entender o que o uso de programas livres pode trazer para a escola será útil entender como é o processo de desenvolvimento do Linux e o que podemos fazer com ele.

O Linux é desenvolvido por um comunidade mundial de programadores (também chamados de “desenvolvedores” no jargão do mundo da computação), que trabalham cada um numa parte do programa. O que une estes programadores é o desejo e o compromisso de terem acesso a um programa que é livre, que pode ser modificado por cada um deles ao seu bel-prazer e conforme suas necessidades; que pode ser usado por todos e distribuído livremente. Repare que esta é uma comunidade de livre acesso e não uma empresa que contrata desenvolvedores ainda que muitas empresas fomentem a comunidade com patrocínios e contribuições técnicas. Nenhum dos participantes é remunerado diretamente por suas contribuições. Boa parte delas são resultado do trabalho que desenvolveram por alguma necessidade e o oferecem para uso pela coletividade.

Se alguma inovação é considerada útil para o sistema operacional (o Linux), ela é avaliada buscando saber se o faz mais poderoso, mais estável ou mais flexível. Só então esta contribuição é agregada ao programa principal. Para tal existe uma equipe de coordenação que avalia as contribuições enviadas pelos diversos desenvolvedores, as experimenta e decide se devem ser integradas ao código principal.

Bom, então isso quer dizer que existem centenas, talvez milhares de versões do Linux? Exatamente isso. Em cada local, em cada escola, em cada empresa o Linux pode ser modificado, adaptado às necessidades locais. E freqüentemente o é. Talvez aí resida o que há de mais rico nesta interação entre a escola e o mundo dos programas livres: na possibilidade que se abre para que a tecnologia que é utilizada em cada escola, no que se refere à forma como ela é utilizada, seja mais amplamente determinada pelos freqüentadores da escola , pelas suas necessidades locais.

Usar programas livres é um convite a modificá-los, a fazer parte de uma comunidade, uma “trupe” mundial de desenvolvedores que se apóiam, ajudam, tiram dúvidas e auxiliam uns aos outros a usar os recursos que este universo oferece. Ao usar programas livres na escola, professores e alunos serão convidados a darem suas contribuições para a melhoria do sistema tanto criticando o que não funciona como sugerindo mudanças e melhorias. Serão também convidados a participar com o que puderem e quiserem do desenvolvimento do sistema. É uma experiência de comunidade virtual de cooperação, de âmbito mundial como nenhuma outra de que se tenha notícia.

Um exemplo que vem bem a calhar. Existe um pacote de programas chamado “Open Office” que reúne editores de texto, planilha de cálculo, programa para criar páginas para a internet e alguns outros recursos. Os programas foram traduzidos para o Português, mas os manuais não. Foi organizada entre os usuários do programa uma comunidade para escrever os arquivos de ajuda e os manuais em Português. Cada parte do manual tinha um responsável que avaliava as contribuições dos usuários e validava as que estavam suficientemente claras e completas. Quem for ler arquivos de ajuda do Linux verá, ao final de cada texto, uma citação do gênero: “este texto é uma contribuição de Fulano de Tal”. A autoria é preservada, quem ofereceu sua força de trabalho para o desenvolvimento do projeto tem seu nome lá citado. Mas o resultado final, o produto, é um trabalho de muitos e pertence a todos que dele precisarem.

Pensemos sobre isso na escola. Não cai como uma luva, para uma escola que busca ser contextualizada, que procura que a produção dos alunos tenha valor social, levá-los a participar de um tal programa de cooperação? A comunidade de desenvolvedores de programas livres é uma comunidade de aprendizes, que cria conhecimento (soluções, programas, manuais) na medida em que necessita deles. É um belo modelo para aprendermos como construir uma escola que reflete sobre a realidade em que está inserida, e aprende e ensina cada uma das disciplinas de forma contextualizada, correlacionando com o mundo real em que está inserida.

Esta tecnologia faz escola. Uma escola que faz tecnologia!

O Linux está chegando às escolas. O que podemos ou devemos fazer com ele?

Um segundo fator importante é que o Linux está chegando às escolas. Os novos computadores que serão distribuídos para as escolas públicas virão com sistema operacional Linux. Há muitas razões para isso, mas a principal delas é a garantia de autonomia e de independência operacional no uso das tecnologias de informação e comunicação para as escolas.

