Desafios da Internet para o professor

José Manuel Moran(*)

Com a chegada da Internet nos defrontamos com novas possibilidades, desafios e incertezas o processo de ensino-aprendizagem.


Não podemos esperar das redes eletrônicas a solução mágica para modificar profundamente a relação pedagógica, mas vão facilitar como nunca antes a pesquisa individual e grupal, o intercâmbio de professores com professores, de alunos com alunos, de professores com alunos.

A Internet propicia a troca de experiências, de dúvidas, de materiais, as trocas pessoais, tanto de quem está perto como longe geograficamente.

A Internet pode ajudar o professor a preparar melhor a sua aula, a ampliar as formas de lecionar, a modificar o processo de avaliação e de comunicação com o aluno e com os seus colegas.

O professor vai ampliar a forma de preparar a sua aula. Pode ter acesso aos últimos artigos publicados, às notícias mais recentes sobre o tema que vai tratar, pode pedir ajuda a outros colegas – conhecidos e desconhecidos – sobre a melhor maneira de trabalhar aquele assunto com os seus estudantes. Pode ver que materiais -programas, vídeos, exercícios existem. Já é possível copiar imagens, sons, trechos de vídeos. Em pouco tempo o acesso a materiais audiovisuais será muito mais fácil. Tem tanto material disponível, que imediatamente vai aparecer se o professor está atualizado, se preparou realmente a aula (porque os alunos também têm acesso às mesmas informações, bancos de dados, etc).

O grande avanço neste campo da preparação de aula está na possibilidade de consulta a colegas conhecidos e desconhecidos, a especialistas, de perguntar e obter respostas sobre dúvidas, métodos, materiais, estratégias de ensino-aprendizagem. O papel do professor não é o de somente coletar a informação, mas de trabalhá-la, de escolhê-la, confrontando visões, metodologias e resultados.

O professor pode iniciar um assunto em sala de aula sensibilizando, criando impacto, chamando a atenção para novos dados, novos desafios.Depois, convida os alunos a fazerem suas próprias pesquisas, -individualmente e em grupo- e que procurem chegar a suas próprias sínteses. Enquanto os alunos fazem pesquisa, o professor pode ser localizado eletronicamente, para consultas, dúvidas. O professor se transforma num assessor próximo do aluno, mesmo quando não está fisicamente presente. Não interessa se o professor está na escola, em casa, ou viajando. O importante é que ele pode conectar-se com os outros e pode ser localizado, se quiser, em qualquer lugar e em qualquer momento. A aula se converte num espaço real de interação, de troca de resultados, de comparação de fontes, de enriquecimento de perspectivas, de discussão das contradições, de adaptação dos dados à realidade dos alunos. O professor não é o “informador”, mas o coordenador do processo de ensino-aprendizagem. Estimula, acompanha a pesquisa, debate os resultados.

Os alunos podem fazer suas pesquisas antes da aula, preparar apresentações -individualmente e em grupo. Podem consultar colegas conhecidos ou desconhecidos, da mesma ou de outras escolas, da mesma cidade, país ou de outro país. Aumentará incrivelmente a interação com outros colegas, pesquisando os mesmos assuntos, trocando resultados, materiais, jornais, vídeos.

A motivação para a prática de línguas estrangeiras e para o aperfeiçoamento da própria se torna muito mais perceptível, porque existe real necessidade de escrever e, nos próximos anos, também de falar na mesma e em outras línguas.

Os programas de tradução nos facilitarão a comunicação com outros países, mas quem domina a língua levará muita vantagem neste intercâmbio.

A Internet será ótima para professores inquietos, atentos a novidades, que desejam atualizar-se, comunicar-se mais. Mas ela será um tormento para o professor que se acostumou a dar aula sempre da mesma forma, que fala o tempo todo na aula, que impõe um único tipo de avaliação. Esse professor provavelmente achará a Internet muito complicada – há demasiada informação disponível – ou, talvez pior, irá procurar roteiros de aula prontos -e já existem muitos – e os copiará literalmente, para aplicá-los mecanicamente na sala de aula.

Esse tipo de professor continuará limitado antes e depois da Internet, só que a sua defasagem se tornará mais perceptível. Quanto mais informação temos disponível, mais complicamos o processo de ensino-aprendizagem.

Quando podíamos escolher um único livro de texto e segui-lo capítulo a capítulo, estava claro o caminho do começo até o fim, tanto para o professor, como para o aluno, para a administração e para a família.

Agora podemos enriquecer extraordinariamente o processo, mas, ao mesmo tempo, o complicamos. Ensinar é orientar, estimular, relacionar, mais que informar. Mas só orienta aquele que conhece, que tem uma boa base teórica e que sabe comunicar-se. O professor vai ter que atualizar-se sem parar, vai precisar abrir-se para as informações que o aluno vai trazer, aprender com o aluno, interagir com ele.

A Internet não é mágica, mas as experiências que venho acompanhando na Universidade de São Paulo e o contato com professores e alunos que utilizam as redes eletrônicas no Brasil e em outros países me mostram possibilidades fascinantes de tornar o ensino e a aprendizagem processos abertos, flexíveis, inovadores, contínuos, que exigem uma excelente formação teórica e comunicacional, para navegar entre tantas e tão desencontradas idéias, visões, teorias, caminhos.

Os alunos estão prontos para a Internet. Quando podem acessá-la, vão longe. O professor vai percebendo que, aos poucos, a Internet está passando de uma palavra da moda a realidade em alguns colégios e nas suas famílias. Nestes próximos anos viveremos a interligação da Internet, com o cabo, com a televisão. Imagem, som, texto e dados se integrarão em um vasto conjunto de possibilidades. Ver-se e ouvir-se à distância se tornará corriqueiro. Pedir a um colega que dê aula comigo, mesmo que esteja em outra cidade ou país, ao vivo, será plenamente viável. As possibilidades da Internet no ensino estão apenas começando.

*Especialista em inovações na educação presencial e a distância jmmoran@usp.br

Texto inspirado no capítulo primeiro do livro: MORAN, José Manuel, MASETTO, Marcos e BEHRENS, Marilda.

Novas Tecnologias e Mediação Pedagógica.16ª ed. Campinas: Papirus,2009, p.12-17

Fonte: http://www.eca.usp.br/prof/moran/desaf_int.htm

Para ler mais é preciso escrever melhor

Jair Ferreira dos Santos

Certo dia, no início dos anos 90, o programa matinal da TV Globo dirigido ao público infantil mostrava crianças disputando um jogo qualquer, mas quando a brincadeira chegou ao fim aconteceu algo chocante: o garoto que teve o pior desempenho recebeu, ou melhor, foi castigado com um livro.

O episódio dispensa comentários quanto ao seu significado: no Brasil, ler (mas também escrever) tem qualquer coisa de insensatez heróica, dado o ambiente secularmente pouco receptivo, para não dizer refratário, à cultura letrada. Sabemos quais são as causas genéricas desse tratamento: o obscurantismo português, o elevado preço dos livros, o ensino sem qualidade, os professores mal pagos, as crianças que chegam à escola já impregnadas pela ideologia dos meios massivos, a vassalagem dos autores, sem nenhuma capacidade de barganha, aos editores – a lista não é pequena. Mas se quisermos obter um retrato menos impressionista da situação, seria oportuno refletirmos sobre alguns números preocupantes. No Diagnóstico do Setor Livreiro no Brasil, elaborado em 2007 pela Associação Nacional de Livrarias, podemos pinçar ao acaso as seguintes informações:

  • Existem no Brasil 2600 livrarias; segundo a UNESCO, países com a nossa população deveriam ter no mínimo 17000.
  • O estado de Rondônia, com 620.000 habitantes, dispõe apenas de 4 livrarias.
  • Para universalizar-se entre nós, o livro deveria custar um terço do preço atual por exemplar.
  • Somente 26% dos brasileiros alfabetizados conseguem ler e entender um texto longo (de 20 páginas, digamos, sendo generosos).

