Os perigos do filtro tecnológico

Objetos de sedução dos jovens, o computador e a tecnologia ainda não se traduzem em ganho para os processos de aprendizagem o âmbito escolar. Sua utilização divide os educadores: vamos mudar nossa forma de ler o mundo ou empobrecê-la?

Henrique Ostronoff


Durante um evento promovido por uma associação de editoras, o crítico literário e professor Antonio Candido de Mello e Souza, um dos intelectuais mais respeitados do país, discorria sobre livros e leitura. Num dado momento, lembrou de sua vida escolar na infância e adolescência em Poços de Caldas e da relação com seus primeiros livros didáticos, do carinho que sentia por eles e como instigavam sua imaginação. Contou a história de um professor de português que usava Os Lusíadas, de Luís de Camões, para ensinar análise sintática. Para o autor de Formação da literatura brasileira, analisar as estrofes do clássico quinhentista de Camões era um verdadeiro suplício, mas ao mesmo tempo um desafio prazeroso, pois ele e os colegas tinham uma enorme vontade de aprender. 
Cerca de 80 anos da experiência por Antonio Candido no ginásio de uma escola pública do interior de Minas Gerais, a prática de aprendizado que ele viveu pode parecer conservadora. Basta imaginar o que aconteceria hoje, em uma grande cidade, se um professor do ensino fundamental II resolvesse ler Camões com os seus alunos. Não seria nem preciso que pedisse uma análise sintática. Apenas que fizessem um trabalho sobre Os Lusíadas.

Provavelmente o aluno não precisaria nem adquirir o livro. Correria para o computador de casa, da escola ou de uma lan house, entraria na internet e digitaria o nome do livro em um programa de busca.  De cara, receberia cerca de 580 mil respostas de páginas contendo o título da obra. Se fosse mais esperto, buscaria “Lusíadas resumo” e obteria cerca de 300 mil respostas. Refinando ainda mais a pesquisa com “análise Lusíadas”, seriam 86 mil verbetes. No entanto, se tentasse “Camões”, o serviço de busca lhe daria 2,7 milhões de opções. Depois de escolher uma página que lhe parecesse mais interessante passaria para o processo de “copia e cola”, jogaria o conteúdo no processador de texto e imprimiria. Pronto. A tarefa estaria cumprida. Não seria preciso nem ler o que “escreveu”.

Esse exemplo extremo, embora comum, é apenas uma amostra dos efeitos que a tecnologia pode ter nas relações do processo de ensino. O fenômeno não se restringe a países com resultados educacionais abaixo da média, como é o caso do Brasil, sempre em posições inferiores nos testes internacionais que comparam as situações escolares. A informatização da educação se espalha pelo mundo como reflexo do ambiente de comunicações instantâneas, que oferece uma quantidade infindável de informações.

A idéia de restringir ao máximo a tecnologia nos processos pedagógicos encontra eco entre alguns estudiosos do tema. No entanto, a maior parte dos especialistas defende a sua utilização como forma de auxílio ao processo de aprendizagem, desde que não seja usada como um fim em si mesma e não sirva apenas como chamariz para motivar os alunos. E todos chamam a atenção para uma condição essencial para a melhoria do ensino, com informatização ou não das escolas: a formação adequada do professor para desenvolver uma consciência crítica em relação ao uso dos meios tecnológicos.

Acostumados à troca veloz de informações, os jovens de hoje vêem a escola como uma instituição à parte de seu mundo

 Explosão tecnológica 

A utilização dos meios digitais de comunicação começou a alastrar-se a partir de meados dos anos 1990, com a crescente globalização mundial. O desenvolvimento da banda larga permitiu acesso rápido à internet. Os computadores cada vez mais “amigáveis” e com preços acessíveis e suas variações com tamanhos cada vez mais reduzidos possibilitando maior mobilidade, como notebooks e celulares multifunção, disseminaram o uso da grande rede mundial de informações.