Ao escolher utilizar programas proprietários, fica-se sempre na dependência de seu fabricante para cada novo recurso que se quer utilizar. Quem tem um scanner antigo (acessório que digitaliza imagens) ou uma câmera digital antiga talvez não consiga utilizá-la com as versões mais novas do Windows. Por outro lado, quem tem um computador com versão antiga do Windows não consegue usar direito os programas mais recentes. Não consegue porque os donos desses programas os desenvolvem apenas para as versões mais modernas do sistema operacional. E não podemos modificar o Windows que temos para que ele se adapte aos novos recursos que pretendermos usar. Não podemos fazê-lo porque ele é um programa proprietário, apenas a empresa que detém seu direito autoral detém acesso aos códigos de instruções dos programas para modificá-lo.

Usando programas livres nas escolas, quando um novo recurso é lançado, pode-se montar um grupo para adaptar o sistema e fazê-lo aceitar o novo recurso. Isso porque o código fonte é público, todos podemos ter acesso a ele e, quem sabe programar na linguagem em que ele foi escrito pode modificá-lo.

É o que está fazendo a Prefeitura de Arraial do Cabo, através da Secretaria de Educação desenvolvendo sua própria interface para o Linux e adaptando-o para atenda suas demandas. O que se busca é ter, desde já um sistema operacional que sela “leve”, ënxuto” e personalizado, que possa das sobrevida aos computadores, que têm hoje, já com 2 anos de uso em média. Saqui a algum tempo (pouquíssimo tempo) com certeza precisariam ser atualizados caso tivessem optado por utilizar Sistema Operacional proprietário. Assim, os computadores que de outra forma seriam considerados obsoletos porque não conseguem rodar a versão mais moderna do Windows, continuam úteis, em uso nas escolas e no cyber- café público mantido pela prefeitura. Como os computadores ganham sobrevida, mais gente pode ter acesso a eles, mais alunos e escolas podem usufruir os equipamentos. E o recurso que seria investido em novos computadores pode ter outra destinação.

E tudo isso acontece criando tecnologia local. Quem desenvolve o programa são cidadãos de Arraial do Cabo, que aprendem e criam tecnologia própria. Em lugar de importar tecnologia, criam tecnologia, empregos e trabalho no próprio município.

Este é um exemplo eloqüente e claro de como o uso de tecnologia livre amplia a liberdade de escolha a autonomia tecnológica e o desenvolvimento de capacidades locais. Antes, o fabricante de programas de computador determinava quando um computador deveria ser substituído: a data era resultado do lançamento de uma nova e mais poderosa versão do sistema operacional e não a falha ou inadequação do equipamento a seus fins. Com o uso de programas livres, os administradores e professores de Arraial do Cabo poderão continuar a usar o equipamento para os fins aos quais ele ainda atende.

Esta tecnologia faz escola. Esta escola faz tecnologia!

Custo do computador e dos programas

Temos ainda que enfrentar a questão dos custos. Mesmo que não sejamos nós, professores, quem diretamente toma as decisões, nesses aspectos, o resultado deste investimento se mostra diretamente na escola, nas propostas que passam a ser possíveis de ser implementadas ou não.

Um computador, para funcionar, precisa ter programas instalados. Quando usamos programas proprietários, este custo costuma chegar ao dobro do preço do computador em si devido às licenças que devemos pagar para utilizá-los. Isso se usarmos apenas os programas mais comuns, sem incluir aí nenhum programa educativo especial.

Usando programas livres, tipicamente faz-se, num primeiro momento, investimento equivalente em vulto financeiro, mas não na compra de licenças de uso e sim em treinamento inicial e suporte. Ora, qual a diferença entre um e outro, que justifique o uso de programas livres?

O investimento em licenças, no caso dos programas proprietários, resolve um problema inicial aparentemente sem grandes esforços: compram-se as licenças, instalam-se os programas e vamos em frente.

Não é bem assim. Em qualquer caso será necessário, depois de instalar os programas, preparar as pessoas para usá-los. E uma preparação superficial e pouco cuidadosa resulta em usuários pouco críticos e com conhecimento superficial dos recursos, o que diminui as chances de serem criativos na sua exploração como instrumentos de apoio ao projeto pedagógico.