O cenário sugerido por esses números toca o dramático. Pensemos nos deficits econômicos, sociais e culturais decorrentes do último item: se apenas 26% do segmento alfabetizado conseguem ler e entender um texto longo, quantos, nesse contingente, estariam habilitados a escrever algo semelhante? Imaginemos o impacto dessas deficiências sobre as profissões (a propósito, em janeiro de 2008 somente 23% dos inscritos no exame da OAB se mostraram aptos ao exercício da advocacia). Visualizemos seus efeitos nas relações da vida cotidiana e na própria literatura, tão marcada aliás pelos falares nacionais. Tamanha restrição de poder comunicacional, ao mesmo tempo que tende a replicar a concentração de renda, desdobra-se no seu domínio complementar (nos 74% restantes de alfabetizados) em exclusões de acesso e expressão no plano social.

Não são, como vimos, desconhecidas as variáveis a determinar esse quadro, porém a mais influente delas consiste, acreditamos, numa falha histórica: o Brasil transitou da cultura oral para a cultura eletrônica e visual sem ter passado pela escrita, ou seja, pelo livro. Afastando-se da trajetória seguida pelas nações bem-sucedidas, que investiram pesado em educação para atender com mão-de-obra qualificada às demandas de seus parques produtivos, o país não viu a cultura letrada sedimentar-se em extensão ou em profundidade em suas populações, e a hostilidade a ela continua viva. Pesquisa recente no Rio e em São Paulo mostrou que 15% dos universitários das nossas duas maiores cidades nunca leram um livro. Pela mesma época, um figurante do reality show BBB-8 declarou, com orgulho e o apoio dos demais participantes: “Graças a Deus, nunca fui desses de ler livro”. Por que, invocando a conivência divina, ele desdenha os livros? Sem medo de errar, é porque nosso letramento, afetado agora por concorrentes ultrapoderosos como o computador, a internet, os games, a tv a cabo, é deficiente, precário, pobre em sedução e em promessas como em recompensas, parecendo ainda congratular-se com essa condição.

Esta simples coleta de dados mais ou menos aleatória aponta para uma conclusão desanimadora: por aqui, o letramento não leva à cultura letrada, contradição que beira o surrealismo; na verdade ele gera milhões de analfabetos funcionais, gente com um desempenho entre o severamente limitado e o sofrível no uso da língua portuguesa, falando ou escrevendo. Por quais razões, especificamente?

Antes de encaminhar uma resposta, no entanto, seria conveniente perguntarmos: o que é ler?

Ler é produzir sentido a partir de signos gráficos. É um processo custoso, intenso e violento de interferência na sensibilidade infantil ou adulta, e envolve aspectos já bem estudados por pesquisadores como Vincent Jouve, para quem a leitura abrange:

  1. A dimensão neurofisiológica – isto é, a percepção visual, a memorização que viabilizam a internalização da leitura.
  2. A dimensão cognitiva – o conjunto de movimentos lógicos e psicológicos que efetivam a competência da leitura, como juntar letras, sílabas, palavras, frases, parágrafos, capítulos até se perfazer, com o respectivo sentido, a totalidade do texto. Ler é uma atividade intelectual, inferencial que interpreta e simultaneamente completa o texto.
  3. A dimensão afetiva – A sedução na mensagem publicitária ou a emoção num poema ou numa cena romanesca envolvem valores, identificações e reações afetivas que podemos qualificar como imanentes ao texto, para serem ativadas pela leitura.
  4. A dimensão argumentativa – Quando lemos, estamos sempre discutindo, concordando ou discordando do texto, confirmando ou negando a visão oferecida pelo autor.
  5. A dimensão simbólica – A leitura é um jogo cultural com as idéias e valores de uma época, com suas convenções literárias, com a grande Biblioteca que compreende as literaturas – jogo chamado intertextualidade: toda obra literária é lida numa trama de relações comparativas com outras obras.

A leitura, assim, ultrapassa a simples competência para decodificação da mensagem escrita; em nossas escolas, porém, o letramento parece empacar, para infelicidade geral, na dimensão cognitiva. Os três outros aspectos – o afetivo, o argumentativo e o simbólico – que completam as habilidades necessárias ao ingresso no universo literário, na cultura letrada propriamente, são negligenciados ou abandonados, e por aí bloqueia-se o desenvolvimento da escrita. Ninguém contesta – escreve-se pouquíssimo, e mal, nas escolas brasileiras. Para isso contribui, é evidente, uma abordagem inadequada do que seja a língua portuguesa, calcada no gramaticismo estático e punitivo, com as noções de estilística reduzidas às figuras de linguagem e sem concepção do que seja a literatura tanto em sua função formadora quanto em seu aspecto criativo.

Na mesma linha de carências, as instituições educacionais jamais apresentaram com clareza à sociedade, a não ser, em parte, nas últimas décadas, graças às exigências cobradas pela economia dependente do conhecimento, as vantagens e promessas da formação escolar ou o seu significado para além da pedagogia. Raramente é passado para a grande massa que, a certa altura do processo educacional, o indivíduo letrado deixa de ser fruto apenas do aprendizado para se tornar a realização de um desejo, de uma conquista interminável no âmbito da arte e do conhecimento. Leitores verdadeiros lerão sempre, porque o livro integra suas vidas como um projeto.

Com isso, a abertura para o imaginário, voltada para a evolução e transformação do sujeito pela experimentação literária, propriedade da leitura como da escrita, acaba obstruída. O resultado é a perda, para milhões, dos benefícios ofertados pelo livro, privando-os da vivência contida nesta bela frase de Kafka: “Todo livro deveria ser como um machado a fender os mares congelados dentro de nós.”

OS OBSTÁCULOS À CULTURA LETRADA

Natural, espontânea, a língua falada perpassa toda a extensão do social e está, a rigor, entre as suas condições de existência. No processo civilizatório, sobretudo no Ocidente, a fala e a cultura oral foram amplamente repassadas de cultura letrada, operação cujo instrumento tem sido a instituição escolar. No caso brasileiro, os problemas com a implantação da escrita não encontraram nenhum outro aliado tão vigoroso quanto a nossa cultura oral.

Rica, expressiva, inventiva – traços salientes nas criações da língua tal qual é falada pelas camadas iletradas ou semiletradas – essa cultura responde pela vivacidade do nosso cotidiano, sendo apropriada pelos meios massivos para que disponham de um repertório de acesso a amplas faixas da população. Ela conserva e reproduz as mentalidades não escritas e tem numa fala cheia de cores, de afetos o veículo insubstituível para seus provérbios, jogos verbais, piadas, apelidos, alusões ao seu elenco mítico e folclórico. Em resumo, os falares populares brasileiros prevalecem na comunicação oral, inserem-se com vigor no texto escrito, no literário inclusive, mas são pobremente repassados de letramento, o que em última análise sacramenta o império da oralidade entre nós.

Esse predomínio tem uma lógica a ser compreendida. As fontes para isso abrangem obras tão variadas quanto Oralidade e cultura escrita, de Walter Ong, ou La raison graphique, de Jack Goody, mas nenhuma é tão inovadora em amplitude e sagacidade quanto a colagem de textos que compõem A galáxia de Gutenberg, de Marshall McLuhan. Ali desvenda-se o impacto da cultura letrada sobre as sociedades orais, ou seja, em termos mcluhanianos, da troca do ouvido pelo olho – mudança, em sua radicalidade, conduzida não sem um forte grau de violência cultural, porque rompe o equilíbrio entre os sentidos e abala também, pelo primado concedido à visão, as solidariedades coletivas forjadas pela voz.

O custo é particularmente alto no aprendizado. Aprender a falar é fácil e instintivo; aprender a ler e a escrever envolve processos demasiado artificiais, implicando desde o adestramento muscular até grandes quantidades de memória e aplicação, sem esquecer o quanto a fala é em certa medida atividade realizada com esforço reduzido, enquanto a escrita se mostra mais exigente na elaboração dos enunciados. Um parâmetro para se avaliar essa diferença pode ser extraído, indiretamente, da informação de que, entre as 3000 línguas conhecidas, apenas 76 produziram literaturas escritas; e se tomarmos o inglês como exemplo, constatamos que sua expressão oral inclui apenas alguns poucos milhares de palavras, ao passo que seu léxico para o texto escrito chega a l,5 milhão de vocábulos.