Programas de comunicação instantânea possibilitam a troca de mensagens escritas e contato virtual com a transmissão não só de voz, como de imagens em tempo real por meio de câmeras de vídeo simples. Os jogos eletrônicos podem contar com a presença simultânea de vários participantes, cada qual em um ponto do planeta. Os sites de relacionamento unem sob um mesmo grupo de interesse gente que possivelmente nunca se conhecerá cara a cara. E os blogs permitem que qualquer pessoa mantenha sua própria página, sobre os mais variados assuntos.

No Brasil, em abril de 2008, 22,4 milhões de pessoas usaram internet residencial, 18,3 milhões delas com banda larga, segundo o Ibope/NetRatings. Aumento de mais de 50% em relação ao ano anterior. E a média de tempo de navegação foi de 22 horas e 47 minutos por pessoa ao mês, índice dos mais altos do mundo.

Nascidos digitais

Esse uso intenso e freqüente do mundo digital motivou a criação do conceito de “Homo zappiens”. No livro homônimo, cujo subtítulo é Educando na era digital, o autor Wim Veen, diretor da área de Educação e Tecnologia da Universidade de Tecnologia de Delft, na Holanda, afirma que essa nova “espécie” de jovens cresceu usando intensamente múltiplos meios da tecnologia. “Esses recursos permitiram às crianças de hoje ter controle sobre o fluxo de informações, lidar com informações descontinuadas e com a sobrecarga de informações, mesclar comunidades virtuais e reais, comunicar-se e colaborar em rede, de acordo com suas necessidades.” Dessa forma, tendo como referência países do mundo desenvolvido, Veen diz que os alunos desta geração, ao perceber a escola como instituição à parte de seu mundo, consideram-na como algo irrelevante em suas vidas cotidianas. No dia-a-dia escolar, mostram comportamento dito hiperativo e concentração intermitente, preocupando pais e professores. “Mas o Homo zappiens quer estar no controle daquilo com que se envolve e não tem paciência para ouvir um professor explicar o mundo de acordo com as suas próprias convicções. Na verdade, o Homo zappiens é digital e a escola analógica.”


Alunas de colégio em Piraí (RJ) em projeto que distribuiu laptops para os alunos. Para especialistas, não adianta usar novas tecnologias e não renovar o fazer pedagógico

 Para Wim Veen, o Homo zappiens começa o seu aprendizado no computador. No game via internet, com a colaboração de outros participantes busca as estratégias necessárias para vencer etapas desenvolvendo capacidades para categorizar e resolver problemas, além de adquirir outras habilidades metacognitivas. Assim, o importante para ele é a forma como lida com a informação. Veen considera que a aprendizagem nos dias atuais se dá efetivamente quando os indivíduos “tentam construir o conhecimento a partir das informações outorgando significado a elas”.

Em uma hipotética metodologia pedagógica dedicada ao Homo zappiens, o pesquisador holandês prevê que as escolas deixariam de treinar as crianças para a certeza. Os alunos seriam preparados com o objetivo de que obtivessem flexibilidade suficiente para atuar em uma sociedade permeada pelo conhecimento intenso e em constante mudança. A aquisição de conteúdo deixaria de ser o objetivo principal da educação e os professores teriam o papel de orientadores que oferecem apoio especializado aos alunos, os quais teriam independência para “aprender sobre questões e problemas da vida real”.

Para Maria Elizabeth Bianconcini de Almeida, professora do Departamento de Ciência da Computação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a cultura digital é uma realidade, inclusive no Brasil. “A criança de hoje é diferente. Mesmo que  não trabalhe o tempo todo com o computador em casa, como no caso das classes populares, ela já está inserida nessa sociedade.”

Por conta disso, a especialista da área de tecnologia e formação de professores afirma que quando se fala de acesso do estudante à internet, deve-se treiná-lo para selecionar os conteúdos adequados. “E para que o aluno faça isso é preciso prepará-lo de uma forma diferente porque ele não está acostumado a sair em busca da informação. Ele já recebeu a informação que foi selecionada previamente muito antes de termos esses recursos. Então, hoje, a lista de conteúdos que é trabalhada na escola, numa determinada ordem, foi definida levando em conta o desenvolvimento da criança antes da sociedade digital”, diz.