O investimento pesado em formação dos professores e suporte a esses, ao contrário, deve viabilizar a consolidação de um grupo de usuários com amplo domínio dos sistemas, capazes de criar novas soluções e dar suporte a seus pares. A criação e o desenvolvimento de novas possibilidades de uso da tecnologia passam a ser resultado do trabalho de professores e alunos da própria comunidade.

O grande diferencial é que se cria e se instala cultura na comunidade. Investindo em formação em lugar de licenças de uso, ampliamos as possibilidades de trabalho para a população local, em competência profissional e tecnológica e em autonomia no uso das tecnologias de informação e comunicação. Isto é liberdade: liberdade de criação, de uso, de escolha…

Fazendo uso do dito popular, é ensinar a pescar e a fazer a vara de pescar em lugar de entregar o peixe pronto.

Esta tecnologia faz escola. Esta escola faz tecnologia!

Por fim, uma questão ética

Para encerrar esta nossa conversa, que espero seja só uma primeira de muitas outras, há uma questão fundamental a ser tratada: a ética. É preciso pensar, a cada instante, que mundo estamos ajudando a construir com cada uma de nossas atitudes, ações, palavras e decisões.

É comum, quando converso sobre este tema com alunos, com seus pais e com meus colegas professores que me respondam: “mas meu computador já veio com os programas instalados e eu não paguei nada por isso!”

Das duas uma: ou o preço dos programas está embutido no preço do computador ou os programas são cópias ilegais.

No primeiro caso, o usuário está sendo flagrantemente enganado: acredita que ao comprar o computador ganhou de graça uma coleção de produtos que, na verdade, custou 2/3 do valor de sua compra.

No segundo caso, talvez mais grave, o usuário está contribuindo, sabendo-o ou não, para uma prática nada recomendável: está usando um produto a que não tem direito. Agindo assim estaremos contribuindo para a construção de um espaço de desrespeito às regras sociais, o que é o oposto de nossa função social. São de nossa responsabilidade (de todo cidadão, na verdade) pensar sobre o valor das leis e das regras, buscar compreender quais valores estão por trás delas, tentar mudar as que nos parecem injustas e defender o respeito às que nos parecem justas. Mas não nos cabe eleger leis e regras das quais não gostamos e permitir que sejam simplesmente desrespeitadas. Isto nos levaria ao caos e não a um espaço de liberdade.

A liberdade é construída e conquistada. Exige esforço e empenho. Na escola, este esforço é sua própria razão de ser: o esforço de criar competências que habilitem tanto professores, como os alunos e seus pais a fazer escolhas e construir caminhos próprios

O software livre em seus princípios busca oferecer a todos a possibilidade de acesso ao conhecimento, no caso programas de computador, e intervir no processo de construção desse conhecimento. Neste sentido, esta tecnologia está essencialmente vinculada a princípios democráticos de distribuição de conhecimento e da possibilidade de construi-lo para e por todos, e não apenas por razões estritamente comerciais.

A questão que se coloca para nós, professores, neste momento, é mais do que decidir entre comprar pronto ou fazer o seu. A questão é usar produtos que conhecemos e podemos modificar e, principalmente, constituir competência para continuar produzindo soluções próprias ou nos satisfazermos com soluções prontas que nos obrigarão, a cada nova necessidade, a comprar um novo produto, sempre uma “caixa preta” que não sabemos como funciona.

Isto não deve fundamentar, em absoluto, uma opção fechada por este ou aquele produto, esta ou aquela tecnologia. O que nos cabe na escola é apresentar e experimentar alternativas, proporcionar a nossos alunos a possibilidade de conhecer as diversas possibilidades existentes, compreender o que podem fazer com cada uma delas e se prepararem para fazer opções e tomar decisões em suas vidas.

Uma tecnologia que faz escola e uma escola que faz tecnologia. Estas são opções para construção de autonomia, de liberdade de possibilidades para a construção de um caminho próprio.

Uma escola que faz tecnologia deve ser uma escola que cria com liberdade. Que cria uma sociedade livre.

De volta ao dicionário

Liberdade – 11. Filos. Caráter ou condição de um ser que não está impedido de expressar, ou que efetivamente expressa, algum aspecto de sua essência ou natureza. [Quanto à liberdade humana, o problema consiste (…) na determinação dos limites que sejam garantia de desenvolvimento das potencialidades dos homens no seu conjunto] .