A reestruturação cultural e psicológica promovida pela introdução da escrita nas sociedades orais pode ser melhor visualizada no quadro abaixo, onde estão listados as características dominantes nas duas orientações culturais:

Cultura Oral Cultura Letrada
Fala/ouvido Escrita/olho
Espaço aberto, inclusivo Espaço perspectivo, exclusivo
Exercício informal da língua Exercício formal, codificado da língua
Espontânea e improvisada Premeditada e elaborada
Organização distensa do pensamento Organização racional do pensamento
Intuitiva, convivial Reflexiva, analítica
Situação concreta, vivida Isolante, abstração conceitual
A palavra falada é evento, valor, ação A palavra escrita é coisa, informação
Relacional, presencial, personalista Unilateral, virtual, institucional
Descontinua e frouxa Sequencial e encadeada
O contexto colabora para o sentido O sentido se dá no texto
Permeia a trama do cotidiano Retira o indivíduo do cotidiano
Mobiliza o rosto, os membros, a voz Inibe o corpo, exige concentração
Projeta o indivíduo no mundo Promove a introvisão, a introspecção
Ethos e memória coletivos Ethos individualista, destribalizante

Comparando-se as duas colunas, não é preciso reflexão profunda para se constatar o quanto os traços disseminadas pela cultura oral formatam o cotidiano e o comportamento da maioria dos brasileiros, efeito associado igualmente à circunstância de que nossos falares manifestam, como dissemos, baixíssima taxa de reelaboração pelo letramento. Somos barulhentos e gregários. Nossa intuição e sentimentalismo prevalecem sobre a racionalidade, assim como a informalidade dispensa protocolos. Temos uma refinada cultura do corpo, mas somos indisciplinados, improvisadores, o que empresta excelência à nossa cultura de massa. Valorizamos o contexto, a experiência, o dia-a-dia em oposição à informação e ao conhecimento abstratos. Excetuando-se o jogo do bicho, aqui não vale o escrito: cultuamos o absurdo “Ilegal, e daí?” e nos aeroportos lemos os horários nos painéis, mas o personalismo nos faz procurar alguém no balcão para confirmá-los. Em resumo, a inércia representada pela oralidade cerceia o interesse pela cultura letrada e isso contribui enormemente, entre outras coisas, para que tenhamos uma extraordinária música popular mas não uma grande literatura.

O CAMINHO DAS PEDRAS: MAIS E MELHORES TEXTOS

O letramento precário reforça a cultura oral, tornando-a mais densa e duradoura, porque para muita gente a internalização da escrita e de seus valores é custosa, quando não traumática. É preciso assinalar ainda a ocorrência de um fenômeno na transição do ouvido para o olho: a pregnância da oralidade. Na Europa, durante a Idade Média, dizia-se que escrever era “ditar para si”. A leitura em voz alta, ali, prolongou-se até o século 19, isto é, por seis séculos após a invenção da imprensa. Durante muito tempo, o texto “bem escrito” foi na verdade uma peça oratória, aquela boa para ser lida com eloquência diante de platéias. Em lugares os mais variados, essa impregnação se transportou para dentro da própria produção literária. Virginia Woolf lia em voz alta, no banheiro, os próprios textos; a vocalização, dizia, permitia-lhe explorar melhor a musicalidade de suas frases. Os poemas do libanês Khalil Gibran, o preferido de misses e moçoilas nos anos 1960 e 1970, eram em sua maioria compilações de fórmulas verbais e clichês amealhados no dia-a-dia árabe. Numa clave mais erudita ou criativa, era o que fazia também James Joyce ao apoiar-se nos jogos verbais bastante comuns na fala dos irlandeses, para compor os neologismos caros ao Ulisses. Não menos famosa, por fim, tornou-se a caderneta em que Guimarães Rosa registrava com rigor o idioleto preservado pelos vaqueiros das Gerais.

A pregnância da oralidade em seu embate com a cultura letrada engendrou o pequeno drama que está na origem deste texto. Jantando num self-service, eu pedira ao garçom, Manuel, conforme a plaqueta em sua lapela, uma taça de vinho. Era sua obrigação anotar a expressão “taça de Miolo” na comanda. Manuel sabia ler porque apontou a caneta para a rubrica certa no papel, mas ensaiou daqui, dali, mudou de posição junto à mesa, rabiscou qualquer coisa ilegível, tentou remendar, riscou o rabisco, limpou a testa com o dorso da mão, de olhos baixos para esconder a vergonha por não saber escrever direito, depois decidiu consultar outro garçom. A cena tinha um único sentido: a humilhação imposta pela escrita às pessoas que não a dominam inteiramente. Naquele momento, constrangido com o sofrimento que eu havia, sem querer, causado ao garçom, ocorreu-me seguinte idéia: Manuel, e milhões como ele com gradientes diversos em habilidade na escrita, jamais vão se interessar pela leitura justamente porque não sabem escrever, e porque suas vidas se passam, quase no seu todo, no mundo oral. Escrever é para eles uma eventualidade vexatória, sob grande tensão interna, e só. A leitura não lhes é menos estéril ou intimidadora. Eles pertencem às legiões dos que ficaram bloqueados na dimensão cognitiva do nosso letramento deficitário, sem acesso aos demais níveis que aprofundam o compromisso com a escrita, lendo mal, escrevendo pior ainda; e porque escrevem com dificuldade, eles simplesmente rejeitam a leitura, as vias abertas pelo livro, a esperança no universo da cultura letrada.

Não seria ocioso repisar o quanto os alunos escrevem pouco nas escolas brasileiras e só raros entre eles apreciam a redação. Esta é sem duvida uma razão palpável para as pequenas dimensões do nosso parque editorial e do comércio livreiro, apesar dos progressos nas duas últimas décadas, realidade que se complica comicamente, pode-se dizer, pelo seu potencial na direção contrária: a revista Coquetel de palavras cruzadas tira dois milhões de exemplares por mês!

Somente a continuidade e a intensificação do letramento, dando igual ênfase à leitura e à escrita, levariam os grandes contingentes da nossa população à margem do livro a desfrutar o imenso tesouro de formação e informação disponível na tradição humanística. Aí sim iríamos vender mais livros. Nos países com alta escolaridade e grande densidade literária, isto é, onde ainda se edita e se lê muito, como França e Inglaterra, era comum nos séculos passados as pessoas manterem diários não para serem publicados, mas para o cultivo da atividade intelectual e registro da vida cotidiana. Nos anos 1970 e 1980, os editores franceses reclamavam do quanto se tornara problemática a seleção de originais para publicação, porque a maioria dos textos, fossem os autores talentosos ou não, eram no mínimo escritos com qualidade. Quer dizer, escrever bem faz bons e muitos leitores.

Por mais contra-intuitivo que pareça face à crença em que a leitura leva à escrita, julgamos que a prevenção e eliminação do analfabetismo funcional passam pela especialíssima atenção a ser dada ao redigir. A venda de livros só deve aumentar significativamente no Brasil quando tivermos largas camadas da população sabendo escrever ou escrevendo melhor, porque então os problemas com a caneta sobre o papel perderão a força dissuasória pela qual se abandonam a leitura e seus efeitos incomparáveis. Essa nova condição não é uma aquisição isolada. Ela representa um complexo de habilidades e valores sociais que não só acentuam como gratificam as consequências do saber escrever, começando pela elevação do indivíduo a um novo patamar comunicacional e social.