Ainda segundo a professora da PUC-SP, os recursos tecnológicos têm como conseqüência a transformação da relação entre professor e aluno. “A tecnologia estrutura nosso modo de pensar. Qualquer tecnologia. Com o caderno e o lápis, eu tenho uma determinada direção para expressar o meu pensamento – da esquerda para a direita, de cima para baixo. Se vou expressar por meio de uma fotografia ou vídeo, tenho de pensar de forma diferente para fazer essa representação. Quando vou trabalhar com o computador e a internet, também vou pensar de forma diferente.” Sendo essa tecnologia um meio de comunicação não tradicional, “mudam as relações entre professores e alunos, mudam as relações que se estabelecem na escola”, afirma.

Apesar de defender a implantação de tecnologia para o processo de aprendizado nas escolas com o objetivo de inserir a sociedade no mudo digital, Elizabeth Almeida acredita que é necessário “analisar quais recursos tecnológicos podem contribuir na aprendizagem, que potencialidades têm e limitações também, porque toda tecnologia tem potencial e limitação”. E que é essencial um olhar crítico, que  “é saber analisar determinada tecnologia e saber quando ela é adequada para ser incorporada numa atividade pedagógica”. Acrescenta que não se trata de simplesmente informatizar o ensino. “Não é colocar no computador as lições e o conteúdo atuais e o aluno ficar ali acessando o conteúdo e a informação. Uma aula dialógica pode ser muito competente. É um desperdício usar a tecnologia para isso, é muito cara para ser usada dessa maneira.”

Tecnologia para quê?

No site de compartilhamento de vídeos digitais YouTube, a animação Tecnologia ou Metodologia? (http://br.youtube.com/watch?v=IJY-NIhdw_4), realizada pelo Grupo de Trabalho de Imagem e Conhecimento da Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac), mostra uma sala de aula onde crianças aprendem a tabuada. Elas simplesmente lêem em voz alta e em uníssono os números apontados pela professora em um cartaz pregado ao quadro-negro. De repente, a aula é interrompida pelo diretor que anuncia uma “nova escola” modernizada por meio da implantação de “ferramentas modernas” para o ensino. “Uma semana depois…” aparece a classe informatizada, com um computador sobre a carteira de cada aluno. A professora aperta um botão e uma tela se desenrola automaticamente sobre o quadro-negro. Nesse momento, o projetor passa a transmitir imagens. Da tabuada.  E os alunos voltam à mesma cantilena: duas vezes um, dois; duas vezes dois, quatro; duas vezes três, seis… “De que serve a tecnologia se o método se mantém? Cadê a nova escola?”, diz o letreiro final da animação.

Paulo Gileno Cysneiros,  pesquisador do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), menciona essa animação como exemplo do que chama de inovação conservadora. “O conceito carrega uma contradição em si. No sentido de que uma tecnologia é utilizada para fazer algo que se poderia fazer sem ela. É uma inovação apenas na aparência”, diz. Para Cysneiros, doutor em psicologia educacional pela Syracuse University, Estados Unidos, a tecnologia deve ser aproveitada quando acarreta uma compreensão melhor do objeto. E inova apenas quando possibilita uma perspectiva diferenciada de conhecimento e dá acesso a uma capacidade extra sem a qual não seria possível desenvolver uma determinada ação. “Por exemplo, quando eu escrevo com processador de texto, torno o texto flexível. Não tenho outra maneira de tornar o texto flexível”, explica.

Cysneiros acredita também que o encantamento provocado pela tecnologia leva ao tecnicismo, ou seja, ao privilégio da técnica sobre o fim da ação. “O médico vai fazer uma determinada operação e tem todo o instrumental. Então escolhe a tecnologia exatamente adequada para aquilo. Em determinado momento, usa um bisturi a laser, mas em outros, uma faquinha, um bisturi normal, uma pinça ou um tomógrafo, sempre dentro do objetivo”, exemplifica.