1 Assessor pedagógico do Departamento de Informática Educativa – Colégio Santo Inácio, Rio de Janeiro, RJ. Pesquisador da COPPE – UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro.

2 Aurélio Eletrônico, versão 3.0 de novembro de 1999.

Fonte: SALTO PARA O FUTURO / TV ESCOLA WWW.TVEBRASIL.COM.BR/SALTO

Por que não liberar?

Voltar à velha rotina de imersão em livros é sempre muito produtivo. Esta semana tive contato com um ótimo texto, daqueles que ficam grudados na gente e que temos certeza que dificilmente iremos esquecer. O texto de que falo é O rumor da língua, de Roland Barthes.

O melhor do texto de Barthes é o modo como ele traz os holofotes para cima do leitor e estabelece: o leitor é livre para fazer o que bem entender com o texto, e como texto podemos entender não só os livros, mas tudo que podemos ler (o próprio mundo é um texto). O importante da afirmação do autor é que, se pararmos e erguermos a cabeça (como ele próprio diz) não há como questionar a liberdade do leitor. Lembro muito bem dos meus primeiros anos de leitura, quando eu construía as minhas histórias em quadrinhos com os personagens dos gibis que comprava na feira.

Para os que produzem algum tipo de material para ser “lido” (leitura aqui entendida como algo muito além da leitura só de livro), como música, pintura, fotografia, propaganda, quadrinhos, arte ou entretenimento em geral, isso traz um imenso dilema: se o meu leitor, alvo principal de minha produção, cria e recria a minha obra o tempo todo, porque proibi-lo de divulgar, de tornar pública essa criação?

Quando eu iniciei com a publicação de tirinhas, antes do imenso hiato que separa minha antiga fase da fase atual, eu tinha um pensamento muito parecido com o de Charles Schultz, genial criador do adorável Snoopy. Pra quem não sabe, Schultz proibiu a utilização de qualquer um de seus personagens, apenas ele e o animador da série de TV, poderiam usar os adoráveis personagens de Peanuts. Com isso, o autor desejava que sua obra não fosse “pervertida”, que não colocassem seus personagens em rumos e caminhos muito diferentes dos que ele imaginou.

Isso é bom, se pensarmos que a obra manterá sempre o seu espírito original, da mesma forma que o seu criador planejou. No entanto acarreta alguns problemas que, pondo em uma balança, acabam prejudicando mais a obra do que ajudando. Primeiro, devemos pensar no dano que isto causa para as gerações futuras. Hoje o acesso aos Peanuts já é algo difícil para a nova geração, tão habituada que está aos animes. Imagine então daqui a 10 ou 20 anos. Se os traços de Schultz e as animações derivadas de suas tiras já parecem retrógadas para a garotada, como será daqui a duas décadas? Se a produção de outras obras estivesse permitida pelo autor a coisa poderia ser muito diferente: a genialidade dos personagens de Peanuts poderiam sobreviver por um tempo indeterminado em tiras, revistas e animações (até filmes) que se repetiriam e se recriariam ao longo dos anos.

Evidentemente a liberação de obras por outros que não o criador pode gerar alguns constrastes demasiadamente bruscos quando comparadas criação derivada e criação original, um belo exemplo disso é a nova versão de desenhos feitas para o Pica-Pau no início deste século. A nova ave em nada se parece com o personagem perverso e carismático que encantou o público do século XX. Entretanto, o Pica-Pau continua lá e outras obras que resgatem o espírito original do personagem podem ser criadas. Sem falar que as obras derivadas do original, muitas vezes, podem ser muito boas e até melhores. Vejam o que aconteceu com os Looney Toones, criação iniciada por Tex Avery. A Warner caprichou nas novas versões da série e conseguiu produzir desenhos tão bons quanto os originais (com todas as adaptações e inovações necessárias).

Hoje, como podem ver pelo que eu disse até aqui, meu pensamento é completamente diferente. Na arte e no entretenimento não vejo motivo para proibir outra pessoa de desfrutar, criar e produzir a partir de algo que eu fiz. Por que proibir o acesso das pessoas à minha criação só porque elas não podem pagar para ter acesso a elas? A resposta está na indústria do consumo e na sociedade que até bem pouco tempo seguia muito bem as regras do mercado capitalista.