Para sermos práticos, entre as razões pelas quais a escolarização, em todos os níveis, deveria investir pesado na escrita, poderíamos listar:

  • Escrever também é ler, mas a recíproca não é verdadeira.
  • Escrever melhora a capacidade de leitura e compreensão da articulação textual.
  • Melhora a capacidade de raciocínio e organização do pensamento.
  • Amplia o conhecimento da língua e da importância da comunicação escrita.
  • Amplia a apreciação dos valores expressivos e estéticos dos meios de linguagem.
  • Amplia o poder de comunicação e de interação social.
  • Aprimora a sensibilidade individual pela valorização da criatividade verbal.
  • Aumenta a segurança e o desempenho verbais, o que normalmente redunda em segurança pessoal e melhor performance social.
  • Favorece o desenvolvimento profissional do indivíduo.
  • Abre oportunidades profissionais e sociais.
  • Desenvolve a autonomia intelectual e pessoal, acarretando menos dependência e evitando a humilhação.
  • Modifica o status social e cultural do indivíduo, que sai da posição de inferioridade.
  • Leva à leitura como forma de consolidar e incrementar essas conquistas.

Em sintonia com a propalada inclusão digital – pois afinal o que as crianças e os adolescentes vão escrever nas telas? – seria decisiva a difusão, nas escolas e fora delas, da relevância da cultura letrada para o usufruto da riqueza e do sentido crítico-construtivo contidos na herança humanística. Assim estaríamos a salvo, talvez, de perversões como a do participante do BBB-8, que “graças a Deus não é de ler livros”, pois seu apelo à ignorância voluntária teria certamente audiência muito menor.

Jair Ferreira dos Santos – Ficcionista, poeta e ensaísta

BIBLIOGRAFIA

ABRAMO, Bia. Pérolas, porcos e patetas, In: Folha de S. Paulo, 03.02.08, S. Paulo, p.E6.

GOODY, Jack. La raison graphique, Paris, Ed. de Minuit, 1977.

JOUVE, Vincent. La lecture. Paris, Hachette, 1993.

MCLUHAN, Marshall. A galáxia de Gutenberg, São Paulo, Cia. Editora Nacional, 1977.

MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação, São Paulo, Ed. Cultrix, 1969.

MENEZES, Maiá. Levantamento mostra que 15% dos universitários nunca leram um livro. In: O Globo (04.07.2007), Rio de Janeiro.

ONG, Walter. Oralidade e cultura escrita. Campinas, Ed. Papirus, 1998.

TAVARES, Vitor. Em extinção, in: O Globo, 15.07.07, Rio de Janeiro.

Fonte: http://www.estacaodasletras.com.br/arquivos/artigos/lermais.html

Ler devia ser proibido!

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Texto de Guiomar de Grammon

«A pensar fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido.

Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. Não me deixam mentir os exemplos de Dom Quixote e Madame Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tomou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.

Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com cabriolas da imaginação.

Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?

Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem, necessariamente, ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.

Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas. É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.

Não, não dêem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, pode levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, pode estimular uma curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.

Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verosimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.

O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas lêem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incómodas. E esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura?

É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metros, ou no silêncio da alcova… Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um.

Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos.

Para obedecer não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submissão. Para executar ordens, a palavra é inútil.

Além disso, a leitura promove a comunicação de dores e alegrias, tantos outros sentimentos… A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna colectivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.

Ler pode tornar o homem perigosamente humano.»

Guiomar de Grammon

In: PRADO, J. & CONDINI, P. (Orgs.). A formação do leitor: pontos de vista. Rio de Janeiro: Argus, 1999. pp. 71-3.

Imagem: Giorgio de Chirico

FONTE: http://www.trt05.gov.br/trt5new/areas/ddrh/LER_DEVIA_SER_PROIBIDO.doc e http://lerparacrer.wordpress.com/2007/11/06/ler-devia-ser-proibido/

Letroca

Olá Amigos

Hoje vou indicar um game online muito legal chamado Letroca. O objetivo do game é usar as letras disponiveis para formar o maior numero de palavras no menor tempo possível. Quanto mais palavras mais pontos você ganha. Mas atenção só vale as palavras listadas naquela rodada.


Para formar as palavras clique na ordem desejada e clique em enviar, que quiser cancelar e só clicar no X. Aproveite bastante a dica, mas aqui vai um conselho. Cuidado vicia mesmo.

Abraços

Equipe NTE Itaperuna

Novos desafios para o educador

José Manuel Moran

Especialista em mudanças na educação presencial e a distância
jmmoran@usp.br

“Continuo buscando, re-procurando. Ensino porque busco, porque indaguei, porque indago e me indago. Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar e anunciar a novidade”. Paulo Freire

O mais importante no educador
A aprendizagem de ser professor
As etapas pessoais como docente
O professor bem sucedido
A rotina da profissão do educador
Aprendendo a construir a identidade pedagógica pessoal

O mais importante no educador

O importante, como educadores, é acreditarmos no potencial de aprendizagem pessoal, na capacidade de evoluir, de integrar sempre novas experiências e dimensões do cotidiano, ao mesmo tempo que compreendemos e aceitamos nossos limites, nosso jeito de ser, nossa história pessoal.

Ao educar, tornamos visíveis nossos valores, atitudes, idéias, emoções. O delicado equilíbrio e síntese que fazemos no dia a dia transparece nas diversas situações pedagógicas em que nos envolvemos. Os alunos e colegas percebem como somos, como reagimos diante das diferenças de opiniões, dos conflitos de valores. O que expressamos em cada momento como pessoas é tão importante quanto o conteúdo explícito das nossas aulas. A postura diante do mundo e dos outros é importante como facilitadora ou complicadora dos relacionamentos que se estabelecem com os que querem aprender conosco. Se gostamos de aprender, facilitamos o desejo de que os outros aprendam. Se mostramos uma visão confiante e equilibrada da vida, facilitamos nos outros a forma de lidar com seus problemas, mostramos que é possível avançar no meio das dificuldades. Alguns educadores confundem visão crítica com pessimismo estrutural; eles só transmitem aos alunos visões negativistas e desanimadoras da realidade. Esse substrato pessimista interfere profundamente na visão dos alunos.

Da mesma forma, educadores com credibilidade e uma visão construtiva da vida contribuem muito para que os alunos se sintam motivados a continuar, a querer aprender, a aceitar-se melhor.

O educador é um ser complexo e limitado, mas sua postura pode contribuir para reforçar que vale a pena aprender, que a vida tem mais aspectos positivos que negativos, que o ser humano está evoluindo, que pode realizar-se cada vez mais. Pode ser luz no meio de visões derrotistas, negativistas, muito enraizadas em sociedades dependentes como a nossa.

Vejo hoje o educador como um orientador, um sinalizador de possibilidades onde ele também está envolvido, onde ele se coloca como um dos exemplos das contradições e da capacidade de superação que todos possuem.

O educador é um testemunho vivo de que podemos evoluir sempre, ano após ano, tornando-nos mais humanos, mostrando que vale a pena viver.

Numa sociedade em mudança acelerada, além da competência intelectual, do saber específico, é importante termos muitas pessoas que nos sinalizem com formas concretas de compreensão do mundo, de aprendizagem experimentada de novos caminhos, de testemunhos vivos –embora imperfeitos- das nossas imensas possibilidades de crescimento em todos os campos.

Cada vez mais precisamos de educadores-luz, sinalizadores de caminhos, testemunhos vivos de formas concretas de realização humana, de integração progressiva, seres imperfeitos que vão evoluindo, humanizando-se, tornando-se mais simples e profundos ao mesmo tempo.

A aprendizagem de ser educador

A aprendizagem pessoal

O educador é especialista em conhecimento, em aprendizagem. Como especialista, espera-se que ao longo dos anos aprenda a ser um profissional equilibrado, experiente, evoluído; que construa sua identidade pacientemente, equilibrando o intelectual, o emocional, o ético, o pedagógico.

O educador pode ser testemunha viva da aprendizagem continuada. Testemunho impresso na sua pele e personalidade de que evolui, aprende, se humaniza, se torna uma pessoa mais aberta, acolhedora, compreensiva.

Testemunha viva, também, das dificuldades de aprender, das dificuldades em mudar, das contradições no cotidiano; de aprender a compreender-se e a compreender.