Evitar o “canto da sereia” da novidade é fundamental para as escolas que desejam implantar recursos tecnológicos, adverte o ex-professor titular da UFPE. “O novo é um dos aspectos mais fascinantes da tecnologia. Uma tecnologia nova não tem história. E uma coisa sem história é algo muito perigoso. Porque a história tem significações, mostra aspectos negativos. No caso da internet, quando surgiu todo mundo estava encantado com ela. Hoje em dia se vê que a internet tem aspectos fantásticos, mas outros deploráveis. A tecnologia é um dos adjetivos da educação. E se a gente confundir o adjetivo com o substantivo vai cair no tecnicismo”, afirma.

Para Simone Terezinha Bortoliero, professora da Faculdade de Comunicação (Facom) da Universidade Federal da Bahia (UFBA), os recursos da tecnologia são ilimitados, mas é preciso saber usá-los, mediar e orientar o seu uso. O enorme volume de informação circulando pelas mídias eletrônicas torna as crianças e os jovens mais vulneráveis. “O senso crítico pode ser comprometido a partir do momento que não conseguimos identificar o que é bom ou ruim do ponto de vista da informação”, diz. No entanto, afirma Bortoliero, “isso não seria um problema, se na base do sistema formal de ensino tivéssemos uma educação para as mídias, adotada nas escolas, que pudesse contribuir para o debate sobre o uso das tecnologias”.

A professora da UFBA acredita que as novas tecnologias estão modificando a forma como os alunos encaram a educação. Deixam de pesquisar em livros e passam a utilizar intensamente a internet. “A falta de leitura não é somente de livros, mas percebemos que as crianças e os jovens têm dificuldades para interpretar as informações que circulam na rede, porque desenvolveram primeiro a capacidade técnica de uso dessa mídia, como apertar, recortar e colar. Isso é um fato. Com o domínio técnico se tornaram mais velozes, entram e saem de qualquer programa com grande facilidade. Já possuem domínio da ferramenta. Agora, saber ler é outra coisa. Saber ler é um ato que faz parte de um entendimento sobre o mundo, não importa se na internet, nos outdoors das ruas, nas embalagens de supermercado ou programas de televisão”. E acrescenta: “Se julgamos que somos educadores é necessário conhecer de forma aprofundada essas novas formas de comunicação e não fingir que nada está acontecendo. Vamos adotar como experiência diária o saber fazer com as crianças e jovens e não, para elas”.

O computador em casa

No artigo “Os determinantes do desempenho escolar do Brasil”, o economista Naercio Menezes Filho, professor do Ibmec São Paulo e da Faculdade de Economia e Administração da USP, afirma que entre outros fatores a utilização de métodos de ensino que utilizam computadores e o número desses equipamentos na escola pouco influenciam o desempenho dos alunos brasileiros.

Para Menezes, isso se explica pelo fato de a tecnologia não exercer um papel fundamental nas relações de aprendizagem, diante de um quadro em que o professor muitas vezes está desmotivado e os alunos desinteressados. “Quer dizer, não existem as mínimas condições para que haja aprendizado efetivo do professor e do aluno. Nessas condições, colocar computador ou laptop não vai adiantar nada praticamente.” Além disso, afirma que nas escolas em que os computadores não ficam em laboratórios fechados, dificultando o acesso, os estudantes se dedicam mais a navegar pela internet e a trocar mensagens. “Isso mostra que o computador é prejudicial ao aprendizado na medida em que o aluno se dispersa com outras coisas.”

Baseado em dados do Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb) de 2003, o estudo mostra, porém, uma situação de melhora de desempenho quando se trata de alunos de escolas privadas com computadores em casa. Para Menezes, essa situação se explica pela condição socioeconômica diferenciada desses estudantes. “Geralmente nessas famílias a escolaridade dos pais é mais elevada, os pais entendem a importância da educação, entendem muitas vezes o que é um bom uso do computador e monitoram seus filhos”, explica.