Porém, graças à internet e principalmente à noção de “compartilhamento” que foi enriquecida e evidenciada em muito com o surgimento do projeto GNU e do Linux. Após essas iniciativas do compartilhamento do saber, outras iniciativas foram surgindo e hoje nós encontramos inúmeras formas e projetos que incentivam a livre distribuição e utilização dos mais variados materiais.

Os gigantes da indústria ainda teimam em criticar esse modelo, alegando que isso tira os benefícios do autor. Sob o pretesto imbecil de que assim o autor não terá reconhecimento – como se reconhecimento se traduzisse no número de zeros à direita que a sua conta bancária possui.

Alguns exemplos de como essas desculpas estão erradas podem ser encontradas aos montes por aí. Para iniciar, podemos falar do mais famoso: Linus Torvalds. Alguém acredita que o célebre criador do Linux seria tão famoso se não tivesse liberado a sua criação pra todo mundo usar, abusar e modificar? Certamente não. Outro caso significativo é do Radiohead, que lançou um álbum na web, que você pagava o quanto quisesse e se quisesse, e que redendeu mais lucro do que o álbum anterior, vendido nos moldes tradicionais. No campo dos quadrinhos, há a mais famosa das webcomics nacionais: os Malvados. André Dahmer, criador do site, não permite a livre utilização e criação de obras derivadas, mas permite a circulação das suas tiras pela web sem problemas (desde que o avise antes), e isso certamente foi o que o tornou mais popular e o faz hoje vender camisetas, canecas e livros das tiras que (pasmem) ele publica no site.

Enfim, isso tudo serve apenas pra tentar fazer você, que produz ou consome algum tipo de produto cultura, entender que há outras maneiras de se lucrar com a obra. Não é necessário amarrar ela em inúmeros “direitos autorais” para que os outros saibam quem a produziu (vaidade inevitável). Não é justo privar as pessoas de escutar uma música, ler um livro ou um quadrinho, ver uma pintura só porque elas não podem pagar por isso. Muito menos justo é impedi-las de expor suas “leituras” de produções que elas ouviram, leram e observaram.

Viva a criação e a liberdade. Isso é o que verdadeiramente movimenta o mundo.

É isso.

Ótima semana pra todos.

Um abraço.

Deus esteja

Fonte: http://noisnatira.com/2009/03/29/por-que-nao-liberar/

>Por que não liberar?

>

Voltar à velha rotina de imersão em livros é sempre muito produtivo. Esta semana tive contato com um ótimo texto, daqueles que ficam grudados na gente e que temos certeza que dificilmente iremos esquecer. O texto de que falo é O rumor da língua, de Roland Barthes.

O melhor do texto de Barthes é o modo como ele traz os holofotes para cima do leitor e estabelece: o leitor é livre para fazer o que bem entender com o texto, e como texto podemos entender não só os livros, mas tudo que podemos ler (o próprio mundo é um texto). O importante da afirmação do autor é que, se pararmos e erguermos a cabeça (como ele próprio diz) não há como questionar a liberdade do leitor. Lembro muito bem dos meus primeiros anos de leitura, quando eu construía as minhas histórias em quadrinhos com os personagens dos gibis que comprava na feira.

Para os que produzem algum tipo de material para ser “lido” (leitura aqui entendida como algo muito além da leitura só de livro), como música, pintura, fotografia, propaganda, quadrinhos, arte ou entretenimento em geral, isso traz um imenso dilema: se o meu leitor, alvo principal de minha produção, cria e recria a minha obra o tempo todo, porque proibi-lo de divulgar, de tornar pública essa criação?

Quando eu iniciei com a publicação de tirinhas, antes do imenso hiato que separa minha antiga fase da fase atual, eu tinha um pensamento muito parecido com o de Charles Schultz, genial criador do adorável Snoopy. Pra quem não sabe, Schultz proibiu a utilização de qualquer um de seus personagens, apenas ele e o animador da série de TV, poderiam usar os adoráveis personagens de Peanuts. Com isso, o autor desejava que sua obra não fosse “pervertida”, que não colocassem seus personagens em rumos e caminhos muito diferentes dos que ele imaginou.