Com o passar do tempo ele vai mostrando uma trajetória coerente, de avanços, de sensatez e firmeza. Passa por etapas em que se sente perdido, angustiado, fora de foco. Retoma o rumo, depois, revigorado, estimulado por novos desafios, pelo contato com seus alunos, pela vontade de continuar vivendo, aprendendo, realizando-se e frustrando-se, mas mantendo o impulso de avançar.

Há momentos em que se sente perdido, desmotivado. Educar tem muito de rotina, de repetição, de decepção. É um campo cada vez mais tomado por investidores, por pessoas que buscam lucros fáceis. Ele se sente parte de uma máquina, de uma engrenagem que cresce desproporcionalmente. Sente-se insignificante, impotente, um número que pode ser substituído por muitos jovens ansiosos pelo seu lugar. Sabe que sua experiência é importante, mas também que outros estão dispostos a assumir o seu lugar por salários menores.

Ensinar tem momentos “glamourosos”, em que os alunos participam, se envolvem, trazem contribuições significativas. Mas muitos outros momentos são banais; parece que nada acontece. É um entra e sai de rostos que se revezam no mesmo ritmo semanal de aula, exercícios, mais aulas, provas, correções, notas, novas aulas, novas atividades…. A rotina corrói uma parte do sonho, a engrenagem despersonaliza; a multiplicação de instituições escolares torna previsíveis as atividades profissionais. Há um aumento de oferta profissional (mais vagas para ser professor), junto com uma diminuição das exigências para a profissão (mais fácil ter diploma, muitos estudantes em fase final são contratados, aumenta a concorrência). A tentação da mediocridade é real. Basta ir tocando para ficar anos como docente, ganhar um salário seguro, razoável. Os anos vão passando e quando o professor percebe já está na fase madura e se tornou um professor acomodado.

As etapas pessoais como docente

Apesar de que cada docente tem sua trajetória, há pontos da evolução profissional coincidentes. Relato a seguir uma síntese de questões que costumam acontecer – com muitas variáveis – na trajetória de muitos professores, a partir da minha experiência.

Primeira etapa: iniciação

No começo recém formado, começa a ser chamado para substituir um professor em férias, uma professora em licença maternidade, dá algumas aulas no lugar de professores ausentes. Ele ainda se confunde com o aluno, intimamente se sente aluno, mas percebe que é visto pelos alunos como uma mistura de professor e aluno. Ele luta para se impor, para impressionar, para ser reconhecido. Prepara as aulas, traz atividades novas, se preocupa em cativar os alunos, em ser aceito. Sente medo de ser ridicularizado em público com alguma pergunta impertinente ou muito difícil. Tem medo dos que o desafiam, dos alunos que não ligam para as suas aulas, dos que ficam conversando o tempo todo. Procura ser inovador, e, ao mesmo tempo, percebe que reproduz algumas formas de ensinar que via como aluno, algumas até que criticava. É uma etapa de aprendizagem, de insegurança, de entusiasmo e de muito medo de fracassar. O tempo passa, os alunos vão embora, chegam outros em outro semestre e o processo recomeça. Agora já tem uma noção mais clara do que o espera; planeja com mais segurança o novo semestre, repete alguns macetes que deram certo no primeiro semestre, busca alguns textos diferentes, inova um pouco, faz uma síntese do que deu certo antes. Vê que algumas atividades funcionam sempre e outras não tanto. Descobre que cada turma tem comportamentos semelhantes, mas que reage de forma diferente às mesmas propostas e assim vai, por tentativa e erro, aprendendo a diversificar, a desenvolver um “feeling” de como está cada classe, de quando vale a pena insistir na aula teórica planejada e quando tem que introduzir uma nova dinâmica, contar uma história, passar um vídeo, encurtar o fim da aula, etc.

Segunda etapa: consolidação

De semestre em semestre o jovem professor vá consolidando o seu jeito de ensinar, de lidar com os alunos, as áreas de atuação. Consegue ter maior domínio de todo o processo. Isso lhe dá segurança, tranqüilidade. Os colegas e coordenadores vão indicando-o para novas turmas, novas disciplinas, novas instituições. Multiplica o número de aulas. Aumenta o número de alunos. É freqüente, no ensino superior particular, um professor ter entre mais de quinhentos alunos por semana. Compra um apartamento. Forma uma família. Vira um tocador de aulas. Cada vez precisa aumentar mais o número de aulas, para manter a renda.

Desenvolve algumas fórmulas para se poupar. Repete o mesmo texto em várias turmas e, às vezes, em várias disciplinas. Utiliza um mesmo vídeo para diversos temas. Dá trabalhos bem parecidos para turmas diferentes, em grupo, para facilitar a correção. Lê superficialmente os trabalhos e as provas. Faz comentários genéricos: Continue assim, “insuficiente”, “esforce-se mais”, “parabéns”, “interessante”. Prepara as aulas encima da hora, com poucas mudanças. Repete fórmulas, métodos, técnicas.

Terceira etapa: Crise de identidade

Sempre há alguma crise, mas esta é diferente: pega o professor de cheio. Aos poucos o dar aula se torna cansativo, repetitivo, insuportável. Parece que alguns coordenadores são mais “chatos”, “pegam mais no pé”. Algumas turmas também não querem nada com nada. As reuniões de professores são todas iguais, pura perda de tempo. Os salários são baixos. Outros colegas mostram que ganham mais em outras profissões. Renova-se a dúvida: vale a pena ficar como está ou dar uma guinada profissional?

Por enquanto vai tocando. Torce para que haja muitos feriados, para que os alunos não venham em determinados dias. Qualquer motivo justifica não dar aula. Cria muitas atividades durante a aula: leituras em grupo, pesquisa na biblioteca, vídeos longos e isso lhe permite descansar um pouco, ficar na sala dos professores, poupar a voz.

Muitas vezes essa crise profissional vem acompanhada de uma crise afetiva. O relacionamento a dois não é o mesmo, passa pela indiferença ou pela separação. Sente-se intimamente bastante só, apesar das aparências. E em algum momento a crise bate mais fundo: o que é que eu faço aqui? Qual é o sentido da minha vida? Tem tanta gente que sabe menos e está melhor! Como defender uma sociedade mais justa num país onde só os mesmos ficam mais e mais ricos?

Olha para trás e vê muitos recém formados doidos para entrar a qualquer jeito, ganhando menos do que ele. E esses moleques petulantes têm outra linguagem, dominam mais a Internet, estão cheios de gás. Embora faça cursos de atualização, sente-se em muitos pontos ultrapassado. Sempre foi preparado para dar respostas, para ser o centro do saber e agora descobre mais claramente que não tem certezas, que cada vez sabe menos, que há muitas variáveis para uma mesma questão e que novas pesquisas questionam verdades que pareciam definitivas. Essa sensação de estar fora do lugar, de inadequação vai aumentando e um dia explode. A crise se generaliza. Nada faz sentido. A depressão toma conta dele. Não tem mais vontade de levantar, chega atrasado. Justifica cada vez mais suas faltas.

Quarta etapa: mudanças

Diante da crise, alguns professores desistem, entregam a toalha. Procuram algumas saídas, mesmo que precárias: festas, um caso, bebida, algumas viagens. Depois vão se acalmando, dizem: a vida é assim mesmo; “vou tocar a vida o melhor que puder e seguir enfrente”.

Alguns procuram uma nova atividade profissional mais empolgante e deixam as aulas como complemento, como “bico”.

Ele procura refletir sobre sua vida profissional e pessoal. Tenta encontrar caminhos, reaprender a aprender. Atualiza-se, observa mais, conversa, medita. Aos poucos busca uma nova síntese, um novo foco. Começa pelo externo, por estabelecer um relacionamento melhor com os alunos, procura escutá-los mais. Prepara melhor as aulas, utiliza novas dinâmicas, novas tecnologias. Lê novos autores, novas filosofias. Reflete mais, medita. Descobre que precisa se gostar mais, aceitar-se melhor, ser mais humilde e confiante. E assim, pouco a pouco, redescobre o prazer de ler, de aprender, de ensinar, de viver. Está mais atento ao que acontece ao seu lado e dentro de si. Procura simplificar a vida, consumir menos, relaxar mais. Vê exemplos de pessoas que envelhecem motivados para aprender e isso lhe é um estímulo para o futuro, para seguir adiante, para renovar-se todos os dias. Torna-se mais humano, acolhedor, compreensivo, tolerante, aberto. Dialoga mais, ouve mais, presta mais atenção. Com o assar do tempo percebe que não é perfeito, mas que tem evoluído muito e que redescobriu o prazer de ensinar e de viver.