O site de Valdemar Setzer (www.ime.usp.br/~vwsetzer)  traz no alto da página em letras grandes a seguinte advertência: “Deixe as crianças serem infantis: não lhes permita o acesso à TV, jogos eletrônicos e computadores/Internet!”. Para o pesquisador e ex-professor titular do Departamento de Ciência da Computação do Instituto de Matemática e Estatística da USP, os badalados recursos tecnológicos tão cultuados pelas crianças e adolescentes deveriam ser, se não banidos, pelo menos usados com a máxima parcimônia. Não só nas salas de aula como em casa.

Setzer é autor de dezenas de livros e artigos sobre tecnologia e educação, todos sustentados em ampla bibliografia e pesquisas, que apontam os efeitos nocivos causados pelos meios eletrônicos sobre os jovens. A televisão, por exemplo, causa sonolência nas pessoas, o que explica o movimento rápido e constante das cenas durante as transmissões dos programas. Assim, explica Valdemar Setzer, não sobra espaço para o telespectador formar imagens próprias, pois as pessoas não conseguem nem pensar sobre aquilo que está sendo transmitido. “O mais importante é criar nas crianças imagens, elas têm de treinar a imaginação. É muito mais importante criar imagens do que ver imagens. A televisão mata a capacidade de a criança ser fantasiosa”, diz. Dessa maneira, essa mídia deveria ser usada nas escolas somente em casos excepcionais, para alunos a partir da 8ª série, e a transmissão de vídeos ilustrativos com no máximo 4 minutos de duração, seguida de intervenções do professor.

O uso da informática, segundo Setzer, é tão nocivo para o desenvolvimento das crianças quanto a televisão. “O computador é uma máquina matemática. Quando alguém dá um comando, ativa-se nele uma função matemática. Então é preciso pensar, raciocinar matematicamente, o que a gente chama de lógica simbólica. É tudo feito por meio de símbolos, existe uma lógica estrita. Dessa forma, força-se a pessoa a usar um tipo de pensamento que consiga fazer com que o computador interprete corretamente. Não se pode pensar qualquer coisa. Só aquilo que os comandos da máquina determinam. A pessoa não está percebendo, mas ela está usando um sistema bem definido.” E acrescenta: “Compare isso com o relacionamento social ou atividade artística. Não existe nada tão bem definido. Alguém dá um presente para a sua namorada e de repente ela não gosta. O ser humano é imprevisível, o computador é totalmente previsível. Se não fosse assim, não teria a utilidade que tem. Isso produz nas crianças e adolescentes uma mentalidade de que tudo é previsível no mundo. Esse é um dos problemas”.

Para Setzer, não são recursos informatizados que tornarão a educação mais atraente. As instituições falham por não produzir mais vivências. Por isso, sentencia:  “A escola não interessa aos alunos simplesmente porque ela é desumana. E não adianta querer que a tecnologia conserte a desumanidade da escola. A gente tem de consertar tornando a escola mais humana, não mais tecnológica. Está se corrigindo um erro produzindo um erro ainda maior”.

Fonte: Revista Educaçãohttp://blog.controversia.com.br/2009/03/12/os-perigos-do-filtro-tecnolgico/

O Twitter na nova Educação

Texto Luciana Maria Allan

Um olhar crítico sobre os recursos tecnológicos disponíveis deve ser uma prática permanente na nova Educação

Foto: O @colband segue especialistas e repassa para os alunos as últimas tendências


O @colband segue especialistas e repassa para os alunos as últimas tendências

O Twitter é uma ferramenta de microblogging que permite a troca de mensagens, com até 140 caracteres. Provavelmente, você já leu esta definição em dezenas e dezenas de artigos. Muitos deles ensinando como redigir o conteúdo a ser compartilhado; outros questionando as funcionalidades desta rede social.

A nova Educação, calcada principalmente nos elementos humanos e na real troca de experiência, exige um planejamento preciso. Dessa forma, um olhar crítico sobre os recursos tecnológicos disponíveis deve ser uma prática permanente. Portanto, entender as funcionalidades e sua essência é requisito básico. Caso contrário, não se tem eficácia. Parece óbvio, mas poucos fazem desta forma!