Isso é bom, se pensarmos que a obra manterá sempre o seu espírito original, da mesma forma que o seu criador planejou. No entanto acarreta alguns problemas que, pondo em uma balança, acabam prejudicando mais a obra do que ajudando. Primeiro, devemos pensar no dano que isto causa para as gerações futuras. Hoje o acesso aos Peanuts já é algo difícil para a nova geração, tão habituada que está aos animes. Imagine então daqui a 10 ou 20 anos. Se os traços de Schultz e as animações derivadas de suas tiras já parecem retrógadas para a garotada, como será daqui a duas décadas? Se a produção de outras obras estivesse permitida pelo autor a coisa poderia ser muito diferente: a genialidade dos personagens de Peanuts poderiam sobreviver por um tempo indeterminado em tiras, revistas e animações (até filmes) que se repetiriam e se recriariam ao longo dos anos.

Evidentemente a liberação de obras por outros que não o criador pode gerar alguns constrastes demasiadamente bruscos quando comparadas criação derivada e criação original, um belo exemplo disso é a nova versão de desenhos feitas para o Pica-Pau no início deste século. A nova ave em nada se parece com o personagem perverso e carismático que encantou o público do século XX. Entretanto, o Pica-Pau continua lá e outras obras que resgatem o espírito original do personagem podem ser criadas. Sem falar que as obras derivadas do original, muitas vezes, podem ser muito boas e até melhores. Vejam o que aconteceu com os Looney Toones, criação iniciada por Tex Avery. A Warner caprichou nas novas versões da série e conseguiu produzir desenhos tão bons quanto os originais (com todas as adaptações e inovações necessárias).

Hoje, como podem ver pelo que eu disse até aqui, meu pensamento é completamente diferente. Na arte e no entretenimento não vejo motivo para proibir outra pessoa de desfrutar, criar e produzir a partir de algo que eu fiz. Por que proibir o acesso das pessoas à minha criação só porque elas não podem pagar para ter acesso a elas? A resposta está na indústria do consumo e na sociedade que até bem pouco tempo seguia muito bem as regras do mercado capitalista.

Porém, graças à internet e principalmente à noção de “compartilhamento” que foi enriquecida e evidenciada em muito com o surgimento do projeto GNU e do Linux. Após essas iniciativas do compartilhamento do saber, outras iniciativas foram surgindo e hoje nós encontramos inúmeras formas e projetos que incentivam a livre distribuição e utilização dos mais variados materiais.

Os gigantes da indústria ainda teimam em criticar esse modelo, alegando que isso tira os benefícios do autor. Sob o pretesto imbecil de que assim o autor não terá reconhecimento – como se reconhecimento se traduzisse no número de zeros à direita que a sua conta bancária possui.

Alguns exemplos de como essas desculpas estão erradas podem ser encontradas aos montes por aí. Para iniciar, podemos falar do mais famoso: Linus Torvalds. Alguém acredita que o célebre criador do Linux seria tão famoso se não tivesse liberado a sua criação pra todo mundo usar, abusar e modificar? Certamente não. Outro caso significativo é do Radiohead, que lançou um álbum na web, que você pagava o quanto quisesse e se quisesse, e que redendeu mais lucro do que o álbum anterior, vendido nos moldes tradicionais. No campo dos quadrinhos, há a mais famosa das webcomics nacionais: os Malvados. André Dahmer, criador do site, não permite a livre utilização e criação de obras derivadas, mas permite a circulação das suas tiras pela web sem problemas (desde que o avise antes), e isso certamente foi o que o tornou mais popular e o faz hoje vender camisetas, canecas e livros das tiras que (pasmem) ele publica no site.

Enfim, isso tudo serve apenas pra tentar fazer você, que produz ou consome algum tipo de produto cultura, entender que há outras maneiras de se lucrar com a obra. Não é necessário amarrar ela em inúmeros “direitos autorais” para que os outros saibam quem a produziu (vaidade inevitável). Não é justo privar as pessoas de escutar uma música, ler um livro ou um quadrinho, ver uma pintura só porque elas não podem pagar por isso. Muito menos justo é impedi-las de expor suas “leituras” de produções que elas ouviram, leram e observaram.

Viva a criação e a liberdade. Isso é o que verdadeiramente movimenta o mundo.

É isso.

Ótima semana pra todos.

Um abraço.

Deus esteja

Fonte: http://noisnatira.com/2009/03/29/por-que-nao-liberar/