“Sinto-me como alguém que envelhece crescendo” (Rogers)[1]

Esta é a atitude maravilhosa de quem gosta de aprender. O aprender dá sentido à vida, a todos os momentos da vida, mesmo quando ela está no fim.

Aprendi com Rogers a sentir prazer em aprender, e a perceber que podemos envelhecer vivenciando a alegria de aprender com mais profundidade, descobrindo novas perspectivas, idéias, pessoas. Sinto que muitas pessoas aprendem por necessidade, para sobreviver, para não ficar para trás, para ganhar dinheiro. Quando se aposentam, costumam aposentar-se também de aprender. E perdem uma das grandes motivações de viver. Tornam-se previsíveis, repetitivos.

Essa atitude de gostar de aprender não se improvisa. Vai se desenvolvendo ao longo da vida, a partir de experiências positivas na infância, em casa e na escola. Se a escola incentiva a curiosidade, a descoberta, o aluno desenvolve o gosto por ler, por ir além do exigido, pesquisa por si mesmo e vai atrás de novos conhecimentos.

O professor bem sucedido

Por que, nas mesmas escolas, nas mesmas condições, com a mesma formação e os mesmos salários, uns professores são bem aceitos, conseguem atrair os alunos e realizar um bom trabalho no ofício de ajudar os alunos a aprender?

Não há uma única forma ou modelo. Depende muito da personalidade, competência, facilidade de aproximar e gerenciar pessoas. Uma das questões que determina o sucesso profissional maior ou menor do professor é a capacidade de relacionar-se, de comunicar-se, de motivar o aluno de forma constante e competente. Alguns professores conseguem uma mobilização afetiva dos alunos pelo seu magnetismo, simpatia, capacidade de sinergia, de estabelecer um “rapport”, uma sintonia interpessoal grande. É uma qualidade que pode ser desenvolvida, mas alguns a possuem em grau superlativo, a exercem intuitivamente e facilita todas as atividades propostas.

Uma das formas de estabelecer vínculos é mostrar genuíno interesse pelos alunos. Os professores de sucesso não se preparam para o pior, mas para o melhor nos seus cursos. Preparam-se para desenvolver um bom relacionamento com os alunos e para isso os aceitam afetivamente antes de os conhecerem, se predispõem a gostar deles antes de começar um novo curso. Essa atitude positiva é captada consciente e inconscientemente pelos alunos que reagem da mesma forma, dando-lhes crédito, confiança, expectativas otimistas. O contrário também acontece: professores que se preparam para a aula como uma batalha, que estão cheios, cansados de dar aula passam consciente e inconscientemente esse mal-estar que é correspondido com a desconfiança dos alunos, com o distanciamento, com barreiras nas expectativas.

É muito tênue o que fazemos em aula para facilitar a aceitação ou provocar a rejeição. É um conjunto de intenções, gestos, palavras, ações que são traduzidos pelos alunos como positivos ou negativos, que facilitam a interação, o desejo de participar de um processo grupal de aprendizagem, de uma aventura pedagógica (desejo de aprender) ou, pelo contrário, levantam barreiras, desconfianças, que desmobilizam.

O sucesso pedagógico depende também da capacidade de expressar competência intelectual, de mostrar que conhecemos de forma pessoal determinadas áreas do saber, que as relacionamos com os interesses dos alunos, que podemos aproximar a teoria da prática e a vivência da reflexão teórica.

A coerência entre o que o professor fala e o que faz, como vive é um fator importante para o sucesso pedagógico. Se um professor une a competência intelectual, a emocional e a ética causa um profundo impacto nos alunos. Estes estão muito atentos à pessoa do professor, não somente ao que fala. A pessoa fala mais que as palavras. A junção da fala competente com a pessoa coerente é poderosa.

As técnicas de comunicação também são importantes para o sucesso do professor. Um professor que fala bem, que conta histórias interessantes, que tem feeling para sentir o estado de ânimo da classe, que se adapta às circunstâncias, que sabe jogar com as metáforas, o humor, que usa as tecnologias adequadamente, sem dúvida consegue bons resultados com os alunos. Os alunos gostam de um professor que os surpreenda, que traga novidades, que varie suas técnicas e métodos de organizar o processo de ensino-aprendizagem.

Ensinar sempre será complicado pela distância profunda que existe entre adultos e jovens. Por outro lado, essa distância nos torna interessantes, justamente porque somos diferentes. Podemos aproveitar a curiosidade que suscita encontrar uma pessoa com mais experiência, realizações e fracassos. Um dos caminhos de aproximação ao aluno é pela comunicação pessoal de vivências, estórias, situações que o aluno ainda não conhece em profundidade. Outro é o da comunicação afetiva, da aproximação pelo gostar, pela aceitação do outro como ele é e encontrar o que nos une, o que nos identifica, o que temos em comum. Um professor que se mostra competente e humano, afetivo, compreensivo atrai os alunos. Não é a tecnologia que resolve esse distanciamento, mas pode ser um caminho para a aproximação mais rápida: valorizar a rapidez, a facilidade com que crianças e jovens se expressam tecnologicamente ajuda a motivar os alunos, a que queiram se envolver mais. Podemos aproximar nossa linguagem da deles, mas sempre será muito diferente. O que facilita são as entrelinhas da comunicação lingüística: a entonação, os gestos aproximadores, a gestão de processos de participação e acolhimento, dentro dos limites sociais e acadêmicos possíveis.

O educador não precisa ser “perfeito” para fazer um grande trabalho. Fará um grande trabalho na medida em que se apresenta da forma mais próxima ao que ele é naquele momento, que se “revela” sem máscaras, jogos. Quando se mostra como alguém que está atento a evoluir, a aprender, a ensinar e a aprender. O bom educador é um otimista, sem ser ‘ingênuo”. Consegue “despertar”, estimular, incentivar as melhores qualidades de cada pessoa.

A rotina da profissão do educador

Como em outras profissões há uma distância entre os sonhos e a realidade. No começo, recém formados, os jovens professores compensam com o entusiasmo a falta de experiência e de formação nos métodos e técnicas de comunicação em sala de aula, de gestão do processo de ensino-aprendizagem.

Aos poucos vão assumindo novas turmas, trabalhando em duas ou três escolas para poder ter um salário decente e o ensinar vai tornando-se sua profissão, seu ofício um ano após o outro, uma profissão segura e previsível.

Com o tempo, domina os macetes, procura dosar as energias para chegar até o fim da jornada, escolhe turmas melhores, procura facilitar as tarefas de avaliação para não demorar tanto na correção de atividades.

A profissão do professor vira rotina, repetição, os semestres e os anos vão passando, tudo parece que se repete e costumam, muito deles, passar pelo período de saturação: tudo incomoda, ensinar parece tedioso, improdutivo; consultam o calendário olhando os feriados, as pontes sem aula, os domingos a noite cada vez mais deprimentes, calculam o tempo que lhes falta para aposentadoria.

Uma parte dos professores continua sua rotina a caminho da mediocridade. Fazem cursos de atualização para ganhar pontos, melhorar o salário, mas pouco mudam na sua prática pedagógica. Outros, insatisfeitos, procuram formas de melhorar, de evoluir. Inscrevem-se em novos cursos, procuram melhorar suas aulas, se preocupam mais com os alunos, introduzem novas tecnologias nas classes, novas técnicas de comunicação.