Na maioria das vezes, no Twitter, mensagens sem propósitos povoam as páginas; usuários seguem outros sem qualquer critério; e links são postados sem acrescentar conteúdo. Na área de Educação, por exemplo, é comum lermos mensagens questionando a qualidade do ensino (“O ensino no Brasil tem qualidade?”) ou defendendo a sua importância (“Educação é fundamental”). Mas poucas apresentam soluções ou caminhos a serem seguidos para obter resultados significativos. Talvez isso ocorra porque poucos conhecem a verdadeira utilidade das ferramentas sociais: propagar discussões e, ao mesmo tempo, oferecer elementos para o aprimoramento contínuo.

Neste contexto, as poucas ações sérias e de qualidade merecem destaque. O Colégio Bandeirantes, por exemplo, utiliza o Twitter para divulgar informações dos departamentos, curiosidades e convites. Com mais de 500 seguidores, o @colband, além de noticiar informações institucionais, segue especialistas e repassa para os alunos as últimas tendências.

Com uma proposta clara (“o nosso propósito de formação integrada valoriza o desenvolvimento de potencialidades intelectuais e afetivas dos nossos alunos”), o Twitter do Colégio Bandeirantes foi estruturado após muito planejamento e é decorrência de uma ampla pesquisa da instituição para a escolha do conteúdo a ser propagado. O resultado: alunos seguem, propagam as informações divulgadas pelo @colband e têm a oportunidade de enviar mensagens diretas para o Twitter, tirando dúvidas e fazendo considerações.

Outras instituições de ensino também estão se relacionando de forma efetiva no Twitter – embora com mais timidez do que o @colband: Parthenon (@tparthenon), com 157 seguidores; Bilac (@colegiobilac), com 90 seguidores; e Dante Alighieri (@colegiodante), com 270 seguidores.

No Brasil, ações eficazes como estas e do Colégio Bandeirantes são muito limitadas. Já no exterior, são mais evidentes. Além dos colégios aderirem à ferramenta para propagar informações, os próprios alunos estão sendo incentivados a utilizá-la. O The Guardian noticiou, recentemente, que ensinamentos relacionados ao Twitter farão parte do currículo das escolas primárias do Reino Unido.

No Brasil, essa revolução deve demorar para acontecer. Por aqui, começou, recentemente, o debate de estudos antigos, como, por exemplo, o “Can we use Twitter for educational activities?” (“Podemos usar o Twitter para atividades educacionais?”, em português). Detalhe: o documento foi lançado pelas pesquisadoras Gabriela Grosseck e Carmen Holotescu em 2008, atestando, de certa forma, a falta de agilidade brasileira.

O estudo defende, por exemplo, a necessidade de se twittar dentro das salas de aulas, promovendo a rápida discussão de temas, e reforça a necessidade do Twitter ser utilizado como ferramenta educacional. Outras dicas interessantes: compartilhamento de vídeos de aprendizagem; reenvio de tweets interessantes e divulgação de mensagens com os links do site, blog ou podcast da instituição de ensino.

Não esqueça: faça enquetes, abra discussões, troque experiências com os alunos e aproveite a oportunidade para despertar o senso crítico e o poder de síntese dos discentes – uma das competências mais privilegiadas hoje no mercado de trabalho.

Mais importante do que divulgar informações é fazer com que a mensagem seja compreendida de forma clara, simples e sintética! No próximo artigo, falaremos sobre as outras ferramentas que discutem as novas tecnologias aplicadas à Educação. Enquanto isso, explore o NING. Lá, há comunidades interessantes sobre Educação, novas tecnologia e inclusão digital. Aproveite!

(*) Luciana Maria Allan é diretora do Instituto Crescer Para a Cidadania e doutoranda na Faculdade de Educação da USP. E-mail: luciana@institutocrescer.org.br

Fonte: http://educarparacrescer.abril.com.br/aprendizagem/twitter-educacao-507544.shtml