Tem professores que se burocratizam na profissão. Outros se renovam com o tempo, se tornam pessoas mais humanas, ricas e abertas. As chances são as mesmas, os cursos feitos, os mesmos; os alunos, também são iguais. A diferença é que uma parte muda de verdade, busca novos caminhos e a outra se acomoda na mediocridade, se esconde nos ritos repetidos. Muitos professores se arrastam pelas salas de aula, enquanto outros, nas mesmas circunstâncias, encontram forças para continuar, para melhorar, para realizar-se.

Não tem programas de formação, de atualização que dêem certo se os professores não se motivam para melhorar, se não estão dispostos a crescer, aprender, evoluir.

O professor-aprendiz

Quando pensamos em educação costumamos pensar no outro, no aluno, no aprendiz e esquecer como é importante olharmo-nos os que somos profissionais do ensino como sujeitos e objetos também de aprendizagem. Ao focarmo-nos como aprendizes, muda a forma de ensinar. Se me vejo como aprendiz, antes do que professor, me coloco numa atitude mais atenta, receptiva, e tenho mais facilidade em estar no lugar do aluno, de aproximar-me a como ele vê, a modificar meus pontos de vista.

A atitude primeira do educador profissional em perceber-se como aprendiz o torna atento ao que acontece ao seu redor, sensível às informações do ambiente, dos outros. Preciso colocar-me junto com o aluno como professor-ensinante e professor-aprendiz. Parece óbvio ou só um jogo de palavras, mas não o é e a mudança de atitude tem grandes conseqüências. Se me coloco, como professor, sempre e somente no lugar do aluno, trabalho com informações úteis para o aluno, adquiro uma grande capacidade de senti-lo, de adaptar a minha linguagem, de sintonizar com suas aspirações e isso é bom. Se eu, ao mesmo tempo, que penso no aluno, também me penso como aluno, além de adaptar-me ao outro, eu estou aprendendo junto, estou fazendo a ponte entre informação, conhecimento e sabedoria, entre teoria e prática, entre conhecimento adquirido e o novo. Com um olho vejo o aluno, como o outro me enxergo como aluno-professor. O que estou propondo é ampliar o foco da relação para não colocar-me só na posição de professor e sim na de aluno/professor com mais intensidade.

Quais são as conseqüências? Se aprendo mais, de verdade, se incorporo a aprendizagem para o outro à aprendizagem também para mim, evoluirei mais rapidamente, entenderei melhor os mecanismos de aprender, as dificuldades, os conflitos pessoais e os dos meus alunos. Se eu aprendo mais e melhor, só me falta pensar como encontrar o caminho para comunicar-me com os alunos, como ser mediados entre onde me encontro e onde eles se encontram.

Roteiros previsíveis e semi-desconhecidos

Se me coloco como professor que aprende e não só que ensina, viverei duas situações interligadas, mas diferentes. Em muitas ocasiões, me coloco diante dos alunos como alguém que já conhece, que já percorreu o caminho anteriormente e que quer ajudar os alunos a fazer essa travessia. Ensinar o que já conhecemos é o que fazemos quando transmitimos nossas experiências, vivências, exemplos, situações, leituras. Como pessoa mais experiente, espera-se que ajude os alunos nesta travessia.

Mas há momentos e situações que escapam mais ao meu controle, nas quais me vejo também vivendo como aprendiz, que eu começo a enxergar de uma outra forma, sem ainda ter feito todo o percurso de antemão. Nesta situação, sou um professor que está aprendendo e, ao mesmo tempo, mostrando o processo de aprender enquanto acontece e não só o resultado, como um processo plenamente dominado. É uma outra forma e situação que hoje enfrentamos com freqüência e que é rica também para o aluno.

Com um exemplo ficará mais fácil visualizar o que estou dizendo. Se eu já conheço Madri e Barcelona, ao vivo e por leituras, posso ser guia dos meus alunos, ajudá-los a escolher os melhores pontos turísticos para visitar, darei informações mais precisas sobre o que estamos vendo. O meu conhecimento prévio me torna um informante e mediador confiável. Isso me dá segurança e confere segurança também aos alunos: temos um guia conhecedor e confiável.

Mas há outros momentos em que posso fazer um convite aos alunos e dizer-lhes: Vamos viver uma aventura? Vamos todos juntos para uma cidade desconhecida, fazer um caminho diferente, que eu ainda não percorri? Apesar da minha experiência como viajante-conhecedor, agora há elementos que me escapam, há conhecimentos que preciso atualizar rapidamente, haverá um maior número de surpresas, os alunos poderão trazer informações significativas que eu desconheço. Nesta última situação eu aprendo junto muito mais, embora possa cometer alguns erros de percurso, me perder em alguns momentos, ficar em dúvida sobre quais escolhas são as mais acertadas. E os alunos, sendo co-responsáveis pelo processo, também estarão mais motivados e darão contribuições mais significativas.

Se eu me coloco como um professor-aprendiz e não só como um especialista em viagens, proporei aos alunos novos caminhos, novos desafios, e não só roteiros previsíveis. Os roteiros previsíveis dão segurança, nos tranqüilizam, mas, na segunda ou terceira vez, já perdem a graça. Muitos professores se comportam como guias turísticos que fazem sempre os mesmos roteiros, repetem as mesmas falas, percorrem cada semestre os mesmos percursos. Na décima viagem, será muito difícil estar empolgado, a não ser fazendo um esforço, conscientizando-me de que é minha atividade profissional e represento o papel da descoberta, mas não a vivencio. Somente os alunos podem vivenciá-la, se para eles realmente é uma descoberta, se eles já não tinham estado antes em outra excursão ou por si mesmos. Se eu sou professor-aprendiz, mesmo que conheça os roteiros, estarei atento a novos detalhes, novas informações, novos caminhos. Criarei estratégias de motivação diferentes, farei entrevistas com pessoas que não conheço. Dentro da previsibilidade do roteiro, farei inúmeras variações (porque eu também estou aprendendo junto).

Se sou um professor-aprendiz inovador posso combinar roteiros previsíveis, trilhados com diferentes estratégias e caminhos, com roteiros semi-desconhecidos onde eu não sou tão especialista e em que proponho que o grupo esteja mais atento para aprendermos juntos, para utilizar todas as experiências prévias de todos, para trocar mais informações. Sem dúvida é mais arriscado, mas mais excitante.

Numa sociedade como a nossa, com tantas mudanças, rapidez de informações e desestruturação de certezas, não podemos ensinar só roteiros seguros, caminhos conhecidos, excursões programadas. Precisamos arriscar um pouco mais, navegar juntos, trocar mais informações, apoiados no guia um pouco mais experiente, mas que não tem todas as certezas, porque elas não existem como antes se pensava.

Muitos transformam a educação em uma agência de viagens, com roteiros pré-programados, previsíveis. É, sem dúvida, mais seguro, fácil para todos e confortável. Hoje é insuficiente esse modelo. Precisamos combiná-lo com roteiros semi-previsíveis, semi-estruturados, com pontos de apoio sólidos, mas com muitos momentos livres para permitir escolhas personalizadas e com outros de aventura, onde todos nos sintamos empolgados e efetivamente participantes de uma aprendizagem coletiva.

O que é importante para ser professor hoje

Algumas diretrizes são importantes para o professor que quer ser excelente profissional:[2]

  • Crescer profissionalmente, atento a mudanças e aberto à atualização.
  • Conhecer a realidade econômica, cultural, política e social do país, lendo atenta e criticamente jornais e revistas impressos e na Internet.
  • Participar de atividades e projetos importantes da escola
  • Escolher didáticas que promovam a aprendizagem de todos os alunos, evitando qualquer tipo de exclusão e respeitando as particularidades de cada aluno, como sua religião ou origem étnica.
  • Orientar a prática de acordo com as características e a realidade dos alunos, do bairro, da comunidade.
  • Participar como profissional das associações da categoria e lutar por melhores salários e condições de trabalho.
  • Utilizar diferentes estratégias de avaliação de aprendizagem — os resultados são a base para você elaborar novas propostas pedagógicas. Não há mais espaço para quem só sabe avaliar com provas.

Aprendendo a construir a identidade pedagógica pessoal

Cada um de nós vai construindo sua identidade com pontos de apoio que considera fundamentais e que definem as suas escolhas. Cada um tem uma forma peculiar de ver o mundo, de enfrentar situações inesperadas. Filtramos tudo a partir de nossas lentes, experiências, personalidade, formas de perceber, sentir e avaliar a nós mesmos e aos outros.

Uns precisam viver em um ambiente super-organizado e não conseguem produzir se houver desordem, enquanto outros não dão a mínima para a bagunça ou fazem dela um hábito. Uns precisam de muita antecedência para realizar uma tarefa, enquanto outros só produzem sob a pressão do último momento.

Na construção da nossa identidade é importante como nos vemos, como nos sentimos, como nos situamos em relação aos outros. Muitos fomos educados para depender da aprovação dos demais, fazemos as coisas pensando mais em agradar os outros do que no que realmente desejamos.

Todos experimentamos inúmeras formas de comparação, ficamos em segundo plano, fomos deixados de lado, sofremos todo tipo de perdas e isso interfere na nossa auto-imagem.

Sempre nos colocam modelos inatingíveis de beleza, de riqueza, de sucesso, de realização afetiva. É intensa a pressão social para que nos sintamos infelizes, diminuídos em alguns pontos ou para que nos contentemos com pouco.

Muitos permanecem imobilizados pelo medo do julgamento alheio, pelo medo de falhar. Vivem para fora, para serem queridos, aceitos. E sem essa aceitação se sentem mal, se escondem fisicamente ou através de formas de comunicar-se pouco autênticas, desenvolvendo papéis para consumo externo.

Internamente – mesmo quando aparentemente o negamos – temos consciência de que somos frágeis, contraditórios, inconstantes e, em alguns campos, inferiores a outros.

A grande questão é que, intimamente, muitos não se gostam de verdade, não se aceitam plenamente como são, duvidam do seu valor, tentam justificar seus problemas, procuram formas de compensação, de aprovação.

Boa parte dos nossos descaminhos, das nossas dificuldades, perdas e problemas advém do medo de sermos felizes, de acreditar no nosso potencial.

Ficamos marcando passo por sentir-nos inseguros, por incorporar tantas injunções negativas, acomodadoras, medíocres.

Essa construção da nossa identidade que fomos realizando tão penosamente não a podemos modificar magicamente. Podemos, contudo, aprender a ir modificando alguns processos de percepção, emoção e ação.

É importante reconhecer nossas qualidades, valorizá-las, destacá-las e buscar formas de colocá-las em prática, escolhendo situações em que elas sejam mais testadas e necessárias. Estar atentos ao que acontece e ir antecipando-nos, prevendo, testando, avaliando.

Somos chamados a realizar grandes vôos. Podemos ir muito além de onde estamos e de onde imaginamos e de onde os outros nos percebem.

Podemos modificar nossa percepção, aprendendo a aceitar-nos e a gostar plenamente de nós, a aceitar-nos plenamente, intimamente como somos, sem comparações nem desvalorizações, quando ninguém nos vê, quando não temos que representar para alguém e ir adiante, no nosso ritmo, acreditando no nosso potencial.

Para mudar o mundo podemos começar mudando a nossa visão dele, de nós. Ao mudar nossa visão das coisas, tudo continua no mesmo lugar, mas o sentido muda, o contexto se altera.

Em geral não é preciso ir morar em outro ambiente, em outra cidade, mas descobrir novas formas de olhar e de compreender as pessoas, os ambientes com as que convivemos.

Construímos a vida sobre fundamentos autênticos ou falsos. As construções em falso são como andaimes ou contrapesos para segurar uma parte do prédio que pode vir abaixo, cair. Procuramos esconder – até de nós mesmos – o lado negativo, o que anos incomoda, o que não gostamos.

Quanto mais muros de contenção, duplas paredes, contrafortes criamos,

Quanto mais estruturas paralelas levantamos, menos evoluímos a longo prazo, menos nos realizamos.

As pessoas podem criar obras incríveis, maravilhosas em qualquer setor e, mesmo assim, girar em falso, estarem construindo superestruturas paralelas.

Se o que nos leva a realizar coisas é a necessidade de reconhecimento, de aceitação, de ser queridos, o foco está distorcido e poderemos estar agindo a vida toda em falso.

Se eu preciso necessariamente da aprovação de alguém para sentir-me bem, na mesma medida deixo de aceitar-me, de gostar-me, de integrar-me. Eu me volto na direção do outro, o coloco como eixo e começo a girar em falso. E quanto mais insisto nesse padrão e direção, mais me afasto do meu centro, mais energia preciso gastar, mais peso e superestrutura acumular. Posso ser reconhecido e não evoluir nem ser feliz.

Creio que a grande maioria das pessoas se agita muito, faz mil atividades, mas não foca o essencial. Chega quase lá, mas lhe falta a atitude de total sinceridade consigo, de permitir-se o desvendamento de tudo o que é e carrega consigo. Espera a sua realização dos outros, de ser reconhecido por eles.

Hoje dá-se muita ênfase às profissões onde há visibilidade, de divulgação, de marketing, que propiciam ser reconhecido como as de modelo, ator, esportista, televisão…). Muitos buscam a TV, ser entrevistados, aparecer em comun as de jornais. Em si isso é bom, mas a atitude pode atrapalhar. Precisam de reconhecimento social como condição fundamental para sentir-se bem. São felizes se e quando aparecem, quando são solicitados, quando estão em evidência.

É bom ser chamado, mas não posso depender disso, não posso ser infeliz se não me chamam nem focar minha vida em função do reconhecimento público. Se vier, ótimo, o aceitarei com prazer, mas não estarei ansioso pelo sucesso, pela aprovação, por ser reconhecido. Continuo minha vida focando a aceitação, a mudança possível e a interação tranqüila com as pessoas e atividades que em cada etapa possuem significado e que me ajudam a crescer.

A comunicação autêntica estabelece conexões significativas na relação com o outro. Desarma as resistências e provoca, geralmente, uma resposta positiva, ativa, e desarmada dele. Em contrapartida, a comunicação agressiva gera reações semelhantes no outro e pode complicar todo o processo subseqüente.

A cada dia confirmo mais a importância de termos mais e mais pessoas na sociedade e especificamente na educação que sejam capazes de relacionar-se de forma aberta com os outros, que facilitem a comunicação com os colegas, alunos, administração e famílias. Pessoas maduras emocionalmente, que saibam gerenciar os conflitos pessoais e grupais; que tenham suficiente flexibilidade para compreender diferentes pontos de vista, e intuição para aproximar-se de forma adequada a diferentes pessoas e formas de viver.

Necessitamos urgentemente dessas pessoas para mudar o enfoque fundamental das práticas educacionais, para vivenciar práticas mais ricas, abertas e significativas de comunicação pedagógica inovadora, profunda, criativa, progressista.

Descubro, com satisfação, que mais e mais pessoas estão ou mudando ou querendo mudar. Isso é um excelente sinal de que é possível realizar um grande trabalho na educação brasileira. Vamos concentrar-nos nestes grupos que estão prontos para o novo, que procuram aprender, que estão dispostos a avançar, a experimentar formas mais profundas de comunicação pessoal e tecnológica.

Temos um longo trabalho, no campo político, de implementar ações estruturais de apoio à mudança integrada, que contemple currículo, processos de comunicação e tecnologias. Podemos ir incentivando as pessoas, grupos e instituições que estão buscando soluções novas e sérias em educação. Na universidade podemos dar subsídios teóricos e pedagógicos para essa mudança.

[1] Um jeito de ser, p.33.

[2] Adaptado de Denise PELLEGRINI. O ensino mudou e você?. Revista Nova Escola. Ed. 131, abril, 2000. Disponível em: http://novaescola.abril.uol.com.br/ed/131_abr00/html/cresca.htm

Este texto meu foi publicado no livro A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá, p. 73-86.

Fonte: http://www.eca.usp.br/prof/moran/desafios.htm